O Brasil chegou à marca de 165 milhões de pessoas conectadas à internet, segundo o relatório Digital 2022, com maior oferta de serviços digitais por empresas e governo. Por sua vez, a pandemia acelerou quatro vezes o processo de transformação digital na iniciativa privada e o País ficou em segundo lugar em maturidade digital do governo no ranking do Banco Mundial.

Contudo, estudo inédito da FGV, em parceria com a Unico, aponta que esse avanço foi acompanhado pela ineficiência: em 2021, o Brasil desperdiçou, pelo menos, R$ 104 bilhões devido à falta de processos digitais de identificação nos serviços online.

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O Custo Brasil da Identificação, estudo encomendado à FGV pela Unico, empresa líder em identidade digital, revela que, no ápice do crescimento digital em 2021, o custo de provar que “você é você” variou de R$ 104,4 bilhões a R$ 174,2 bilhões, representando de 1,20 a 2% do PIB da época.

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O País perde três vezes mais com a ineficiência dos processos de identificação do que o valor que se espera economizar com reformas importantes.

Renan Pieri, professor do Departamento de Planejamento e Análise Econômica da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV/EAESP)

Essa ineficiência tem peso importante no bolso: cada brasileiro gastou, em média, de R$ 497 a R$ 830 no ano para se identificar, em serviços rotineiros, como liberar uso de cartão no banco ou entregar documentos para ser admitido em um emprego.

Comparativamente, seria como se cerca de 70% do salário-mínimo fosse, anualmente, destinado para custear tais ações. Na conta, entram gastos, tais como tarifas e taxas, além de custos indiretos, como deslocamento e espera pelo atendimento no local em que o cidadão precisa comprovar sua identidade.

Os resultados sugerem que o Brasil não aproveita bem as oportunidades da evolução tecnológica – incluindo a IA e o 5G.

A vida se tornou mais digital, mas provar que ‘eu sou eu’ ainda continua seguindo a lógica tradicional, com muitos processos físicos e desperdício de tempo e dinheiro. Empresas e governo têm investido para engajar as pessoas no mundo online, mas ainda há longo caminho para inovar no quesito autenticação de identidade, garantindo segurança e privacidade.

Renan Pieri, professor do Departamento de Planejamento e Análise Econômica da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV/EAESP)

Mecânica do estudo

O objetivo do levantamento era mapear situações mais relevantes nas quais provar que somos nós mesmos (e não um estelionatário) pode representar entrave ou custo e contribuir com o debate de como tornar empresas e governos mais eficientes.

Foram analisados pelos pesquisadores da FGV série de dados e processos, inclusive os que envolvem a relação entre empresa e consumidor, empresa e empresa, e consumidor com consumidor. Nessas relações, o custo da identificação pode ter chegado a R$ 51,9 bilhões somente em 2021.

No grupo trabalhadores/empregadores, o valor alcança R$ 22,9 bilhões, sendo 33% maior que o custo estimado para as relações entre cidadãos e governo (R$ 17,2 bilhões). A pesquisa também destaca que os entraves de identificação tradicional geram fraudes que acarretam custos de R$ 37,3 bilhões a R$ 72,2 bilhões.

Como é realizado o cálculo

Os cálculos foram baseados nos custos com situações do dia a dia, tais como:

  • Processos de contratação de Recursos Humanos: custo aproximado de R$ 14,6 bilhões (aproximadamente R$ 150 por brasileiro na população economicamente ativa);
  • Assinaturas/registros de contratos e escrituras: custo aproximado de R$ 5,9 bilhões (quase R$ 37 por brasileiro adulto);
  • Deslocamento para emissão de documentos e exercício da cidadania (votar, realizar prova de vida, etc.): custo aproximado de R$ 4,2 bilhões (R$ 26,40 por brasileiro adulto);
  • Deslocamento ao cartório para assinatura de documentos: custo aproximado de R$ 2,9 bilhões (quase R$ 18,30 por brasileiro adulto).

Conseguimos identificar grande potencial de aumento na eficiência econômica que pode ser gerado pela implementação de processos baseados em identidade digital.

Renan Pieri, professor do Departamento de Planejamento e Análise Econômica da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV/EAESP)

Pieri destacou ainda que tais ganhos podem ser ainda maiores para o País com adoção de mecanismos de identidade digital avançada, que possibilitam armazenamento de informações adicionais atreladas a identidades individuais, como dados fiscais, por exemplo.

Estudo semelhante

No ano passado, em parceria com o Instituto Locomotiva, a Unico também fez pesquisa similar, ao analisar 43 situações corriqueiras, como cadastro em lojas, registro em um emprego, em instituições de ensino ou para realizar consultas e procedimentos médicos, bem como de burocracias existentes em serviços públicos e privados.

Os resultados mostraram que 77% dos brasileiros percebiam desperdício de tempo e dinheiro na comprovação de sua própria identidade. No ranking por setores, a iniciativa privada representava 64% dos dez serviços listados.

Na pesquisa atual, a FGV estimou o CBI (Custo Brasil da Identificação), que representa o quanto o País gasta no processo de identificação tradicional (por meios físicos), em relação ao PIB (Produto Interno Bruto). A instituição realizou análises de custos diretos e indiretos acerca da identificação tradicional, partindo de cerca de 15 bases de dados públicas e privadas.

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