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Review: ‘Backbone’ é mistério indie neo noir perspicaz sobre depressão e niilismo

29/10/21 07h53
backbone

. Imagem: Raw Fury/Divulgação

Descrito pelos desenvolvedores como “uma aventura de detetive RPG neo noir”, ‘Backbone‘ é uma “joia rara” indie intrigante e perspicaz, e logo de cara entrega uma ótima primeira impressão. O game baseado em narrativas se passa em um mundo habitado por animais antropomórficos, todos vivendo suas vidas em uma Vancouver distópica. No controle do guaxinim Howard Lotor, um detetive particular depressivo que mal consegue sobreviver, você assume o que parece ser um trabalho simples, mas que logo o leva a um enredo muito maior e mais sinistro.

O título começa te ofertando logo de cara um caso padrão, porém delicado de “marido traidor” em mãos. Porém, ao conversas com NPCs, investigar pistas, arrombar portas e, bem, agir como um investigador particular, a trama se transforma em algo muito mais sombrio e coloca Howard em conflito direto com o sistema opressor da cidade. Niilista e levando o público a pensar muitas vezes que irá tirar a própria vida em algum momento, ele felizmente tem certa ajuda na forma de uma jornalista raposa chamada Renee e um confiável motorista/melhor amigo, o castor Anatoly.

Para a EggNut, pequeno estúdio composto por funcionários remotos do Canadá, Estados Unidos, Rússia e Holanda, ‘Backbone’ representa uma conquista e tanta. O jogo é simples e todo feito ao melhor estilo de arte pixel, mas é surpreendente em conceito, design e execução. A desenvolvedora já havia introduzido o mundo neo noir pela primeira vez quando lançou o “Prólogo” do título na Steam, em 2019, que dava aos jogadores a chance de experimentar o primeiro ato do games e foi recebido com críticas extremamente positivas – potencial que a versão completa oferece.

Detetive Howard Lotor, um guaxinim tanto quanto depressivo, é o protagonista de ‘Backbone’. Imagem: Raw Fury/Divulgação

A mecânica de ‘Backbone’ é básica, mas apresenta furtividade, exploração e elementos dos clássicos jogos de aventura de apontar e clicar. Embora apresente muitos quebra-cabeças e momentos tensos que expõem demais a fraqueza humano, o principal elemento do romance visual é o diálogo expansivo. Cada interação enquanto explora os vários bairros da cidade envolve diversas opções de respostas que afetam as decisões de quem quer que Howard esteja lidando.

Interagindo com pontos de interesse e conversando com os residentes, fica claro rapidamente que os jogadores devem imergir com todos e com tudo o que puderem para seguir a trilha do terrível mistério e navegar na investigação. Embora não seja declarado diretamente, é bom saber que lidar com todas as opções que o jogo proporciona é algo capaz de fazer o jogador alcançar o melhor resultado possível – fator que deixa o título repetitivo.

Claro, sequências furtivas adicionam um pouco de tensão à jogabilidade, mas são tão raras dentro da gameplay e o conceito é tão pouco explorado que você vai se perguntar por que estão incluídas. Logo, a grande maioria do seu tempo em ‘Backbone’ será em conversas com vários personagens na tentativa de descobrir pistas… infelizmente, tudo para levar ao mesmo e linear final – confuso e complexo como a obra em si.

Múltiplas escolhas nas conversas intrigam, mas levam ao mesmo final do jogo – o que decepciona. Imagem: Raw Fury/Divulgação

Verdade seja dita: a história configura as coisas muito bem, mas quanto mais desenvolvida é, mais a narrativa fica fora de controle. No jogo, são geralmente oferecidas duas ou três opções de diálogo, algumas das quais levam a respostas diferentes, mas que não mudam absolutamente, visto é um jogo totalmente linear com um único final. Ou seja, independentemente de como você decidir falar com todos, a trama continuará sem mudanças.

Por ser um título indie, o fator é perdoável, porém cabe a crítica que ‘Backbone’ seria uma jogo muito melhor caso oferecesse finais alternativos e caminhos não lineares. Reitero, o jogo configura uma narrativa com reviravolta inicial deveras intrigante, com alguns personagens genuinamente interessantes e uma esperança de conto temperamental e humanista, mas tudo sai dos trilhos na metade do caminho e fica mais confuso a partir daí.

O que imediatamente se destaca acima de qualquer aspecto em ‘Backbone’ é a formidável direção de arte e uma estupenda trilha sonora. Graças à versatilidade do Unreal Engine 4, os visuais do jogo são compostos por uma mistura de efeitos 3D e pixel art de alta resolução. Isso dá ao game um estilo único devido à capacidade de incorporar iluminação dinâmica e efeitos climáticos para ajudar a criar um mundo frio e existencial.

‘Backbone’ traz críticas interessantes à sociedade opressora e ao niilismo. Imagem: Raw Fury/Divulgação

As composições de Danshin e Aroof Aftab elevam a experiência a um nível de extrema satisfação, fornecendo aos jogadores o que a EggNut descreve apropriadamente como “jazz doom distópico”. A trilha sonora não apenas captura a estética e o estilo noir do universo doss detetives, mas também transmite as emoções complexas sentidas pelos personagens do ‘Backbone’, pela própria cidade e por Howard.

Os temas sociais em ‘Backbone’ não são sutis, o que torna o jogo ainda melhor. O mais claro é o comentário sobre a luta de classes e as sociedades opressoras, destacando como os que estão no poder “comem e cospem” os presos em ciclos de pobreza e sutilmente os segregam por meio do racismo sistêmico e desenfreado. A abordagem prática da temática é capaz de aprofundar a conexão do jogador com Howard, e a dele com os outros.

Conforme a história avança, o gênero e o tom do game mudam perfeitamente para algo mais surreal e se concentra na natureza existencial da mortalidade. Depressivo, o detetive se mostra radicalmente e cético e desgostoso com a vida ao longo de toda a narrativa. Assim, diálogos pessimistas (e um tanto quanto suicidas) são comuns no jogo e abrem debate sobre como a dura realidade do mundo antropomórfico não é tão diferente do real.

‘Backbone’ é limitado e peca por não arriscar, mas vale muito a pena

A jornada de Howard termina muito longe de onde começou e cada passo desenvolve continuamente o investimento emocional para todos no universo de ‘Backbone’. Embora existam problemas mecânicos e limitações por conta do aspecto indie, como a interação ineficaz e nem sempre responsiva imediatamente, cada elemento do jogo é polido e habilmente trabalhado que excede o alcance usual do gênero e merece todo o reconhecimento que recebe.

Estética e trilha sonora são grandiosas e podem levar ‘Backbone’ às principais premiações do setor. Imagem: Raw Fury/Divulgação

O game, por conta da excelente produção, é possivelmente um nome que deve aparecer nas principais premiações do setor no fim de 2021 e ao longo de 2022, tornando-se uma experiência atraente para mesmo aqueles com pouco interesse em jogos retrô ou aventuras simples de apontar e clicar.

Afinal. o título já é premiado, visto que venceu O jogo foi premiado com as categorias Gran Prix, Melhor Jogo para PC e Melhor Arte na competição DevGAMM Unreal Engine em Minsk (Belarus), além do Prêmio de Melhor Jogo Indie no Festival de Cinema Europeu de Estrasburgo, na França.

Ficou interessado? Saiba que ‘Backbone’ já está disponível para PlayStation 4 (PS4), PlayStation 5 (PS5), Xbox One, Xbox Series X/S e PC (via Steam e Epic Games). O jogo não possui dublagem brasileira, mas está totalmente localizado em português do País, de acordo com a Eggnut. Para o review, uma cópia do título foi gentilmente cedida pela publisher Raw Fury. Confira o trailer do jogo abaixo:

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