Talvez você tenha visto isso por aí, mas um tsunami pode atingir o Brasil caso um vulcão passe por erupção explosiva na Espanha. Ou não. Isso porque, segundo especialistas ouvidos pela imprensa, as chances disso acontecer são bem remotas e, mesmo se passássemos por tal episódio, não só a onda demoraria a chegar aqui – cerca de nove horas -, como seus efeitos não seriam da magnitude que alguns perfis das redes sociais lhe fizeram acreditar.

Contextualizando: o vulcão Cumbre Vieja, localizado em La Palma, uma ilha espanhola no oeste da África, deu sinais de atividade após anos dormente. Esses sinais foram o suficiente para o governo elevar o risco de erupção local para o “alerta amarelo” – tido como “risco intermediário ou moderado” de algum evento climático.

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No caso de uma erupção explosiva (aquela onde o vulcão “cospe” lava para cima, despejando magma e cinzas para todos os lados), há uma possibilidade de que as ondas causadas no mar próximo causassem um tsunami na região nordeste do Brasil.

Isso fez com que diversas pessoas nas redes sociais compartilhassem memes brincando com a possibilidade, mas alguns veicularam a notícia com um tom alarmante que, mais uma vez segundo especialistas, não corresponde à realidade.

(Não) corra para as colinas!

Falando ao G1, o professor do Departamento de Geociências da Universidade Federal da Paraíba, Saulo Vital, explicou que as chances de uma erupção explosiva sequer ocorrer são baixas ou moderadas. Isso porque uma erupção do tipo tende a estourar partes da caldeira e da borda de um vulcão – e esse desabamento, ao cair no mar, gera ondas de tamanhos maiores que o de costume. Isso se dá quando os abalos sísmicos – ou seja, os movimentos da Terra – têm uma intensidade grande a ponto de causar esse estrago.

Entretanto, o vulcão Cumbre Vieja é conhecido por movimentos sísmicos moderados, característicos de vulcões que, quando passam por um evento de erupção, muito mais “derramam” lava do que “cospem”.

Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o Laboratório Sismológico também vem acompanhando o caso. De acordo com o coordenador da instituição, Aderson Nascimento, nenhum alerta foi recebido por eles – um sinal de que a classificação amarela (a segunda em um sistema de quatro cores) é muito mais uma precaução para o caso remoto de algo acontecer. Lá, não aqui.

“Essa chance é muito pequena. A gente, como órgão de sismologia, ninguém soube de nenhum alerta que foi emitido pelo serviço geológico espanhol ou algum órgão oficial dizendo que isso está acontecendo”, falou o especialista, também ao G1. “Eu não estou dizendo que a chance é zero de acontecer, eu estou dizendo que é muito baixa”.

Essa opinião é compartilhada pelo oceanógrafo e professor da Universidade Federal da Bahia, Guilherme Lessa: “o drama é um vício da humanidade. Ainda é pequena a probabilidade de o evento ocorrer. É um alarde muito grande. Este cenário cataclísmico foi publicado há muito tempo e é algo extremamente hipotético, nenhum dos valores seria crível de aposta. Está sendo gerado um pânico sem necessidade”, ele comentou ao jornal baiano Metro1.

Mesmo com a erupção explosiva, tsunami pode não acontecer

O “pânico” mencionado por Lessa e visto em reações nas redes sociais pode ser derivado de um estudo conduzido pela Universidade Federal do Paraná, que levantou a possibilidade de “grandes movimentações oceânicas” no caso de um deslizamento de 500 km³ de massa de terra. Esse estudo usa dados publicados em um outro estudo internacional, de Steven Ward, do Instituto de Geofísica da University of Califórnia (EUA); e Simon Day, do Departamento de Ciências Geológicas da University College, de Londres, em 2001. Nesse estudo antigo, o alarme é mais evidente no texto.

A chave aqui, entretanto, está no volume dessa massa. 

Guilherme Lessa diz que, ao contrário do que afirma o estudo, um deslizamento desse porte é algo difícil de acontecer. E que mesmo uma massa de terra sendo arremessada contra o mar cause movimentações aquáticas, um volume menor do que o previsto no estudo no estudo paranaense já traria efeitos menores – isso, se trouxesse qualquer efeito.

O autor do estudo publicado no Paraná disse ao UOL que a situação pede cuidado para os espanhóis, haja vista que o alerta amarelo permite atenção sobre assuntos do tipo, o que tende a acelerar a tomada de decisão diante da necessidade de uma evacuação ou outras ações de defesa civil.

No caso do Brasil, o mesmo tom pode ser tomado, mas sem o alarde que se viu nas redes: “O vulcão não vai ter uma erupção amanhã. A gente só tem que fazer o plano porque existe um risco; ele é mínimo, mas tem saber o que fazer”, disse ao UOL o pesquisador do Instituto de Ciências do Mar, da Universidade Federal do Ceará, Carlos Teixeira:

“O vulcão não vai ter uma erupção amanhã. A gente só tem que fazer o plano porque existe um risco; ele é mínimo, mas tem que saber o que fazer”, comentou o especialista. “Ele pode ficar em nível de alerta por diversos anos. Não é tipo ‘entrou no dois, amanhã entra no três e depois entra no quatro’. Não! Ele pode ficar para o resto da vida nesse dois [sic] e não ter uma erupção”, completa.

Claro, uma erupção explosiva de qualquer medida seria um problema dos grandes na ilha em si e no oeste da África, onde as ondas poderiam passar de 10 m. Mas os movimentos no Brasil – se ocorressem – seriam consideravelmente menores e impactantes.

Então, como diz a expressão popularizada na internet tupiniquim, “vida que segue”. As chances de qualquer episódio do tipo ocorrerem no Brasil continuam bem baixas.

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