Uma evidência de autoconsciência é a capacidade de se reconhecer no espelho (MSR, na sigla em inglês). Passar no “teste de marca”, no qual os animais tocam ou raspam uma marca colocada em seu corpo em um local que só pode ser visualizado indiretamente em um espelho, é usado para determinar sua autoconsciência. E, ao que parece, os peixes passaram nesse teste.

No experimento, foram usadas amostras de peixes-limpadores. Imagem: iliuta goean – Shutterstock

Pesquisadores liderados por Masanori Kohda, da Escola de Pós-Graduação em Ciências da Universidade de Osaka, no Japão, já havia abordado isso em um estudo feito com peixes da espécie Labroides dimidiatus, o peixe-limpador. Agora, a equipe fornece mais evidências para sugerir que os peixes têm capacidade MSR, em uma nova pesquisa publicada na PLOS Biology.

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Até então, além dos chimpanzés, as evidências de outros animais que passaram no teste da marca foram criticadas e, portanto, inconclusivas. Foi o que aconteceu com o estudo anterior de Kohda. “Anteriormente, usando uma marca marrom na área da garganta de L. dimidiatus, tínhamos mostrado três de quatro peixes raspando suas gargantas várias vezes depois de nadar em frente a um espelho, um bom número em comparação com estudos semelhantes feitos em outros animais como elefantes e golfinhos”.

Atualização de estudos confirmaram tese anterior

No entanto, uma das críticas feitas contra a primeira abordagem foi o tamanho da amostra e a necessidade de estudos complementares mostrando resultados positivos. Em parceria com pesquisadores do Instituto Max Planck de Comportamento Animal na Alemanha e da Universidade de Neuchâtel, na Suíça, a nova pesquisa aumentou o tamanho da amostra para 18 peixes-limpadores, com um resultado positivo: 17 deles demonstraram o mesmo comportamento do estudo anterior.

“Após olhar para estudos semelhantes feitos sobre macacos, porcos, cães, gatos, etc., que claramente deram negativo, nos perguntamos se a razão pela qual esses animais não tocaram a marca foi porque ela não representava algo em seu ambiente natural com o qual eles estariam preocupados”, diz Kohda sobre a escolha da cor da marca. “Em nosso estudo anterior, usamos uma marca marrom, pois pode parecer um pequeno parasita que é a principal fonte de alimento para L. dimidiatus”.

Alguns macacos têm a capacidade de se reconhecer no espelho. Imagem: Rehman Khoso – Shutterstock

Uma crítica a isso foi a possibilidade de que a sensação física da marca, juntamente com ver a marca marrom no espelho, possa desencadear um comportamento que não sugere conclusivamente o MSR. 

Para lidar com isso, a equipe testou como o peixe responderia a um estímulo físico em sua garganta injetando a marca marrom a 3 mm de profundidade (em oposição a 1 mm). A tal profundidade, a marca era pouco visível, mas eles descobriram que os peixes com a injeção mais profunda raspavam sua garganta a taxas semelhantes, se um espelho estava ausente ou presente. 

Para solidificar ainda mais a importância do uso de marcas ecologicamente relevantes para os animais em estudos de MSR, a equipe constatou que nenhum peixe injetado com marcas verdes ou azuis demonstrou o comportamento de raspagem.

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Peixes se reconheciam ou achavam que eram outros peixes?

Alguns contestadores questionaram se os L. dimidiatus reconheceu a imagem do espelho como si mesmos e não como outro peixe. Um animal treinado por espelho é aquele que é introduzido a uma imagem espelhada de si mesmo e passa por três passos. Primeiro, expressa algum tipo de comportamento agressivo, pois provavelmente percebe a imagem do espelho como outro animal; em seguida, mostra movimento não natural, mas não agressivo, pois confirma que a imagem do espelho não é outro animal; e, por último, ele olha repetidamente para o seu próprio corpo sem agressão. Nesse ponto, o MSR é confirmado, pois agora o animal consegue ver a marca e tentar raspá-la.

“Nosso estudo anterior demonstrou MSR em L. dimidiatus; no entanto, estudos com outros animais têm demonstrado que simplesmente mover um espelho reacende comportamento agressivo, sugerindo que o animal só aprendeu uma contingência espacial, não a MSR”, relatou Kohda.

Então, a equipe transferiu peixes-limpadores treinados para espelho para um tanque com um espelho posicionado em um lado e, três dias depois, para um tanque com um espelho do outro lado, e viu os peixes não mostrarem nenhuma agressão em relação à imagem do espelho em ambos os tanques.

Além disso, para garantir que os L. dimidiatus que passaram no teste de marca realmente estejam se reconhecendo, eles colocaram peixes treinados por espelho em tanques adjacentes que foram separados por vidro transparente. 

Depois de dois a três dias, quando os peixes reduziram em grande parte seu comportamento agressivo uns com os outros, eles foram marcados da maneira padrão na noite seguinte. Nenhum dos peixes raspou a garganta durante os 120 minutos de exposição uns aos outros.

“Esse resultado sugere que um estímulo visual e ecologicamente relevante em outro peixe não é suficiente para induzir a raspagem da garganta em indivíduos marcados”, diz o cientista. “Ainda temos muito trabalho a ser feito, especialmente quantitativamente, para mostrar que os peixes, assim como outros animais, têm capacidade para a MSR; no entanto, como resultado deste estudo, reiteramos a conclusão de nosso estudo anterior de que a autoconsciência em animais ou a validade do teste espelho precisam ser revistas”.

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