Da frustração de ter que adiar contínuas vezes a estreia dos seus filmes nos cinemas, por causa da pandemia de Covid-19, ao sucesso no streaming. Quando iniciou o planejamento do projeto que viria a se tornar a dupla de longas-metragens ‘A Menina que Matou os Pais’ e ‘O Menino que Matou Meus Pais’, o diretor Mauricio Eça planejava fazer apenas um filme, que seria lançado nos cinemas. De lá para cá, muito mudou – e para melhor, como contou o cineasta em entrevista exclusiva ao Olhar Digital.

“Os dois filmes estavam com lançamento pronto para abril do ano passado. Teríamos uma pré-estreia em março, mas na mesma semana veio a pandemia e foram adiados. O que para gente foi complicado, por que os exibidores já tinham assistido o filme e tínhamos a expectativa de ir para muitas salas. Foi uma frustração absurda”, lembra o cineasta. Desde o anúncio, o projeto já chamava muita atenção, uma vez que iria retratar nas telonas um caso criminal que abalou o País no início dos anos 2000: o assassinato de Manfred e Marísia von Richthofen pelos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos, junto com Suzane, filha do casal.

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A partir daí, os filmes ficaram numa espécie de limbo, esperando uma nova janela de lançamento. Segundo o diretor, a atriz Carla Diaz, que faz Suzane, chegou a deixar vídeos de divulgação do filme prontos caso a estreia ocorresse enquanto ela estivesse no Big Brother Brasil 21. “Durante a pandemia toda ficamos pensando: ‘agora a gente vai para o cinema’. Aí as coisas não melhoraram, as salas voltaram mas não como era e queríamos que as pessoas tivessem a experiência de ver os dois filmes e ter sua própria opinião”, conta Eça.

Surgiu então a proposta de levar os dois longas direto para o streaming, por meio da Amazon Prime Video. De milhares de salas de cinema no Brasil, os filmes estariam então disponíveis para os milhões de assinantes da plataforma, em mais de 240 países e territórios. “Para a gente acabou sendo uma dimensão muito grande para o projeto, e no final das contas foi muito legal porque as pessoas puderam assistir os dois filmes. No cinema talvez isso não acontecesse, então o streaming caiu como uma luva”, avalia o cineasta.

A Amazon não libera os números absolutos de audiência do Prime Video, mas o diretor conta que ‘A Menina que Matou os Pais’ e ‘O Menino que Matou Meus Pais’ ficaram entre primeiro e segundo lugar na plataforma nas duas primeiras semanas, e no Top 5 na terceira. Na semana do lançamento, no fim de setembro, as buscas pelos filmes cresceram 3.780% no Google. “A experiência de assistir em casa funcionou muito bem na nossa proposta, embora eles tenham sido planejados inicialmente pensando no cinema”, explica o diretor. “Hoje, a gente olha para o mercado de maneira diferente. O streaming era uma janela, junto com a TV aberta. Hoje talvez ele seja uma janela direta e será assim por algum tempo”.

O streaming também tem gerado, no público, um interesse por obras que de outra forma ele não teria acesso. Um exemplo é a série sul-coreana ‘Round 6’, que se tornou a mais vista na Netflix e incentivou a procura por produções de fora de Hollywood. “Talvez, se a gente tivesse estreado no cinema, poderia performar bem do Brasil mas demorasse a chegar no streaming. Fizemos uma troca: conseguimos ir muito bem no streaming e estamos sendo vistos no mundo inteiro”.

O diretor Maurício Eça. Imagem: Divulgação
O diretor Maurício Eça. Imagem: Divulgação

Histórias de crime

Ao retratar um caso famoso de assassinato a partir dos depoimentos dos condenados, ‘A Menina que Matou os Pais’ e ‘O Menino que Matou Meus Pais’ também surfa numa onda que vem ganhando volume no Brasil: as produções de true crime. Por meio de filmes, séries e documentários, o gênero de suspense vem conquistando o público em todas as plataformas, mas ainda falta mais conteúdo made in Brazil. “É um novo gênero que está sendo desenvolvido e é legal termos sido precursores. A resposta que as pessoas deram para o projeto foi incrível”, conta Eça.

Os filmes contam com roteiro de Raphael Montes e Ilana Casoy – esta última é jornalista e autora de vários livros de true crime, inclusive ‘Casos de Família – Arquivos Richthofen e Arquivos Nardoni’, que serviu de base para os filmes.  O envolvimento da história de três pessoas acusadas e condenadas por um crime bárbaro (Suzane von Richthofen e Daniel Cravinhos foram sentenciados a 39 anos de reclusão e seis meses de detenção, enquanto Christian foi condenado a 38 anos de reclusão e seis meses de detenção) levantou uma polêmica sobre o financiamento da produção.

O diretor Mauricio Eça explica que 100% dos filmes foram produzidos com financiamento próprio. “Não tivemos nada de recurso público. E mesmo antes de começar a filmar começamos a sofrer esse tipo de represália, que os envolvidos estariam recebendo dinheiro ou questionando se esse tipo de filme deveria ser feito no Brasil. Tivemos que lançar uma campanha contra essas fake news”, lembra o cineasta.

Cena dos filmes 'O Menino que Matou Meus Pais' e 'A Menina que Matou os Pais'
Os filmes contam a história do brutal assassinato de Manfred e Marisia von Richtofen. Imagem: Stella Carvalho/Divulgação

Escolhas criativas

‘A Menina que Matou os Pais’ e ‘O Menino que Matou Meus Pais’ narram os fatos que levaram até o assassinato de Manfred e Marísia em 31 de outubro de 2002, a partir dos depoimentos de Suzane e Daniel. Muitas cenas aparecem nos dois filmes, o que o diretor chama de “cenas espelho”, mas com leves mudanças que reforçam o ponto de vista de cada um dos protagonistas.

“Foi um projeto que fizemos inteiramente calçados no processo, nos autos do julgamento. Ao fazer o filme buscamos o máximo de respeito. Esse gênero [true crime] é duro, não é fácil de fazer. Mas é necessário. Cinema não é só entretenimento, é também você pensar, entender a psicologia da mente humana”, explica Eça.

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O projeto nasceu como um filme único, com as duas versões. “Os roteiristas sacaram nos depoimentos que cada um contou uma história. Então a proposta era diferente. Então nosso produtor [Gabriel Gurman, da Galeria Distribuidora] deu essa ideia de fazer dois filmes. Então foram escritos dois roteiros, filmados ao mesmo tempo durante seis semanas. Foi um novo desafio”.

Carla Diaz em 'A menina que matou os pais'
Carla Diaz interpreta Suzane von Richthofen. Imagem: Stella Carvalho/Divulgação

Quase 20 anos depois, o Caso Richthofen ainda é explorado pela mídia – vide as reportagens feitas a cada vez que Suzane deixa temporariamente a prisão. Ao mesmo tempo que uma parte do público já deu “play” com uma ideia preconcebida do enredo, outra parte nem era nascida quando os crimes aconteceram. “Parte de fazer cinema é decidir qual história a gente quer contar. E para isso você vai fazendo uma série de escolhas. Como são duas versões, é legal prestar atenção que algumas cenas têm em um filme mas não em outro. Mas vendo os dois você entende cada um, no seu depoimento, fez escolhas. Para o Daniel era importante contar certas coisas para se defender e amenizar sua pena. A Suzane teve escolhas para o depoimento dela. As ‘cenas espelho’, os dois falaram no julgamento, então é uma verdade que cada um contou de um jeito”, lembra o cineasta.

Os dois filmes começam e terminam com o dia dos assassinatos, para então contar – na versão de cada um dos condenados – o que aconteceu até lá. Mas outra escolha dos produtores foi não contar o que aconteceu depois, durante a investigação e os julgamentos. “A história do pós-crime até julgamento é muito rica, mas não foi nossa escolha. O final todo mundo já sabe, como o crime aconteceu. O que a gente achou interessante era entender essa trajetória. Tem muitas possibilidades de contar esse crime e eu direto recebo mensagem cobrando ‘a versão do irmão’ e de como eles foram presos. Cada um contou no julgamento o sentimento deles naquele dia do crime, como eles se viram. Mais do que mostrar a violência, me interessava mostrar como elas estavam se sentindo”, conta Eça.

 ‘A Menina que Matou os Pais’ e ‘O Menino que Matou Meus Pais’ estão disponíveis no Amazon Prime Video. Não há uma ordem correta para ver os filmes, mas o diretor conta que recomenda ver ‘O Menino’ antes. “Talvez porque a história de ‘A Menina’ seja mais pesada, então você queira deixar para depois. Mas já vi dos dois jeitos e em qualquer ordem funciona”, brinca.

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