Ingerir placenta: resgate de tradição histórica ou modismo?

Por Flavia Correia, editado por Lyncon Pradella 22/05/2021 15h48, atualizada em 24/05/2021 11h08
Placenta
Placenta. Imagem: Shutterstock
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“Para chocar a sociedade”. Essas foram as palavras proferidas pela médica responsável pelo parto da terceira filha do casal Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert, no vídeo em que ambos aparecem ingerindo a placenta da apresentadora. Embora os registros sejam de 2019, as imagens foram divulgadas apenas no início de maio deste ano, dando o que falar nas redes sociais e em diversos veículos de imprensa.

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Fernanda e Rodrigo não são os primeiros a tornarem público esse assunto. Em 2018, a influenciadora digital e coach Mayra Cardi revelou, em seu Instagram, ter ingerido a placenta do parto da filha Sophia por meio de cápsulas. Mayra destacou o quanto isso é algo tão comum entre os animais e citou que existem várias formas de consumo.

“Eu gostei, não tem gosto de nada. Mal, não faz. Se todos os animais comem, é porque tem proveito mesmo. Dizem que ela ajuda muito na depressão pós-parto, ou seja, não deixa a mulher ter depressão. Enfim, você pode comer a placenta do jeito que quiser, como os animais comem, ou pode mandar encapsular. Eu não comi, para mim é difícil comer uma placenta. Não sou tão evoluída assim. E também não como carne. Mas, mandei fazer em cápsula e estou tomando”, postou.

Outra a levantar a bandeira foi a chef de cozinha e apresentadora Bela Gil, que já contou, em diversas entrevistas, ter comido a placenta em razão de relatos de que ajudaria na depressão pós-parto e na regulação hormonal da mulher.

“Não tem nenhum estudo científico, nada que fale que comer a placenta é maravilhoso, mas é um ritual que eu queria fazer”, disse a chef em entrevista a Fábio Porchat. “Qual a diferença entre comer minha placenta, que é um negócio nutritivo, e as pessoas comerem coração de galinha?”, questionou.

Mas, engana-se quem pensa que o hábito é “extravagância de celebridade”. Existem muitas mulheres “comuns” que também aderem à prática.

Amanda Balielo Carvalho Habenschus, 38, é engenheira de alimentos e microempresária do ramo de doces em Santa Cruz do Rio Pardo (SP). Ela conta que foi orientada por suas doulas no pré-natal do terceiro filho quanto aos benefícios da ingestão do órgão materno-fetal.

“Eu estava em um momento muito delicado. Foi meu terceiro pós-parto, nos outros eu não havia consumido a placenta. Nesse, eu fiz o consumo em cápsulas. Foi um pós-parto muito intenso: eu estava passando por processos difíceis, envolvendo uma mudança de cidade e problemas pessoais. Minhas doulas me acompanharam na gestação e no parto, então elas estavam por dentro da minha situação. Foram elas que me indicaram fazer as cápsulas para ingestão, com o objetivo de melhorar a saúde mental, para dar força para enfrentar essas situações”, disse.

Amanda Habenschus, de Santa Cruz do Rio Pardo (SP), conta que foi orientada por suas doulas no pré-natal do terceiro filho quanto aos benefícios da ingestão da placenta. Imagem: Arquivo Pessoal

No entanto, Amanda não relaciona exclusivamente à prática a sua plena recuperação pós-parto. “Em paralelo, eu também estava fazendo outras coisas: terapia quântica, tratamento espiritual, usando florais, banhos energéticos. Então, não foi apenas o consumo da placenta, mas sim um alinhamento de várias terapias em conjunto. E aí, eu consegui passar pelo período pós-parto de uma forma saudável. Fiquei bem, não tive depressão ou complicações. Fica difícil eu dizer que isso se deve à ingestão da placenta, porque, como eu disse, fiz um conjunto de terapias”.

Civilizações antigas atribuem significados à placenta

Entre as doulas que auxiliaram Amanda está Carolina Ferretti, que hoje prefere se denominar mentora do parto normal. Além de dar suporte às suas orientandas em relação ao consumo da placenta e todo o significado desse ritual, a própria Carolina também ingeriu as placentas de seus três partos, todos eles naturais e domiciliares.

Carolina Ferretti, que se denomina mentora do parto normal, também ingeriu as placentas de seus três partos, todos eles naturais e domiciliares. Imagem: Captura de tela entrevista

Segundo ela, o hábito de se consumir o órgão vem de nossos ancestrais, sendo uma prática comum em civilizações antigas e que foi se perdendo com o tempo.

“Não acredito que as pessoas estejam aderindo a essa prática só porque é uma novidade. Acredito é que as pessoas estão voltando com essa prática, que era muito comum nos nossos antepassados, de diversas civilizações. Então, eu acho que a gente está retomando práticas que fazem sentido e que, em algum momento da nossa evolução, a gente deixou se perder”.

Para a mentora, o ato de comer a placenta é algo muito além do nutricional ou fisiológico. “A ligação que nós, seres humanos, temos com a placenta é muito grande. Temos como referência as árvores. Em várias civilizações, as árvores, às vezes, são símbolos sagrados. Por exemplo, crianças que vivem em lugares desertos, sem vegetação nenhuma, só areia e céu, se você pede para elas desenharem uma árvore, elas vão desenhar. E a única árvore que essas crianças já viram na vida é a placenta. Se você pega a imagem gráfica de uma placenta na internet, você vai ver que ela realmente parece uma árvore”.

Carolina conta que há estudos que capturaram imagens de bebês dentro do útero da mãe escalando o cordão umbilical, como se fosse o tronco e a copa de uma árvore.

“Isso é a representação dessa relação que o ser humano tem com a placenta, que é algo muito forte. Tem civilizações que vão, inclusive, trazer o nome da placenta não como um órgão, mas como se fosse um irmão mais velho. Outras civilizações chamam a placenta de primeira mãe, porque é ela quem proporciona esse primeiro cuidado ao bebê”, explicou.

Conforme mencionado superficialmente por Mayra Cardi, existem várias maneiras de se consumir a placenta. “A ingestão pode ser imediatamente após o parto, ou depois, tendo sido feito o ressecamento, possibilitando o consumo do pó ou em cápsulas”, esclareceu Carolina.

O pó de placenta acondicionado em cápsulas tem validade de dois anos. Imagem: Nick Lundgren – Shutterstock

Cada forma de ingestão passa por processos completamente diferentes e tem prazos de validade particulares. “O pó de placenta acondicionado em cápsulas tem validade de dois anos. Já a tintura tem validade vitalícia. Sendo devidamente armazenada, ela pode durar por gerações. Pode-se fazer a ingestão também crua, logo após o parto, desde que ela seja bem cuidada na hora de manusear”, comentou Carolina.

E qual seria a forma mais adequada de consumo? A profissional explica que não existe um método que seja mais indicado. “É muito particular. Cada mulher, cada família, se identifica com um tipo. Tem famílias que preferem ressecar e transformar tudo em cápsulas. Mas, tem famílias que preferem a tintura. Outras, um pouco das duas”.

A tintura é um extrato alcoólico feito com um pequeno pedaço da placenta ou com o órgão completo, que fica curtindo por alguns dias e em seguida é filtrado, concentrando as propriedades curativas da placenta.

Placenta também pode ser consumida pelo pai e demais familiares

No caso de Fernanda Lima, não apenas ela, mas também o marido fez o consumo da placenta. Carolina Ferretti afirmou que isso é comum.

“A placenta é cheia de nutrientes, cheia de vitaminas, e quando você faz a ingestão, isso vai reverberar dentro do seu corpo. No corpo de uma mulher que acabou de dar à luz. E esse ‘dar à luz’ é algo que exige muito do físico, do emocional, do mental e do espiritual da mulher. E aí, quando a placenta é ingerida logo após o parto, ela ajuda nesse processo de voltar a se harmonizar. No caso do pai, mesmo que ele não tenha vivido uma descarga tão forte quanto a mãe, que pariu, houve também um desempenho dele para que o parto acontecesse”.

Bela Gil tem razão quando cita a escassez de estudos científicos que comprovem a eficácia do consumo da placenta. “Infelizmente, temos poucos estudos que falam sobre os benefícios da placenta”, informou Carolina.

“Talvez esse tema não gere tanto interesse nos pesquisadores, a ponto de ninguém ter parado para realizar algum estudo mais profundo para compreender tudo o que a placenta pode trazer. Então, existem estudos que refutam a ideia, mas também existem, ao longo da história das civilizações, provas de que essa ingestão funciona muito. As mulheres e as famílias que consomem hoje vêem a diferença, então é um fato. Eu não acredito que se fosse algo não benéfico existiria esse movimento de resgate”.

Direito garantido por lei e o embate com instituições de saúde que proíbem o ato

Segundo reportagem da revista Claudia, a decisão de manter, ingerir ou guardar a placenta é exclusiva da mulher e é coberta pela Constituição Federal Brasileira. A lei tem uma proteção da autonomia sobre o corpo e na liberdade de consciência de crenças. Então, em tese, se isso fizer sentido para ela, a mulher deve ser respeitada nesse direito. Mas, de acordo com Carolina, isso nem sempre acontece.

“Sim, é um direito garantido à mulher, mas eu já participei de uma cena onde a enfermeira se negou a dar a placenta para a mãe”, relatou. “O consumo estava no plano de parto daquela mulher. A profissional alegou que o hospital seria responsável pelo descarte correto do órgão e caso acontecesse algo com a paciente. Assim, acabou realmente não dando a placenta para a mãe”.

A instrutora disse que, depois desse caso, o hospital mudou suas políticas em relação ao direito da mulher sobre a placenta, condicionando a uma declaração de responsabilidade feita pela paciente.

“Aconselho às mulheres que desejam ter garantido o seu direito a conservar muito antes do momento do parto, deixando bem claras suas intenções e mostrando que têm ciência de que a lei está do lado delas. Indico verificarem qual é a conduta do hospital e se os profissionais estão preparados, pois, nesse exemplo que eu dei, a decisão foi unicamente da enfermeira, não tendo havido ordens superiores”, explicou Carolina.

Fabiana Lopes Pereira Santana, enfermeira com experiência na área de pediatria e doutoranda pelo Programa de Gerenciamento em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, aborda exatamente esse assunto no pré-projeto de sua tese de Doutorado, que será defendida em 2023.

Com o tema “Placentofagia Humana: Representações Sociais de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras”, o estudo trata da percepção de enfermeiros obstétricos e obstetrizes quanto ao pedido da placenta para consumo e outras finalidades, “já que esses profissionais têm se deparado cada vez mais com essa solicitação na sua prática profissional”, explicou a pesquisadora.

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Ela afirmou que, diferentemente de Carolina, não conhece nenhum caso em que enfermeiros ou outros profissionais de saúde tenham impedido a mãe de ficar com a placenta, seja para consumo imediato ou para levar para casa, mas acredita que possa sim já ter ocorrido, “pois, a prática é relativamente recente e muitas vezes os profissionais e instituições podem não estar preparados nem orientados em como agir nessas situações”.

Fabiana sugere que, de qualquer forma, as gestantes conversem sobre o desejo com um profissional de saúde durante o pré-natal “para esclarecimentos a respeito do tema, bem como quais procedimentos devem ser adotados”.

Como proceder para levar a placenta in natura para casa

Se a mãe desejar levar o órgão para casa, a condução deve atender todas as boas práticas de manuseio e armazenamento.

“A melhor forma de transportar uma placenta para casa é colocando-a em um recipiente de isopor ou outra embalagem devidamente higienizada”, explicou Carolina.

“A manipulação deve ser adequada, pensando que se trata de um alimento, assim como uma carne comum, que a pessoa não guarda de qualquer jeito na geladeira. E os profissionais que forem manusear o órgão devem utilizar luva e materiais esterilizados. A placenta pode ficar fora da geladeira por até cinco horas e, na geladeira, por até cinco dias. No freezer, o armazenamento pode se dar por cinco meses. Se ficar congelada por mais tempo, perde o valor nutricional. O processo é muito parecido com o armazenamento de uma carne”, orientou.

Entretanto, a enfermeira Fabiana alertou quanto aos riscos: “Sim, existem riscos. A placenta se degrada muito rapidamente, pela presença de germes e bactérias que podem ser adquiridos no momento do parto, principalmente no parto vaginal, e pode abrigar substâncias tóxicas, como metais pesados, pelo fato de atuar como filtro entre a circulação da mãe e do feto”.

Placenta de bebê natimorto ou de mãe que já teve Covid-19 não deve ser ingerida

Sobre o consumo da placenta de um feto natimorto, Carolina acredita que se deve investigar as causas da morte da criança. “Sabendo o que levou ao óbito é que será possível entender o que a placenta carrega desse processo”.

Muitas vezes, a causa da morte do bebê é justamente por problemas na placenta. Nesses casos, que representam 26% dos registros de natimortos, segundo dados dos Institutos Nacionais de Saúde Americanos, é totalmente desaconselhável a ingestão do órgão.

Em relação a mães que tiveram Covid-19, Fabiana afirmou que não existem evidências científicas a respeito do consumo da placenta por essas mulheres. “Cabe ressaltar que a Covid-19 é uma enfermidade nova, e que os cientistas ainda desconhecem todas suas complicações e consequências”.

Já Carolina é taxativa: para mulheres que tiveram a doença não é ideal o consumo da placenta. “Apesar de que o processo de ressecamento é capaz de matar o vírus naturalmente, já que exige uma temperatura muito elevada, à qual o vírus não resistiria. Mesmo a ingestão da tintura, o vírus não resiste ao álcool, então também causaria sua eliminação. Mas, mesmo assim, pela saúde da mãe que passou pela doença, o ideal é não consumir”.

Para quem quiser aprofundar seus conhecimentos sobre a placenta, Carolina indicou a leitura do livro “Placenta – O mais feminino de todos os remédios”, de Cornelia Enning. Ela contou também que, até hoje, desconhece que alguém tenha sofrido algum mal ou tido alguma reação adversa à ingestão da placenta. “A placenta está muito mais numa posição de suplemento e apoio do que algo com contraindicação”, completou.

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Flavia Correia
Redator(a)

Jornalista formada pela Unitau (Taubaté-SP), com Especialização em Gramática. Já foi assessora parlamentar, agente de licitações e freelancer da revista Veja e do antigo site OiLondres, na Inglaterra.

Lyncon Pradella
Ex-editor(a)

Lyncon Pradella é jornalista formado pela Universidade Nove de Julho. Foi estagiário da RedeTV! e repórter freelancer do UOL antes de se tornar Editor do Olhar Digital.