As consequências da pandemia da Covid-19 na medicina ainda devem ser sentidas por muito tempo e devem, inclusive, impactar no surgimento de outras doenças. O consumo acelerado de antibióticos, tanto em pacientes com coronavírus quanto em tentativas infundadas de tratamentos precoces, está causando o aparecimento de superbactérias, que demonstram resistência contra esses medicamentos.

Em entrevista ao El País, Cristina Muñoz, codiretora do Plano Nacional Frente à Resistência aos Antibióticos, explica os planos da iniciativa para evitar que os medicamentos contra bactérias deixem de ser eficazes contra doenças. Segundo a especialista, isso poderia ser uma séria ameaça à humanidade com as superbactérias.

publicidade

“Aconteceriam coisas que nem nos ocorre pensar, como que uma criança caia, abra o joelho, seja levada ao hospital e o médico lhe diga que não há nada a fazer, que sente muito”, diz Muñoz. Ela ainda cita como exemplo doenças como pneumonia, tuberculose, gonorreia e Salmonelose, que nos últimos anos viram o número de tratamentos eficazes diminuir.

Um dos exemplos é a azitromicina, antibiótico presente no chamado “kit Covid“, um conjunto de medicamentos que foi amplamente usado como “tratamento precoce” no Brasil. Apesar das autoridades de saúde já terem comprovado a ineficácia desse tipo de tratamento. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 2020 a venda de azitromicina aumentou 105%.

Preocupação com superbactérias

A preocupação com as superbactérias não é de agora. No começo do ano, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), relatou o risco do uso de antibióticos sem necessidade contra a Covid-19. Segundo o órgão, a situação representa uma ameaça à saúde pública.

“A resistência aos antibióticos ainda é uma ameaça à saúde pública durante a pandemia de Covid-19. Os especialistas do CDC estão monitorando de perto os possíveis efeitos do Covid-19 no estado nacional de resistência e uso de antibióticos”, disse o CDC.

Leia também!

“Durante a pandemia foram utilizadas tantas carbapenemas [um tipo de antibióticos] que em alguns países, como o Chile, temos os níveis de resistência que esperávamos ter em 2030. Aceleramos 10 anos. Estamos muito alarmados”, explica González Zorn, catedrático da Faculdade de Veterinária da Universidade Complutense de Madri.

Outro problema apontado pelos especialistas é que a industria farmacêutica está investindo cada vez menos em medicamentos contra bactérias. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), atualmente existem 43 antibióticos sendo testados em estágio clínico contra 5.700 possíveis novos tratamentos para câncer.

“Para cada produto antibacteriano em desenvolvimento há mais de 100 em oncologia. É inaceitável. Estamos falando de uma necessidade médica comparável. Daqui até 2050 estas infecções matarão igual que o câncer”, explica o microbiologista Marc Lemonnier.

“Criar novos antibióticos é complicado cientificamente, e todo mundo deixou de fazê-lo. O antibiótico depois é vendido por um euro [cerca de R$ 6,30 em conversão direta], então não vale a pena. E se conseguirmos um novo antibiótico, não vamos querer dá-lo a ninguém, para reservá-lo para os casos mais graves, então serão vendidos muito poucos”, completa a economista espanhola Laura Marín.

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!