Com três anos de atraso, suspense ‘Ao Lado de um Assassino’ (‘The Clovehitch Killer’) finalmente chega ao Brasil, disponível para compra e aluguel nas plataformas digitais. Lançado originalmente no LA Film Festival de 2018, o longa pega inspiração nos crimes reais cometidos pelo famoso serial killer Dennis Rader, conhecido como BTK, para montar um enredo que, enquanto economiza em tensão, compensa em atuação – em especial do protagonista vivido por Dylan McDermott (‘American Horror Story’).

Mas antes, um pouco de história. Entre 1974 e 1991, o BTK (um nome que Rader deu a si mesmo, que significa “bind, torture, kill”, ou “amarrar, torturar, matar”) assassinou pelo menos dez pessoas no Kansas. Extremamente cruel, Rader costumava tirar fotos das vítimas e guardar como troféu, além de se vestir como elas e fotografar a si mesmo. Ao mesmo tempo, era um “cidadão  de bem” respeitável, pai de família, chefe dos escoteiros e um homem muito devoto. Isso o ajudou a escapar do radar da polícia por décadas.

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Rader só foi preso em 2005, porque praticamente se entregou. Na época dos crimes ele já gostava de mandar cartas para a polícia e para os jornais, para se gabar dos seus feitos. Anos depois voltou a se comunicar com a mídia, detalhando seus crimes e enviando parte dos seus troféus para provar que era mesmo o assassino. Em uma das mensagens, perguntou à polícia se seria seguro enviar também um disquete com mais informações, se as autoridades poderiam rastreá-lo com isso. “Claro que não sr. BTK, pode mandar à vontade”, responderam os oficiais.

Obviamente, a polícia rastreou os arquivos salvos no disquete e chegou ao computador da Igreja Luterana da região, do qual Rader era o presidente do conselho. Preso, BTK confessou seus crimes, e reclamou por ter sido “enganado” pelas autoridades. Atualmente, ele está cumprindo dez penas consecutivas de prisão perpétua no Centro Correcional El Dorado, no Kansas.

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A trama de ‘Ao Lado de um Assassino’ é apenas inspirada na história do BTK (assim como os crimes de Ed Gein, outro assassino em série, serviram de base para ‘Psicose’, ‘O Massacre da Serra Elétrica’ e ‘O Silêncio dos Inocentes’). Ela parte de um episódio em que o filho de Rader teria encontrado suas fotos comprometedoras, mas teria sido convencido de que eram inofensivas e tudo ficou por isso mesmo.

No filme, um serial killer conhecido como Clovehitch Killer (em referência a um nó específico que ele deixava na residência das suas vítimas) matou nove pessoas anos antes e aterrorizou a comunidade, até interromper seus crimes repentinamente – mas deixando uma marca na comunidade. Don Burnside (Dylan McDermott, irreconhecível) é um líder dos escoteiros e pai de uma família muito devota, com uma esposa, um filho adolescente e uma filha pequena. Uma pessoa acima de qualquer suspeita.

O filho mais velho, Tyler (Charlie Plummer), encontra, sem querer, na caminhonete do pai, uma foto de uma mulher, nua, amarrada ao estilo BDSM. O jovem então começa a desconfiar que há uma relação entre o pai e o serial killer. Ele une forças com Kassi (Madisen Beaty), uma adolescente obcecada pela lenda dos crimes de Clovehitch, para descobrir a verdade. Só a investigação já requer um esforço tremendo de Tyler, já que sua família é extremamente conservadora e seu interesse já desperta a desconfiança dos seus colegas de escola.

Kassi (Madisen Beaty) ajuda Tyler (Charlie Plummer) a descobrir se o pai é um assassino em série. Imagem: Synapse Distribution/Divulgação
Kassi (Madisen Beaty) ajuda Tyler (Charlie Plummer) a descobrir se o pai é um assassino em série. Imagem: Synapse Distribution/Divulgação

Da forma como o diretor Duncan Skiles conduz a trama, fica claro desde o início que Don esconde um lado assassino. Dessa forma, a tensão se cria não na dúvida sobre quem é o Clovehitch Killer, mas sobre como Tyler deve agir sabendo (ou desconfiando) que o pai é o criminoso. Toda interação dele com outras pessoas, especialmente mulheres, torna-se um incômodo, causa uma apreensão, como um predador prestes a agarrar sua presa. É um terror doméstico, temperado com conservadorismo religioso. Charlie Plummer faz um jovem eternamente apavorado, seja pelo pai, seja pela própria opressão da comunidade em que vive.

Quando Tyler encontra Kassi, a trama entra num clichê. Ela é a “outsider” da cidade, a garota estranha, com fama de promíscua, que é obcecada por assassinatos. Eles embarcam, então, em uma investigação “teen” em busca de pistas que confirmem que Don é realmente o assassino em série que aterrorizou a região dez anos antes. Porém, essa relação “clichê” como descrevi antes, é uma armadilha para você espectador acreditar que sabe para que direção a trama vai. Mais ou menos no meio do filme, o enredo dá uma curva de 180° e o foco sai dos jovens e cai no vilão da história.

Ao Lado de um Assassino
Não parece, mas esse é o Dylan McDermott, Imagem: Synapse Distribution/Divulgação

Sob a perspectiva de Don, o longa deixa de ser um drama adolescente e torna-se um suspense de verdade. Durante um fim de semana quando o resto da família está fora da cidade, o assassino sente o peso da banalidade da sua vida familiar (particularmente passando por dificuldades financeiras) e seus “troféus” do passado já não basta. Ele tem que matar outra vez, sentir novamente aquela excitação. Vemos Don, então, em busca de uma nova presa.

Entre o segundo e o terceiro ato, ‘Ao Lado de um Assassino’ acelera seu ritmo vertiginosamente. Além da já citada virada de roteiro, vem outra virada, e depois mais outra, e até uma final já no que seria talvez um quarto ato. Essa construção é lenta no início, mas vale a pena na conclusão, que é toda feita em flashback, preenchendo as lacunas entre as duas primeiras partes da história. Sem uma gota de sangue em tela, ‘Ao Lado de um Assassino’ consegue ser um filme sobre um serial killer muito diferente dos demais, com um fim surpreendente e que te deixa questionando o quão longe uma sociedade está disposta a ir para manter as aparências.  

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