Como cientistas estimam a chegada do pico da pandemia no Brasil

Segundo especialista, não existe uma epidemia única no país, é preciso considerar os padrões diferentes identificados em estados e regiões

Victor Pinheiro 10/06/2020 12h06
teste por coronavírus
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O primeiro caso de Covid-19 no Brasil foi diagnosticado em 26 de fevereiro. De lá pra cá, foram registradas mais de 743 mil contaminações e 38 mil mortes pela doença. Embora alguns estados e municípios já tenham iniciado planos para afrouxar o isolamento social, em entrevista à BBC News, especialistas apontam que ainda não há indícios que a pandemia já tenha atingido seu auge no país.


Segundo eles, devido às proporções continentais do Brasil, também é impossível determinar um único pico para toda a nação. "Não existe uma epidemia única no Brasil. Temos uma pandemia composta por diversas epidemias locais, com padrões diferentes", disse Márcio Sommer Bittencourt, médico do centro de pesquisa clínica e epidemiológica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP), em entrevista à BBC.

Para os cientistas existem três fatores fundamentais que podem ajudar autoridades a entender se uma região já passou pelo período mais delicado de uma pandemia: o número de novos casos e mortes registrados por dia, a taxa de disseminação do vírus e o número de ocorrências de síndrome respiratória aguda grave.

Estatísticas diárias

Enquanto os números de casos e mortes diárias estiveram crescendo, não é possível afirmar que uma região superou o pico da pandemia, de acordo com os especialistas. Para que isso ocorra, é necessário observar uma queda constante nas estatísticas diárias por pelo menos duas semanas, de forma a confirmar que não se trata apenas de oscilações pontuais.

Domingos Alves, professor da Faculdade Medicina da USP em Ribeirão Preto e colaborador do portal Covid-19, que monitora a pandemia no país, afirma que ainda não foram identificados quedas sustentadas em nenhum estado brasileiro.

São Paulo, por exemplo, registrou nesta terça-feira (9) o recorde de 334 mortes registradas em um único dia, totalizando 9.552 vítimas de Covid-19. As autoridades paulistas alegam, no entanto, que a pandemia desacelera no estado e está próxima do platô, isto é, uma situação de pico contínuo que demora a cair, mas que antecede a queda dos números de casos.

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A cidade de São Paulo reabriu o comércio de rua nesta quarta-feira (10). Imagem: Fabio Vieira/Getty Images

De acordo com Alves, a pandemia estava concentrada nas capitais do Brasil até maio e agora avança em cidades do interior. "Os números de novos casos e mortes não estão só aumentando. Esse crescimento também está acelerando. Nessa toada, o pico só deve ocorrer entre o meio e o final de agosto.", afirmou.

Velocidade de transmissão do vírus

Outro índice fundamental utilizado por epidemiologistas para estimar o cenário de uma pandemia corresponde a taxa de transmissão do vírus, conhecida como Rt. Este índice mede a capacidade de contágio de um microorganismo (R0) em um determinado período.

O R0 descreve a tendência de quantas pessoas saudáveis um indivíduo infectado pode contaminar. Caso o índice corresponda a três, significa que uma mesma pessoa deve contaminar outras três. Quando a taxa é maior que um, a transmissão do vírus cresce exponencialmente. Se ela for menor que este mesmo limite, a contaminação está sendo suprimida.

Na prática, os valores de Rt e o R0 são os mesmos, a diferença é que o Rt consiste na divulgação do R0 identificado em cada semana epidemiológica, o que permite cientistas avaliarem o crescimento ou decréscimo da capacidade de contágio ao longo do tempo.

"O Rt indica o quanto a doença está desacelerando ou acelerando", diz Bittencourt. Ela explica que quando o índice estiver se aproximando de 1, a região está mais próxima do auge da epidemia. E só é possível dizer que passamos do pico quando a taxa ficar abaixo do mesmo limite por um período consistente.

"Todos os cálculos continuam indicando que o Rt no Brasil continua acima de 1", disse o epidemiologista Antonio Moura da Silva, professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), à BBC.

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Pandemia do novo coronavírus já infectou mais de 7 milhões de pessoas ao redor do mundo. Imagem: NIAID/Flickr

Embora a taxa do Brasil esteja em queda desde o final de abril, dados atuais apontam que o índice ainda fica acima de 1 em quase todos os estados, com exceção do Amazonas (0,96), Pernambuco (0,95) e Rio Grandes do Norte (0,93).

O cenário ideal para uma retomada de atividades econômicas, segundo o professor da Universidade Federal do ABC, Renato Coutinho, seria uma taxa controlada próximo de 1 ou abaixo de 0,8. "Quando fizeram isso em Wuhan, na China, estava em 0,3. E, na Alemanha, em 0,75.", disse.

Síndrome respiratória aguda grave

Em meio à escassez da oferta de exames de diagnóstico para detectar o novo coronavírus no Brasil, cientistas apontam a importância dos registros de síndrome respiratória aguda grave (sdrag) por unidades de saúde no país.

Os casos são notificados oficialmente desde a pandemia de H1N1, em 2009. Quando uma pessoa procura hospitais com desconfortos respiratórios, a ocorrência é registrada pelo Infogripe, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

"Podemos olhar esse dado como um bom termômetro do que está acontecendo na pandemia", disse Marcelo Gomes, coordenador do Infogripe, à BBC.

Os dados do sdrag não sofrem influência da subnotificação de Covid-19, porque a síndrome respiratória depende de exames clínicos para ser diagnosticada. Em 2020, foram notificados 159 mil casos, quadro vezes mais do que em 2019. Do montante, 63 mil testaram positivo para algum vírus, e, em 98% deles, os resultados indicaram infecção pelo novo coronavírus.

De acordo com a BBC, o sistema da Fiocruz indica tendência geral de estabilização das novas notificação de sdrag, ainda que os dados mostrem um número de ocorrências muito acima do normal. Os sinais são de estabilização no Sudeste e de queda no Norte e Nordeste, mas a epidemia cresce no Sul e no Centro-Oeste do país.

"Ainda não podemos fincar uma bandeira e dizer que chegamos ao pico, porque esse processo depende muito do que vamos fazer agora", afirma Gomes. Para ele, a flexibilização de medidas de distanciamento social podem facilitar o contágio e atrasar o auge do pico da pandemia. "Mas, se mantivermos essas medidas, o que é uma estabilização agora pode se transformar em uma queda", afirma.

Fonte: BBC



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