Sonhadoras Afegãs. Não poderia haver nome mais adequado para um grupo de jovens meninas cientistas que vivem em um país onde a ciência é tão pouco valorizada, e as mulheres têm tão pouco acesso a esse mundo. A situação, que nunca foi das mais fáceis, tornou-se ainda mais complicada desde que a milícia fundamentalista Talibã assumiu o poder no Afeganistão.

Composto por cerca de 20 adolescentes, que têm entre 13 e 18 anos, o grupo é a primeira equipe feminina de robótica do país. E elas vinham trilhando um caminho muito promissor, embora repleto de dificuldades.

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Algumas meninas do grupo de robótica Sonhadoras Afegãs procuraram exílio fora do Afeganistão, após tomada do poder pelo Talibã. Imagem: AFP

Nenhuma delas, no entanto, comparada ao momento atual. Na última vez em que esteve no poder, o Talibã estabeleceu uma série de regras e restrições às mulheres afegãs, que foram proibidas de trabalhar, de estudar e mesmo de transitar livremente.

Com receio de que tudo isso se repita, algumas integrantes das Sonhadoras Afegãs decidiram fugir do país, conseguindo abrigo no México. Decisão muito difícil de ser tomada e de ser concretizada, mas que virou a única opção de sobrevivência dessas meninas e de outros milhares de moradores do Afeganistão, que buscam refúgio fora de lá.

Boas vindas no México

Fatemah Qaderyan, Lida Azizi, Kawsar Roshan, Maryam Roshan e Saghar Salehi, fundadoras da equipe, percorreram seis países e se depararam com muita burocracia, até que, finalmente, na terça-feira da semana passada (24), obtiveram asilo temporário do governo mexicano, sendo recebidas pelo ministro das relações exteriores, Marcelo Ebrard.

“Recebemos as primeiras candidatas a visto humanitário no México vindos do Afeganistão. Elas fazem parte da equipe de robótica daquele país e defendem um sonho: um mundo com igualdade de gênero. Sem bem-vindas!!!”, postou Ebrard em sua conta no Twitter.

Segundo ele, elas receberam o visto humanitário, o que lhes autoriza permanecer no México pelo período de seis meses, podendo ser prorrogado. Lá, as meninas receberam, também, hospedagem e alimentação gratuitas, por meio de diversas organizações.

Grupo de cientistas Sonhadoras Afegãs ganhou destaque mundial outras duas vezes

A equipe de robótica Sonhadoras Afegãs foi criada graças à organização não-governamental Digital Citizen Fund (Fundo da Cidadã Digital), fundada pela empresária afegã Roya Mahboob, que mora nos EUA, onde fica a sede da ONG.

De acordo com reportagem da BBC, a Digital Citizen Fund ajuda meninas e mulheres de países em desenvolvimento a terem acesso à tecnologia, oferecendo, por exemplo, cursos nas áreas de ciências, engenharia, matemática e robótica.

As adolescentes ganharam as manchetes dos maiores veículos internacionais em 2017, quando conquistaram o Prêmio Especial no Campeonato Internacional de Robótica, realizado em Washington DC. 

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Além de serem oriundas de um país com histórico nada favorável às mulheres em relação ao acesso aos estudos e à tecnologia, as meninas precisam superar uma infinidade de obstáculos para chegar aos EUA, na época. Por essas razões, o prêmio foi tão comemorado e largamente divulgado pela imprensa mundial.

A primeira adversidade aconteceu ainda no Afeganistão, quando elas tiveram seus materiais confiscados pelo governo. 

Depois, a longa viagem de Herat até os EUA, além de extremamente cansativa, foi quase frustrante. Ao chegarem à embaixada americana, elas tiveram seus vistos negados. Por duas vezes.

Somente após a surpreendente intervenção do ex-presidente Donald Trump, tradicionalmente avesso ao acesso de imigrantes em território norte-americano, é que elas puderam entrar no país.

Lutando contra a Covid-19, as jovens cientistas da equipe de robótica Sonhadoras Afegãs desenvolveram respiradores com peças e acessórios de carros. Imagem: Digital Citizen Fund

Outra ocasião em que as Sonhadoras Afegãs ganharam destaque na mídia foi no combate à Covid-19. As meninas desenvolveram um projeto para construir respiradores com base em uma pesquisa de engenheiros do Massachusetts Institute of Technology (MIT), utilizando peças e acessórios de carros.

Depois de conseguirem autorização dos pesquisadores para usarem o protótipo, o grupo pôs a mão na massa, sendo que muitas delas trabalhavam em jejum, já que era o mês do Ramadã para os muçulmanos. O isolamento social também foi um grande obstáculo, pois impedia as meninas de se reunirem para trabalhar. Isso sem contar que algumas morreram em consequência da doença.

Universidades americanas ofereceram bolsas de estudo para as jovens cientistas

As meninas explicaram por que decidiram abandonar o Afeganistão. “Desde que o Talibã recuperou o poder, a situação não estava mais a nosso favor. Nesse regime, nós, meninas, temos dificuldades, por isso estamos gratas por estarmos aqui”.

Se permanecessem por lá, elas acreditam que a dedicação à ciência seria praticamente impossível. 

Nenhuma das adversidades enfrentadas até agora, desde o começo difícil do grupo até essa fuga, apaga o brilho no olhar das sonhadoras. Nem destrói a sua esperança. “Nossa história não terá um final triste por causa do Talibã”, disseram as meninas, que, segundo a BBC e outros veículos da imprensa norte-americana, já receberam ofertas de bolsas de várias universidades dos EUA.

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