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Há exatos 20 anos, em 24 de março de 2001, a Apple lançava o Mac OS X 10.0. O sistema operacional, do qual o atual mac OS “Big Sur” é descendente, ajudou a Apple a se livrar do legado da década de 80, popularizou uma nova linguagem visual e revolucionou o mercado de dispositivos móveis, entre outros feitos.

Mas, na verdade, a história do Mac OS X começa muito antes, mais especificamente em 1989. Naquele ano a NeXT, empresa fundada por Steve Jobs após sua saída da Apple em 1985, lançou o NeXT Computer, uma estação de trabalho revolucionária para a época, voltada para o mercado educacional.

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O ancestral do Mac OS X

A NeXT desenvolveu para seu computador um sistema operacional baseado em Unix, o NeXTSTEP, com uma interface gráfica amigável e recursos que facilitavam enormemente o desenvolvimento de aplicativos, usando ferramentas visuais para a construção de interfaces e o conceito de orientação a objetos para reaproveitamento de código.

Steve Jobs demonstrando a terceira versão do NeXTSTEP e suas ferramentas de desenvolvimento. Quem já usou o Mac OS X reconhecerá muitos dos conceitos e apps.

Ao longo dos anos a NeXT abandonou o mercado de hardware e focou no desenvolvimento do NeXTSTEP, adaptando-o para arquiteturas como os PCs. Quando a Apple comprou a NeXT e trouxe Steve Jobs de volta, em 1997, o executivo encontrou uma companhia à beira da ruína, que precisava não só de dinheiro para continuar existindo como de uma injeção de novas tecnologias para se manter competitiva.

O sistema operacional da época, conhecido como Mac OS (note o M maiúsculo, que o diferencia do atual), era descendente direto do “System Software” criado para o primeiro Macintosh em 1984. Apesar de fácil de usar, era notoriamente instável. Um único aplicativo mal-comportado poderia derrubar o sistema todo, exigindo que o computador fosse reiniciado. E azar o seu se não tivesse salvo seu trabalho.

Também era deficiente no suporte a tecnologias de rede, especialmente na interoperabilidade com padrões de outros fabricantes. Justamente áreas onde o NeXTSTEP se destacava: a World Wide Web (WWW) foi criada por Tim Berners-Lee em um NeXT Cube rodando NeXTSTEP.

Este NeXT Cube usado por Tim Berners-Lee foi o primeiro servidor web e berço da WWW. Imagem: Geni (CC-BY-SA 4.0)

Por isso, a Apple decidiu abandonar esforços anteriores para “modernizar” o Mac OS e adotou o NeXTSTEP como substituto. O sistema foi rebatizado como Mac OS X, com o X simbolizando tanto sua descendência do Unix quanto o fato de que era a “décima geração” do Mac OS. Adicione a ele uma nova interface mais similar à do sistema “clássico”, um ambiente de compatibilidade para que os programas antigos ainda pudessem ser executados e você tem o Mac OS X 10.0.

Os primeiros passos foram cambaleantes

E aí o sistema chegou às lojas, foi um sucesso e todos viveram felizes para sempre, certo? Errado. A transição foi árdua: o sistema era muito mais pesado que o Mac OS clássico, a compatibilidade com os programas antigos deixava a desejar e recursos das versões anteriores simplesmente não existiam.

Entre os pioneiros que adotaram o “Cheetah”, codinome desta versão, era comum que seus computadores tivessem duas partições, uma com o Mac OS clássico para o trabalho mais sério, e outra com o Mac OS X para experimentar.

As coisas começaram a melhorar em setembro de 2001 quando o primeiro upgrade, o Mac OS 10.1 “Puma”, chegou ao mercado, trazendo principalmente um grande ganho de desempenho e recursos como a capacidade de reproduzir DVDs.

A interface do Mac OS X manteve elementos do NeXTSTEP, como a dock. Nos os botões translúcidos e coloridos na janela do Finder. Imagem: Graphical User Interface Gallery Guidebook

O sistema foi distribuído, em CD, como um upgrade gratuito para os usuários do Mac OS 10.0 e se tornou o “sistema padrão” de todos os novos Macs a partir de janeiro de 2002. Mas foi só com o lançamento do Mac OS X 10.2 “Jaguar”, em agosto de 2002, que o sistema começou a cair nas graças do grande público.

Também foi com o “Jaguar” que a Apple começou a usar publicamente os codinomes de seus sistemas operacionais, todos baseados em “grandes felinos”, em seu marketing e nos materiais voltados aos consumidores. Depois dele tivemos o Panther, Tiger, Leopard, Snow Leopard, Lion e Mountain Lion. A tradição só foi quebrada com o Mac OS X 10.9 “Mavericks” por um motivo simples: acabaram os grandes gatos.

Até a caixa do Mac OS X 10.2 “Jaguar” adotou o visual “oncinha”. Imagem: Reprodução

Embora sua adoção pelo público tenha sido gradual, o Mac OS X teve impacto imediato em uma outra categoria: a linguagem visual. A interface Aqua, com suas listras e botões arredondados e translúcidos que pareciam jujubas, foi um sucesso imediato e amplamente copiada em programas em outras plataformas, na interface de sistemas operacionais rivais (como temas para o Gnome e KDE, os principais ambientes desktop para Linux) e influenciando até mesmo o visual colorido padrão do Windows XP.

iOS: um “gato” no seu bolso

Mas mesmo que você nunca tenha chegado perto de um Mac, com certeza sentiu o impacto do Mac OS X em sua vida. Quando a Apple decidiu desenvolver um smartphone, descartou sistemas já no mercado como o Symbian, Palm OS ou Brew, e partiu para um derivado do Mac OS X que mais tarde foi batizado de iOS. 

Como derivado do Mac OS X, o iOS herdou recursos como um sofisticado sistema de multitarefa, ferramentas de desenvolvimento maduras e excelente suporte a multimídia, que o colocaram muito à frente dos concorrentes.

Durante um bom tempo, empresas como a Palm, Blackberry, HTC e Nokia se preocuparam em desenvolver “matadores de iPhone” focando apenas no hardware, se esquecendo de que o sistema operacional e a experiência de uso são até mais importantes do que ele.

O momento em que Steve Jobs anuncia que o iPhone roda o Mac OS X.

O iPhone e o iOS influenciaram até mesmo o Android: quando eles foram lançados o Google parou o que estava desenvolvendo, um aparelho com hardware e software similares ao dos BlackBerry, e reorientou todo o projeto para algo mais similar ao oferecido pelo iPhone.

Andy Rubin, líder do projeto na época, se lembra de assistir ao anúncio do iPhone e comentar sobre o modelo original com um amigos: “P* m*! acho que não vamos lançar aquele telefone”. 

Vale lembrar que o iOS também é o sistema operacional do iPad (onde se chama iPad OS), da Apple TV e do Apple Watch. Todos, portanto, descendentes do Mac OS X.

Com o lançamento do mac OS 11 “Big Sur” em junho de 2020 e a migração para a arquitetura ARM, a Apple deu um fim simbólico ao Mac OS X, encerrando uma carreira de quase 20 anos. Uma eternidade no mundo digital. Mas seu impacto ainda será sentido por muito mais tempo. Feliz aniversário, OS X!