A Motorola está adicionando a seus smartphones o suporte a duas línguas indígenas faladas no Brasil que estão ameaçadas de extinção. A novidade chegará a todos os aparelhos da empresa atualizados para o Android 11 ou que já saiam de fábrica com o sistema operacional.

O Kaingang é falado por comunidades no sul e sudeste brasileiro, e é classificada pela Unesco como “definitivamente ameaçada”, o que significa que as crianças não a aprendem mais como sua primeira linguagem.

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Já o Nheengatu é falado por cerca de seis mil pessoas em uma comunidade de cerca de 20 mil habitantes na região amazônica, incluindo parte da Colômbia e Venezuela, e segundo a Unesco é “severamente ameaçado”, ou seja, é falado apenas pelas gerações mais velhas, que não o utilizam para conversar entre si ou com os mais jovens.

Seleção de idiomas em um smartphone Motorola com Android 11, mostrando as opções de Kaingang e Nheengatu.
Seleção de idiomas em um smartphone Motorola com Android 11, mostrando as opções de Kaingang e Nheengatu. Imagem: Captura de tela/Olhar Digital

Segundo Juliana Rebelatto, gerente de globalização e linguista chefe na divisão de mobilidade da Motorola, ambas as comunidades fazem uso intenso da tecnologia móvel, embora nem sempre tenham acesso confiável às redes de telefonia ou internet.

“Professores usam seus celulares na sala de aula para ministrar seu currículo, e agora que os aparelhos estarão em Kaingang e Nheengatu isto irá realmente ajudar no processo de aprendizado”, disse ao The Verge.

“Acreditamos que esta iniciativa aumentará a conscientização em relação à revitalização destes idiomas, e não apenas impactará as comunidades com as quais trabalhamos diretamente”, disse Janine Oliveira, diretora-executiva da Motorola para globalização de software.

Telas ilustrando a interface de um smartphone Motorola no idioma Kaingang.
Interface de um smartphone Motorola no idioma Kaingang. Imagem: Captura de tela/Olhar Digital

“Ao fazer isso, acreditamos que abriremos o caminho para que mais línguas indígenas ameaçadas sejam adicionadas, não apenas no Android, mas também em outros smartphones“, afirma.

A Motorola trabalhou com a Universidade de Campinas e o Professor Wilmar D’Angelis, pesquisador de linguagens indígenas e antropologia cultural. “Ele dedicou sua vida, mais de 40 anos, à pesquisa de linguagens”, disse Rebelatto.

Dados serão abertos para outros

A equipe de linguística da Motorola recrutou falantes nativos de ambas as linguagens durante o projeto. Ozias Yaguarê Yamã Glória de Oliveira Aripunãguá, um dos participantes e falante de Nheengatu, enfatiza a importância cultural da linguagem. “É preciso entender que, com o tempo, o Nheengatu foi se enfraquecendo cada vez mais e hoje, muitas vezes devido à discriminação contra o idioma, as pessoas têm vergonha de usá-lo”. 

“Mas não dá para falar sobre a Amazônia sem falar sobre Nheengatu porque eles estão conectados… é parte da essência, é o núcleo. A alma da Amazônia é o Nheengatu”, diz Yaguarê. “Setenta por cento dos nomes dos peixes são palavras em Nheegatu, e de 50 a 60 por cento dos nomes de cidades e rios também. Não há como falar de um sem falar do outro”.

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A equipe da Motorola planeja liberar todos os dados coletados durante o projeto, centenas de milhares de palavras e frases, sob uma licença Open Source para que qualquer um possa estudá-las e usá-las, não só no Android como também em outras plataformas. Foi necessário desenvolver um teclado customizado para entrada de texto nos novos idiomas, mas a empresa está trabalhando com o Google para adicionar as linguagens ao GBoard.

“Não pretendemos parar por aqui”, disse Renata Altenfelder, diretora-executiva de marca na Motorola. “Estamos liberando estes dados como Open Source porque realmente acreditamos que é algo do qual todos devem participar”. Outras linguagens ameaçadas serão adicionadas ao projeto, mas quais serão é algo que ainda não foi decidido.

Assista a entrevista de Juliana Rebelatto para o Olhar Digital: