Geleiras nos Alpes estão derretendo mais rápido do que nunca, alerta cientista

Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli 19/10/2022 22:52, atualizada em 20/10/2022 14:00
Gorner Glacier
A.Pushkin/Shutterstock

Depois de um dos piores verões nas geleiras, a neve começou a cair nos Alpes Suíços, algo que se fazia necessário.

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Neil Entwistle, professor de Ciência Fluvial e Resiliência Climática da Universidade de Salford, frequenta a região para estudos há 19 anos e, segundo ele, nunca viu um verão como o de 2022, no qual a mudança nas características das geleiras “é impressionante”.

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Entwistle e outros glaciologistas chamam de “extrema” a perda anual de gelo, cerca de 2% do volume total das geleiras. Em 2022, as geleiras suíças perderam uma média de 6,2% de seu gelo.

As novas rajadas de neve formarão camadas para proteger e refletir 90% da radiação do Sol de volta à atmosfera e limitar o aquecimento e o derretimento do gelo.

Quando a neve cai durante o inverno e, posteriormente, não derrete durante o verão, ela aumenta a massa de uma geleira. Ao longo de alguns anos semelhantes, a gravidade assumiria o controle e as geleiras começariam a avançar ladeira abaixo.

Contudo, no último século, não foi bem o que aconteceu. As camadas protetoras de gelo não eram espessas o bastante para conter as fortes temperaturas do verão e, em média, as geleiras ao redor do mundo estão definhando desde o final da pequena era do gelo em meados do final do século XIX.

Areia do deserto do Saara e forte onda de calor

Voltando ao verão de 2022, através dos Alpes, o inverno anterior teve pouca queda de neve e, portanto, as geleiras não estavam bem isoladas contra a próxima estação de derretimento do verão.

A primavera foi particularmente dura, pois os padrões climáticos atmosféricos naturais levaram a poeira do Saara para a Europa e cobriram a paisagem alpina.

Como a poeira absorve mais energia solar do que a neve (que é branca e, portanto, mais reflexiva), a neve agora tingida de laranja derreteu mais rápido do que nunca.

Então, a grande onda de calor fez recordes de temperatura serem quebrados em toda a Europa, com partes do Reino Unido atingindo 40 °C pela primeira vez. E os Alpes não foram poupados.

Por exemplo, Zermatt, famosa vila suíça sem carros, registrou temperaturas de até 33 °C, apesar de estar 1.620 metros acima do nível do mar. As geleiras, em particular, foram bastante afetadas.

Em julho, os Alpes pareciam como em setembro: Sem neve, com rios alimentados por gelo fluindo em seu pico, algo anormal.

A última vez que as geleiras tiveram estação extrema de derretimento foi em 2003, quando, novamente, as temperaturas estavam muito altas em toda a Europa e uma onda de calor matou pelo menos 30 mil pessoas (mais de 14 mil somente na França). Naquele ano, 3,8% do gelo das geleiras derreteu em toda a Suíça.

Neste ano, pela primeira vez, Zermatt fechou seu esqui de verão. Os guias pararam de liderar expedições de alta montanha, pois o permafrost – o solo congelado que une as rochas – estava derretendo e causando quedas de rochas quase constantes. O Monte Branco estava fechado.

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50 anos de dados coletados

Podemos colocar isso em contexto histórico graças em parte ao trabalho da organização de caridade Alpine Glacier Project, criada em 1972 e, junto com a Universidade de Salford, onde Entwistle trabalha, liderou expedições científicas a geleiras perto de Zermatt a cada verão por 50 anos.

Dezenas de estudantes ajudaram a observar o efeito do aquecimento do clima por meio do monitoramento químico das mudanças na água de degelo, levantamento topográfico da paisagem e tirando fotos da mesma posição ao longo dos anos.

Nas cinco décadas do projeto, as geleiras Gorner e Findel recuaram 1.385 metros e 1.655 metros, respectivamente.

Na Suíça, essas águas de degelo glaciais são usadas para energia hidrelétrica. De fato, a água que cai em 93% da Suíça acaba passando por pelo menos uma usina elétrica antes mesmo de deixar o país.

Assim, uma consequência é que o derretimento das geleiras ajuda a compensar a baixa pluviosidade em épocas de seca, enchendo reservatórios para prover o abastecimento de energia das nações.

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Contudo, é parcialmente verdade que nem todas as geleiras foram igualmente afetadas pelo recuo catastrófico deste verão e pela perda de gelo.

A extensão em que uma geleira derrete depende da altitude em que está localizada, quão íngreme é a língua da geleira e quão pesadamente ela está coberta de detritos. Também pode haver fatores climáticos localizados.

No entanto, pesquisas recém-publicadas mostraram que as geleiras austríacas também perderam mais gelo glacial em 2022 do que em 70 anos de observações e, portanto, é bastante claro que o derretimento severo foi a norma em 2022.

“Visitar e ver a geografia de ambientes de alta montanha é experiência de tirar o fôlego, mas meu medo é que o contínuo derretimento do gelo e as temperaturas extremas vistas este ano não sejam uma anomalia. Muito mais geleiras podem ser perdidas inteiramente dentro de uma geração”, alertou Entwistle.

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Com informações de Science Alert e The Conversation

Imagem destacada: A.Pushkin/Shutterstock

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Rodrigo Mozelli
Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

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