No domingo, 8 de agosto, um astrônomo brasileiro percebeu uma explosão de brilho da estrela RS Ophiuchi, que se tornou visível a olho nu aqui da Terra por algumas noites. Esse fenômeno, conhecido pelos astrônomos como nova, não é algo tão incomum assim, mas o tipo de nova da RS Ophiuchi é raro, e poder vê-la a olho nu, é mais raro ainda.

Aumento de brilho da (estrela) nova recorrente RS Ophiuchi entre 8 e 9 de agosto de 2021
Aumento de brilho da nova recorrente RS Ophiuchi entre 8 e 9 de agosto de 2021. A explosão foi registrada no dia 9 e sobreposta a uma foto antiga feita no Observatório do Monte Palomar em 1989. Créditos: Ernesto Guido, Marco Rocchetto & Adriano Valvasori/telescope.live

A RS Ophiuchi está a aproximadamente 5 mil anos-luz de distância, e é um tipo de estrela variável cataclísmica conhecida como “nova recorrente”. Seu brilho varia constantemente em torno da 11ª magnitude, o que é tão tênue, que é difícil de ver até por telescópios. Mas de vez em quando, ela tem uma explosão luminosa, que a torna cerca de 300 vezes mais brilhante por alguns dias. Ainda assim, sua luminosidade está longe das estrelas mais brilhantes. Mas, em um céu escuro, você pode vê-la a olho nu na direção da constelação do Serpentário.

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Localização da nova (estrela) recorrente RS Ophiuchi na Constelação do Serpentário (Ofiúco)
Localização da nova (estrela) recorrente RS Ophiuchi na Constelação do Serpentário (Ofiúco). Reprodução: stellarium.org

O astrônomo amador brasileiro Alexandre Amorim foi o primeiro a perceber a atual explosão de RS Ophiuchi. Alexandre é um observador assíduo do céu, e na noite de domingo, 8 de agosto, estava fotografando estrelas variáveis próximas à Estrela de Barnard na Constelação do Serpentário. Quando foi apontar para RS Ophiuchi, percebeu a nova visualmente, já na luneta buscadora do telescópio. Inicialmente, pensou que tinha apontado o telescópio na direção errada. Mas assim que percebeu que aquela era realmente uma explosão da RS Ophiuchi, fez uma foto e enviou um comunicado à AAVSO (Associação Americana de Observadores de Estrelas Variáveis). Em uma observação independente realizada 25 minutos depois do brasileiro, o irlandês Keith Geary também percebeu o mesmo fenômeno relatado por Amorim.

Primeiro registro da última explosão da RS Ophiuchi feito a partir de Florianópolis, SC
Primeiro registro da última explosão da RS Ophiuchi feito a partir de Florianópolis, SC. Créditos: Alexandre Amorim

Mas essa não foi a primeira vez que a RS Ophiuchi se tornou uma nova. A primeira delas foi descoberta por Williamina Fleming.

No final do século 19, Edward Pickering, diretor do Observatório de Harvard decidiu contratar mulheres para analisar e processar a enorme quantidade de dados astronômicos do observatório. O objetivo era economizar, já que a mão de obra feminina era muito mais barata. Só que aquelas mulheres provaram também que eram muito qualificadas, e daquele grupo, conhecido como “As Computadoras de Harvard”, surgiram algumas das mentes mais brilhantes da astronomia moderna.

Computadoras de Harvard, 1890. No centro: Williamina Fleming
Computadoras de Harvard, 1890. No centro: Williamina Fleming. Fonte: wikimedia.org

Entre elas, estavam Williamina Fleming, que em 1904, enquanto analisava espectros registrados 6 anos antes, encontrou um espectro que se assemelhava a uma nova, mas diferente de outras novas já identificadas antes. Pickering confirmou, baseado no espectro e nas curvas de luz, que se tratava de uma nova. RS Ophiuchi foi apenas uma das 10 novas descobertas por Williamina, mas uma bastante especial.

Em 1933, ela voltou a explodir e, novamente em 1958, 1967, 1985, 2006 e agora, em 2021. Foram 7 explosões em 123 anos. Por isso, esse tipo de nova é chamada de “recorrente” e por isso, a RS Ophiuchi se tornou um dos alvos preferidos dos caçadores de novas. Ninguém sabe ao certo quando ocorrerá uma nova explosão, mas o processo que geram as novas, já é bem conhecido pela Ciência.

Representação artística da explosão de uma (estrela) nova
Representação artística da explosão de uma (estrela) nova. Créditos: David A. Hardy

As novas são formadas em sistemas binários cataclísmicos. Duas estrelas muito próximas dividem um centro de gravidade comum. Uma delas é uma anã branca, uma estrela evoluída e altamente compacta. A outra é uma gigante vermelha. Elas estão tão próximas que a anã branca começa a sugar matéria de sua companheira gigante vermelha. Parece uma relação abusiva, mas o excesso de massa desencadeia uma explosão termonuclear na superfície da gananciosa anã branca. Como as estrelas continuam orbitando entre si, essas explosões podem acontecer periodicamente.

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As explosões de RS Ophiuchi ocorrem, em média, a cada 20 anos. Um sistema como esse, cujas explosões se repetem na ordem de décadas – são raros. Por isso, a explosão atual de RS Ophiuchi tem uma atenção especial dos astrônomos. De acordo com as últimas observações reportadas, seu brilho está atualmente no limite da capacidade visual humana. Quem quiser, poderá observá-la ainda por algumas noites com o auxílio de um mapa celeste e algum instrumento óptico.

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