A violência contra meninas e mulheres ainda é uma dura realidade no Brasil. Infelizmente, no último ano, enquanto a pandemia de Covid-19 se instalava em nosso país e precisávamos adotar o isolamento social, os casos aumentaram.

Uma em cada quatro mulheres acima de 16 anos afirma ter sofrido algum tipo de violência em 2020 no Brasil, segundo pesquisa do Instituto Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Isso significa que cerca de 17 milhões de mulheres (24,4%) sofreram violência física, psicológica ou sexual.

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Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2021, no ano passado foram registrados 1.350 feminicídios no Brasil. Entre as vítimas, 74,7% tinham entre 18 e 44 anos, a maioria era negra (61,8%) e o mais assustador: 81,5% foram mortas por seus atuais ou ex-companheiros.

Os dados também apontam que houve um chamado de violência doméstica por minuto. Somente no Disque 190, da Polícia Militar, foram 694.131 ligações, correspondendo a um aumento de 16,3% em relação ao levantamento anterior.

Quando o assunto é violência sexual, os números são ainda mais desoladores. A pesquisa mostra que foram registrados oficialmente 60.460 casos de estupro em 2020, sendo que 86,9% de vítimas eram do sexo feminino. Do total de crimes, 85,2% foram perpetrados por autores conhecidos das vítimas, enquanto que 60,6% delas tinham até 13 anos e a imensa maioria, 73,7%, era vulnerável e incapaz de consentimento.

Vale destacar que tivemos avanços importantes para combater a violência contra meninas e mulheres. Fazem parte deste esforço a aprovação de normativas, como a Lei Maria da Penha, a criação de instituições, como serviços especializados em atendimento às mulheres, assim como campanhas para conscientização de profissionais e da população sobre o problema, seus efeitos e os recursos disponíveis para enfrentá-lo. Mas todo esse esforço não é suficiente para acabar de vez com essa situação.

Isso porque o assunto é sensível. Faltam recursos para construção de políticas públicas mais efetivas nas áreas de educação, saúde e assistência social; É preciso ampliar o acesso a informações sobre direitos e medidas protetivas; São necessárias ações de empoderamento feminino, empregabilidade e de assistência às vítimas; Assim como a devida notificação dos crimes, investigação e punição dos agressores.

Em meio a tantos desafios que ainda persistem, há também alternativas sendo construídas. Grande parte delas com o uso de tecnologias.

Ferramentas importantes para driblar a violência

Enquanto uma resolução efetiva não acontece, a tecnologia pode ser uma grande aliada nesse processo. Há diversas iniciativas – no Brasil e no mundo – que buscam aplicar soluções digitais para o combate à violência contra meninas e mulheres.

É o caso da ISA.bot, um robô criado pela organização Think Olga e pelo Mapa do Acolhimento, com o apoio de Facebook, Google e ONU Mulheres. A solução fornece orientações para meninas e mulheres em situação de violência, podendo ser acessada no chat do Google Assistente ou do Facebook.

Outra iniciativa é o Todos por Uma, um aplicativo que permite o envio de avisos (pedidos de socorro) para contatos selecionados como “Anjo”. Já foram realizados mais de 20 mil downloads da solução, que também está presente em países como EUA, Colômbia e Alemanha.

Ou o Projeto Glória, que combina três tecnologias disruptivas – blockchain, inteligência artificial e analytics – para aprimorar a coleta, análise e disponibilização de dados relacionados à violência contra meninas e mulheres, possibilitando a construção de políticas públicas com base em evidências.

Ainda teremos que discutir esse assunto muitas vezes

Nada disso resolve o problema por inteiro. Ainda temos muitas barreiras para enfrentar a violência contra meninas e mulheres, não só aqui em nosso país, mas no mundo todo.

Como todo problema complexo, sabemos que não há uma solução única, mas já não há dúvidas de que a tecnologia usada com sabedoria e propósito tem o poder de transformar a realidade de tantas meninas e mulheres que sofrem constantemente com episódios recorrentes de violência doméstica.

Não faltam soluções que podem ser grandes aliadas nessa luta que deve ser de todas e todos nós.

*Letícia Piccolotto é Presidente Executiva da Fundação BRAVA (www.brava.org.br) e fundadora do BrazilLAB – primeiro hub de inovação GovTech que conecta startups com o poder público