Na última quarta-feira (3), uma nova missão espacial foi anunciada pela Agência Espacial Europeia (ESA) na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26) em Glasgow, Escócia. Trata-se de um satélite que irá medir o calor retido na atmosfera terrestre, para ajudar a avaliar se a humanidade está fazendo algum progresso no combate aos piores efeitos da mudança climática. 

De acordo com o comunicado da ESA, a missão, denominada TRUTHS (palavra em inglês que significa VERDADES, e, neste caso, a sigla para Radiometria Rastreável que Sustenta Estudos Terrestres e Heliográficos), visa estudar o chamado balanço energético da Terra – a diferença entre a quantidade de energia que chega ao planeta proveniente do Sol e a quantidade que se reflete de volta ao espaço. 

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A missão TRUTHS tem como objetivo medir quanta energia do Sol chega à Terra e o quanto é refletido de volta para o espaço. Imagem: ESA / Airbus

Quanto mais calor a Terra retém, mais quente ela fica, e são os perigosos gases de efeito estufa que criam condições para que o planeta aprisione mais do calor recebido. 

A missão TRUTHS “estabelecerá uma referência para detectar mudanças no sistema climático da Terra”, disse a ESA, informando que o satélite poderá ser lançado em órbita em 2029, a depender do financiamento.

“A missão desempenhará um papel vital para melhorar a forma como monitoramos a mudança climática usando dados de satélite e apoiamos a ação climática decisiva que as nações globais estão negociando na COP26”, disse Beth Greenaway, chefe de observação da Terra e do clima da Agência Espacial Britânica (UKSA), que é parceira da ESA na TRUTHS.

De acordo com o site Space, a espaçonave terá dois instrumentos principais: o Radiômetro Solar Absoluto Criogênico e o Espectrômetro de Imagem Hiperespectral. Esses dois instrumentos medirão continuamente a radiação solar recebida e refletida. 

TRUTHS vai criar sistema de referência para medições climáticas

A missão poderá detectar mudanças no clima da Terra mais rapidamente e também criará um sistema de referência super preciso que será usado como orientação para outras medições e modelos climáticos.

Embora os satélites desempenhem um papel fundamental no monitoramento dos sinais de mudanças climáticas, um relatório recente divulgado pelo Comitê de Satélites de Observação da Terra disse que a precisão das observações espaciais precisa melhorar para permitir que os cientistas e os formuladores de políticas avaliem se as medidas de mitigação têm algum efeito.

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Segundo a UKSA, a missão TRUTHS pode ajudar nisso. “A TRUTHS é uma missão importante, pois fornecerá o padrão ouro de calibração para a observação da Terra baseada no espaço, uma espécie de ‘laboratório de padrões no espaço'”, declarou Justin Byrne, chefe de observação e ciência da empresa aeroespacial Airbus, que lidera o consórcio industrial que está desenvolvendo a missão.

Europa se preocupa com mudança climática por estar no limite

Ao que tudo indica, a Europa está levando a sério o assunto da mudança climática. Durante uma entrevista coletiva na COP26, Samantha Burgess, vice-diretora de serviços de mudança climática do programa europeu de observação da Terra Copernicus, afirmou que a Europa e o Ártico estão aquecendo muito mais rápido do que o resto do mundo. 

“Globalmente, neste momento, estamos a 1,2ºC acima dos níveis pré-industriais”, disse Burgess. “Mas, na Europa, estamos perto de 2,2ºC acima dos níveis pré-industriais, e o Ártico está perto de 3ºC acima dessa referência”.

O Acordo de Paris, negociado na grande conferência anterior sobre mudança climática, COP21, realizada na França, em 2015, obriga os países a se esforçarem para limitar o aquecimento global a 1,5ºC em comparação aos tempos pré-industriais. 

Segundo Burgess, a taxa atual de aquecimento verá a Terra atingir o temido limiar de 1,5ºC até 2034. 

De acordo com a Organização Meteorológica Mundial, os eventos climáticos extremos são agora uma “nova normalidade”, e o verão de 2021 forneceu provas abundantes disso em todo o mundo.

Inundações de uma intensidade vista uma vez em mil anos castigaram vários países europeus em julho. Só na Alemanha, quase 200 pessoas morreram. Especialistas advertem que tudo isso está destinado a se tornar muito mais comum.

“Com a mudança climática, emergências e desastres tornam-se mais frequentes e mais extremos”, disse Vera Thiemig, oficial científica e pesquisadora do Centro Conjunto de Pesquisa da Comissão Europeia. “Se não fizermos nada, na Europa, a cada ano, 15 milhões de pessoas estarão em risco de incêndios florestais, 90 mil pessoas por ano morrerão devido a ondas de calor, 2 milhões de pessoas serão afetadas por inundações costeiras e ribeirinhas, secas se expandirão e a tundra desaparecerá”, alertou.

Manter o aquecimento global dentro de 1,5ºC, segundo Thiemig, pode reduzir em dois terços o risco de incêndios florestais, assim como o de mortes relacionadas ao calor, e o risco de grandes inundações diminuirá em 50%.

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