Pare e responda à pergunta: há quanto tempo você não assiste a um bom filme sobre artes marciais? Algo no estilo Jackie Chan e Jet Li. Nos últimos anos, não me recordo de um lançamento do estilo que me impressionou – talvez ‘Ninja Assassino’, lançado em 2009. De olho nessa questão, e na falta de representatividade asiática em Hollywood, o Marvel Studios e a Walt Disney arriscaram a sorte (e investiram muito dinheiro) em um super-herói relativamente desconhecido do grande público, incluindo até alguns fãs dos HQs da editora, na tentativa de reviver o gênero e dar, enfim, início à nova fase do Universo Cinematográfico (MCU). E posso afirmar que ‘Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis‘ cumpre – e está acima – de todas as expectativas, e em vários fatores.

A começar pelo quesito moral, o longa não tem medo de apostar tudo que tem em um novo personagem e em mais uma história de introdução. A tal da “fórmula Marvel” ainda é presente, assim como o que há de mais puro na famigerada “jornada do herói”, mas Destin Daniel Cretton encontra nas referências à cultura chinesa e asiática uma fórmula chamativa o suficiente para criar renovação. Com um elenco 95% oriental, o diretor ignora os estereótipos e os utiliza a favor do roteiro escrito por ele e pelos irmãos Callahan, Dave e Andrew, que abraça fortemente às extravagantes inspirações místicas e mitológicas, como dragões, bestas, poderes mágicos e o apego às tradições. 

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Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis
Volte ao mundo das artes marciais bem coreografadas com ‘Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis’. Imagem: Walt Disney Studios/Divulgação

Parece algo já visto nos cinemas, claro, porém dentro do MCU, a sensação durante os 132 minutos de filme é de refresco e novidade. Afinal, em mais de dez anos do universo compartilhado, nem o público e nem personagens como Capitã Marvel, Hulk e outros já haviam lidado com este tipo de força. E pelo fato de ter investido e dado o mesmo tratamento a Shang-Chi, mesmo (ainda) não sendo um herói tão querido, a Disney e o Marvel Studios acertam não somente por abrir espaço à representatividade asiática, mas também por declarar que está aberta a novas ideias e possibilidades – tipo de empoderamento e renovo no qual ‘Pantera Negra’ preparou o caminho em 2018.

A produção de ‘A Lenda dos Dez Anéis’ é formosa e de encher os olhos. Visualmente, o filme é belíssimo e conta com efeitos especiais muito bem feitos – que mostram que a Marvel não quer decair do que foi feito em ‘Vingadores: Ultimato’. A fotografia de combate feita por William Pope, das trilogias de ‘Homem-Aranha’ e ‘Matrix’, junto à trilha sonora contemporânea de Joel P. West combinam perfeitamente e ditam “em que pé” o filme está o tempo todo, auxiliando o argumento do filme a não enrolar e “encher linguiça”. Pelo contrário, a trama escrita por Cretton e pelos irmãos Callaham é objetiva o tempo inteiro, até mesmo nos vários momentos de flashback e de explicação contextual. É fácil observar que a “pegada direta e reta” ajudou e muito a direção e a edição do longa, que optaram por não utilizar nenhum artifício para diferenciar as digressões da linha temporal – algo que funciona e impede o público de perder a atenção.

Artes marciais, mística chinesa são destaques no filme que introduz Shang-Chi ao MCU. Imagem: Walt Disney Studios/Divulgação

Mas mesmo sendo um filme do MCU (o 25°, vale ressaltar) e uma obra cinematográfica repleta de efeitos especiais, ‘Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis’ ainda é uma produção de artes marciais. Logo no primeiro ato do filme, o espectador já irá deslumbrar os movimentos rápidos e extremamente bem coreografados do protagonista interpretado por Simu Liu ao melhor “estilo Jackie Chan” em ‘Hora do Rush’ ou ‘Bater ou Correr’. A mescla de kung-fu e caratê é bem valorizada em todas as cenas de luta e, salvo no terceiro ato, pouquíssimo utilizam de CGI ou fator tecnológico. É o ator, atriz, a tela e a câmera encontrando na simulação de  “porradaria desenfreada” alguns dos melhores momentos do filme.

As várias sequências de combate, inclusive, utilizam de técnicas diferentes de filmagem dependendo de em que momento o enredo se encontra. Cretton sabe valorizar bem os personagens, tal qual ‘Luta Por Justiça”, e “brinca” corretamente ao mexer na altura, luz e reflexos das câmeras para destacar o melhor da encenação de cada um. Liu, por exemplo, é um protagonista perfeito e merecedor do papel. Além de estar à frente da história, o ator esbanja carisma e simpatia a todo o momento, fazendo assim com que se torne facilmente um personagem querido do público. O ex-dublê, de fato, agarrou a oportunidade gigante em suas mãos e pode vir a se tornar um novo nome “queridinho” da indústria.

Simu Liu agarra a oportunidade em primeira chance como protagonista. Imagem: Walt Disney Studios/Divulgação

Como Katy, Awkwafina é mais que um alívio cômico e uma sidekick de Shang-Chi. Fora a simpatia e as hilárias piadas que tem ao longo do filme, a atriz e comediante é responsável por algumas das melhores cenas da produção e, como personagem, muda por várias vezes as situações em que o protagonista se encontra, sendo recompensada com o status de quase coprotagonista. Uma nova coadjuvante que pode roubar a cena ainda mais vezes no futuro do MCU.

Outro destaque também é Meng’er Zhang como Xialing, irmã do herói. Femme fatalle de qualidade, a atriz pouco conhecida atua como símbolo feminista debochado e ambicioso no longa, de forma mais impetuosa e presente do que Brie Larson como Carol Danvers/Capitã Marvel, inclusive. Repleta de cenas de luta bem coreografadas, a personagem tem potencial para ser um novo tipo de Loki no MCU, mesmo equilibrando a recepção “8 ou 80” – ou amada ou odiada.

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis
Awkwafina, Meng’er Zhang e SImu Liu em cena do filme. Imagem: Walt Disney Studios/Divulgação

Aliás, vale ressaltar que ‘Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis’ é um filme que dá voz, força e muito tempo de tela para mulheres, sejam elas poderosíssimas ou não. Fala Chen como Jiang Li, mãe do protagonista, é a chave de toda a trama do filme, e atua de forma delicada e serene, trazendo um contraponto interessante comparada à outras presenças femininas presentes. Michelle Yeoh como Nan, a tia do herói, aparece apenas no segundo ato em diante, todavia mostra presença forte em todas as cenas e inova na relação “mestre” e “aprendiz” que tem com o sobrinho, distanciando-se do já costumeiro estilo “Luke/Yoda” que o público tem enraizado em mente.

Contudo, o maior destaque do filme é Tony Leung como Wenwu, pai de Shang-Chi e o verdadeiro Mandarim – sim, pessoal. Muitas conexões com ‘Homem de Ferro 3’, recomendo assistir previamente. O vencedor do prêmio Cannes de “Melhor Ator” por ‘Amor à Flor da Pele’ (2000) atua de forma espetacular na pele de um homem inconformado com a dor do luto. O desenvolvimento do personagem é tão brilhante quanto, pois Cretton não perdeu a mão ao equilibrar vilania e conexão compreensiva com o público. Ou seja, o espectador entenderá o porquê de ele estar fazendo tudo o que ocorre, mas também não irá “passar pano” para as atitudes tomadas.

Simu Liu detona como protagonista, mas coadjuvantes também roubam a cena. Imagem: Walt Disney Studios/Divulgação

‘Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis’ é passo perfeito para renovar o MCU

‘Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis’ se encaixa no MCU da própria maneira, ainda mantendo aspectos da “fórmula Marvel” de fazer filmes e apresentar personagens, mas com uma carga emocionante regada a referências culturais asiáticas e artes marciais, além de um esplendor visual, que outros longas de super-heróis deveriam tomar notas.

Com elenco brilhante e produção de alto nível, a produção foi claramente uma aposta acertada do Marvel Studios e da Disney e, querendo ou não, um experimento que tem todos os fatores para ser um sucesso absoluto entre o público. E fica a dica, Kevin Feige: tal qual ‘Pantera Negra’, o filme aqui é um modelo promissor de renovação e de como os estúdios por trás do Universo Cinematográfico podem acertar novamente no futuro… e que sirva de exemplo para a DC/Warner também.

Ah, e vale ressaltar: existem duas cenas pós-créditos após o término do longa. Enquanto a primeira é envolta de muito fanservice e deixará o público animado e ansioso para o futuro da chamada “Fase 4” do Marvel Studios, a segunda dá a deixa para uma possível continuação da história de ‘Shang-Chi’.

Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis
‘Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis’ é passo perfeito para renovar o MCU . Imagem: Walt Disney Studios/Divulgação

Não vê a hora de assistir a aventura do mais novo herói do MCU? ‘Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis’ tem, além de Simu Liu como protagonista, Awkwafina, Tony Leung e Michelle Yeoh no elenco. O roteiro é escrito por Dave Callaham (‘Mulher-Maravilha 1984’), e a direção está sob os cuidados de Destin Daniel Cretton (‘O Castelo de Vidro’).

Vale ressaltar que, ao contrário de produções do Walt Disney Studios (como ‘Cruella’ e ‘Viúva Negra’), o longa em questão não será disponibilizado no Premier Access do streaming Disney+ simultaneamente com os cinemas – movimento já planejado anteriormente pela empresa. Confira mais detalhes do filme abaixo, com sinopse e trailer oficiais:

“Em ‘Shang-Chi e a Lenda dos Dez Aneis’, Shang-Chi é um jovem chinês criado por seu pai em reclusão, sendo treinado em artes marciais. Quando ele tem a chance de entrar em contato com o resto do mundo, logo percebe que seu pai não é o humanitário que dizia ser, vendo-se obrigado a se rebelar.

Agora, Shang-Chi deve confrontar o passado que ele acreditava ter deixado para trás quando ele é atraído para a rede de mistérios da organização Dez Anéis.”

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