Em 2 de setembro de 2018, um incêndio devastou o Museu Nacional/UFRJ e atingiu um acervo com mais de 20 milhões de itens. No interior do Paço de São Cristóvão, porém, uma massa metálica de 5,36 toneladas atravessou o desastre. O Meteorito Bendegó permaneceu intacto. Sete anos depois, voltou a receber visitantes no mesmo palácio em reconstrução.
Como o Bendegó chegou ao Museu Nacional?
O Bendegó foi encontrado em 1784, perto de Monte Santo, no sertão baiano. Segundo o Museu Nacional, ele mede 2,15 por 1,5 por 0,65 metro. Sua massa chega a 5,36 toneladas. O material é formado por uma massa compacta de ferro e níquel. A instituição atribui a descoberta a Domingos da Motta Botelho, que pastoreava gado na região.
A primeira tentativa de transporte fracassou quando uma carreta perdeu o controle e caiu no riacho Bendegó. O bloco permaneceu ali por mais de um século. Depois, uma nova operação conseguiu levá-lo até a ferrovia. O percurso terrestre somou 113 quilômetros em 126 dias, segundo relato institucional. Após passar por Salvador, o meteorito chegou ao Rio de Janeiro. Desde 1888, ele integra a história expositiva do museu.
O meteorito já era uma peça extraordinária antes do incêndio
O tamanho não é a única razão para a importância do Bendegó. O setor de Meteorítica do Museu Nacional o identifica como o maior meteorito brasileiro. A instituição informa que ele foi reconhecido cientificamente como meteorito em 1816. Na época da descoberta, a natureza extraterrestre desses objetos ainda não era compreendida. Por isso, a trajetória do bloco acompanha os primeiros capítulos da meteorítica moderna. Sua história científica começou muito antes da chegada ao Rio.
O Bendegó também circulou cientificamente antes de chegar ao Rio. Registros do museu citam visitantes como Mornay, em 1810, e Spix e Martius, em 1820. Estes últimos retiraram cerca de 15 quilos de fragmentos. Partes foram distribuídas a grandes museus estrangeiros. A primeira remoção, em 1785, ocorreu quando autoridades ainda cogitavam encontrar ouro e prata no bloco. Assim, o meteorito já acumulava interpretações e estudos décadas antes de ocupar sua conhecida sala no Paço.

O que aconteceu com o Bendegó no incêndio de 2018?
O incêndio de 2 de setembro de 2018 atingiu o Paço de São Cristóvão e destruiu grande parte das coleções ali guardadas. Um balanço institucional estima a perda de aproximadamente 85% de cerca de 20 milhões de exemplares. O impacto alcançou materiais biológicos, fósseis, documentos, objetos arqueológicos e peças históricas acumuladas durante gerações. Coleções instaladas fora do palácio, entretanto, não tiveram o mesmo destino. O museu manteve preservados conjuntos inteiros em áreas como botânica, vertebrados e alguns setores de invertebrados.
No meio dessa destruição, o Bendegó apresentou um resultado diferente. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) registra que o meteorito permaneceu intacto após o incêndio. A sobrevivência virou símbolo da permanência do museu. Um panorama institucional contabilizou cerca de 5 mil lotes e peças resgatados nos trabalhos posteriores. Materiais de geologia, paleontologia, arqueologia e conchas estiveram entre os grupos que mais resistiram. Portanto, o Bendegó foi emblemático, mas não o único remanescente.
Como o Bendegó voltou a receber visitantes em 2025?
Em 2 de julho de 2025, o público voltou a entrar em três ambientes do Paço durante a experiência temporária Entre Gigantes. O circuito apresentava o avanço da reconstrução, um cachalote montado na claraboia e o Bendegó em sua sala. Também havia obras de Gustavo Caboco e elementos ligados ao restauro do palácio. Foi a primeira entrada pública no interior desde o incêndio. Os ingressos gratuitos esgotaram rapidamente, e a programação acabou prorrogada.
A visitação terminou em 28 de setembro de 2025. O boletim oficial Harpia, do Museu Nacional/UFRJ, registra mais de 60 mil visitantes. Um balanço institucional posterior detalha mais de 63,8 mil pessoas no período. A experiência também apresentou obras produzidas após uma imersão artística na trajetória do Bendegó. Assim, o meteorito voltou a cumprir sua antiga função pública. Desta vez, porém, sua presença também mostrava o que permaneceu depois da tragédia.
O que permaneceu
O Bendegó não reduz a dimensão da perda sofrida pelo Museu Nacional em 2018. Sua permanência cria uma ligação física entre o acervo anterior ao incêndio e o museu em reconstrução. O bloco encontrado no sertão em 1784 atravessou transporte, exposição e desastre. Em 2025, recebeu novamente o público. Sua presença mostra como um mesmo objeto pode atravessar séculos e ganhar novos significados sem perder seu valor científico original.
Leia mais:
- Uma explosão vulcânica em 2022 foi tão poderosa que a onda de pressão deu várias voltas no planeta durante seis dias
- A cidade gaúcha que foi fundada por imigrantes pomeranos e ainda fala o dialeto em casa, 150 anos depois da chegada
- O submarino turístico que implodiu a caminho do Titanic deixou um som registrado por um equipamento a cerca de 1.450 quilômetros de distância
