O barco encosta em um cais silencioso, e dezenas de olhos felinos acompanham cada passo sobre o concreto. Em Aoshima, no oeste do Japão, a fama nasceu de uma proporção incomum entre gatos e moradores. Documentos oficiais, porém, mostram que a história envolve pesca, envelhecimento populacional, esterilização e uma confusão sobre o papel da prefeitura.
Como Aoshima passou a reunir tantos gatos?
A presença felina cresceu em uma comunidade ligada à pesca. A Associação de Promoção das Ilhas de Ehime descreve Aoshima como uma ilha de 0,49 km², situada a 13,5 km do Porto de Nagahama, com pesca e coleta de hijiki entre suas atividades tradicionais. A redução dos habitantes deixou casas vazias e menos pessoas disponíveis para acompanhar uma população animal que continuava aumentando.
Quando a população humana caiu, os gatos permaneceram e se multiplicaram. Em 2014, um levantamento da cidade de Ozu contou 91 gatos e 17 moradores. A relação era de aproximadamente 5,4 animais por pessoa, número frequentemente arredondado para seis. Naquele ano, o interesse cresceu tão depressa que o movimento mensal do barco saltou de uma faixa anterior de 100 a 200 passageiros para mais de 700 em março, abril e maio.
Os números oficiais mudaram com o tempo
A proporção nunca ficou congelada. Em 2018, a Fundação Dobutsu Kikin informou que Aoshima tinha mais de 200 gatos e apenas seis habitantes. Naquele momento, os felinos superavam os humanos em mais de 30 vezes, muito acima da relação citada no título. A ação ocorreu depois de anos de diálogo com os moradores, pois qualquer intervenção precisava respeitar o cotidiano da pequena comunidade.
A operação realizada naquele ano esterilizou 172 animais gratuitamente em dois dias. Seis anos depois, uma discussão oficial na Câmara Municipal de Ozu estimou entre 70 e 80 gatos. O declínio era esperado, pois a esterilização interrompeu novos nascimentos e formou uma população cada vez mais idosa. O guia oficial das ilhas de Ehime também registra apenas cinco habitantes e três domicílios no Censo de 2020, sinal de que o desequilíbrio continua, mesmo com menos felinos.

A prefeitura paga moradores para cuidar dos gatos?
Não há registro oficial de salário ou pagamento mensal aos moradores para alimentar e cuidar dos gatos de Aoshima. A documentação municipal aponta outra estrutura, formada por cooperação entre habitantes, voluntários, entidades de proteção animal, veterinários e o poder público. Em 2014, a própria cidade definiu uma área de alimentação perto do centro comunitário, limitou a quantidade oferecida pelos turistas e pediu que sobras fossem deixadas sob controle local.
A prefeitura participou da organização de ações sanitárias e mantém, desde 2022, um programa municipal de auxílio para esterilização de gatos em Ozu. Entretanto, o apoio alimentar específico da ilha aparece ligado principalmente a doações recebidas pela associação de proteção dos gatos de Aoshima. O boletim oficial municipal relata que essas contribuições financiaram comida, cirurgias restantes e cuidados posteriores, inclusive vacinação após um surto de doença respiratória em 2020. Portanto, a afirmação de que moradores recebem para cuidar deles simplifica de forma incorreta esse arranjo.
Como visitar Aoshima sem atrapalhar a rotina?
| Tipo | Foco |
|---|---|
| Transporte | Duas travessias diárias, com moradores atendidos primeiro. |
| Convivência | Respeito às casas, ao cais e à alimentação controlada. |
O acesso ocorre pelo Porto de Nagahama, perto da estação Iyo-Nagahama. Segundo a página oficial da embarcação Aoshima, a viagem dura 35 minutos. Há duas saídas diárias, às 8h e às 14h30, com retorno final às 16h15. De carro, o porto fica a cerca de uma hora de Matsuyama e a 20 minutos do centro de Ozu.
A passagem de adulto custa 700 ienes por trecho, conforme a tabela atualizada em julho de 2026. A ilha não tem lojas nem máquinas de bebidas, por isso o visitante precisa levar água e recolher o próprio lixo. O barco pode lotar, prioriza moradores e sofre cancelamentos quando o tempo ou o mar impedem a travessia. Também é essencial não entrar em terrenos residenciais nem bloquear o transporte de água, mantimentos e outros volumes desembarcados no cais.
Uma ilha que pede respeito
Aoshima revela muito mais que uma fotografia cercada por gatos. A ilha reúne despovoamento, memória pesqueira e um esforço coletivo para reduzir sofrimento animal sem apagar a rotina de quem permaneceu. Seus números mudam porque humanos e felinos envelhecem em ritmos diferentes, enquanto o cuidado depende de cooperação e doações, não de salários municipais. Quem fizer a travessia deve chegar com curiosidade, mas agir como visitante na casa de poucas pessoas, compreender a transformação demográfica local e respeitar uma comunidade felina envelhecida.
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