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As maiores empresas de tecnologia do mundo, chamadas de big techs, regem não apenas o universo tecnológico em que estão inseridas, mas também a economia global como um todo. O grupo das principais companhias de tecnologia enfrentou desafios em 2023, viu melhoras, mas ainda não encontraram o crescimento constante sempre buscado.

Esta reportagem faz parte de uma nova série de retrospectivas do Olhar Digital. Veja todas elas clicando aqui!

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Para iniciar o tópico, pedimos a nossos entrevistados — Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, e Lucas Gilbert, sócio da allu e especialista em tecnologia —, para desenharem a importância das big techs no cenário global.

As big techs hoje têm uma importância que supera até de vários Estados, porque, afinal de contas, elas não têm barreiras, elas tocam bilhões de pessoas. Então elas são responsáveis por, em alguma medida, maior ou menor, interferir na forma como nós trabalhamos, nos relacionamos.

Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação

Todas as tendências de tecnologia, para onde o mercado vai, onde o mercado consumidor vai crescer, quais são os próximos objetos de desejo do mercado. São essas big techs que ditam o ritmo disso, e também ditam o ritmo das novas inovações que vão surgindo no mercado.

Lucas Gilbert, sócio da allu e especialista em tecnologia

Hoje, as principais empresas de tecnologia são consideradas as seguintes: Amazon, Apple, Google, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla. As duas últimas são as mais “novas” no grupo das maiores companhia tecnológicas do mundo.

2023 começou como 2022 terminou

big techs
O ano de 2023 ainda foi de ondas de demissões nas big techs. Imagem: Andrii Yalanskyi / Shutterstock.com

Apesar de 2023 ter sido um ano totalmente diferente para as big techs comparado com o ano anterior, não foi bem assim que as coisas começaram. Assim como no final de 2022, o ano começou com ondas de demissões e muita incerteza quanto ao caminho a ser seguido por estas empresas.

“Foi um ano de desafios”, apontou Igreja. “[As big techs] tiveram que fazer muito corte, muito foco em eficiência e produtividade, já no final de 2022. O mundo inteiro passando por uma onda de inflação, capital caro, as empresas não estavam indo bem na bolsa no final do ano passado. Elas tiveram que tomar muitas atitudes duras, foi o período dos grandes layoffs, ou seja, muita gente sendo demitida.”

Lucas Gilbert desenhou o cenário atual, apontando para a alta nos juros como um grande empecilho para o crescimento constante das big techs. “É uma continuidade que vem desde o fim da Covid-19, uma baixa na pandemia que começou um ciclo de alta de juros para se recuperar disso. Depois emendou uma guerra na Rússia, agora uma guerra no Oriente Médio, e tudo isso vai impactando bastante o cenário macroeconômico”, afirmou ele. “E, como as empresas lideram o cenário econômico mundial, em todas as esferas, elas sentem bastante quando esse cenário muda”.

A guerra da IA

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Imagem: Deemerwha studio / Shutterstock.com

“O que vem acontecendo é que nós estamos num momento de transição tecnológica mesmo”, explicou Lucas Gilbert. “A gente teve várias transições, desde a época dos sites estáticos, para a época das redes sociais, para a web 3.0. Teve a onda do NFT, a onda das criptomoedas, depois veio o metaverso. Agora tem inteligência oficial.”

Lançado no final de 2022, o ChatGPT já começava a chamar a atenção no começo deste ano. Apesar disso, foi em meados de março, com a chegada do GPT-4, que a inteligência artificial virou tópico principal, não apenas nas redes sociais e em postagens em portais de tecnologia, mas nas próprias big techs.

“Mudou, muitas vezes, o roadmap de produto mesmo”, afirmou Gilbert sobre o boom da IA nas big techs. “Mudou exatamente a ordem de lançamento de produto, o que os times de [Pesquisa e Desenvolvimento], de Engenharia, de Produtos, deveriam estar focados. Porque, realmente, o ChatGPT foi um estouro que as pessoas provavelmente não estavam prevendo.”

A Microsoft saiu na frente, dado seu financiamento da criadora do ChatGPT, a OpenAI. A partir daí, uma corrida da IA começou, com consumidores e investidores atentos sobre os próximos passos das gigantes da tecnologia. Quem ficaria para trás? Alguém conseguiria alcançar os avanços da OpenAI?

“Foi interessante notar que, pela primeira vez, big techs como o Google se sentiram ou foram ameaçadas, ou passaram por um momento em que o mercado se perguntava o que o Google está fazendo. E aí o Google teve que dar respostas”, analisou Igreja. “Com essa chegada da inteligência artificial, meio que todo mundo teve que dar uma resposta. Então, foi um ano bastante agitado.”

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Imagem; rafapress / Shutterstock.com

As big techs têm muita coisa de inteligência artificial. Mas a inteligência artificial em que o público final interage diretamente com ela é algo que, quando o ChatGPT explodiu, eu imagino que foi todo mundo pego de certa forma de surpresa. Tanto que já sai o pessoal tentando comprar a empresa, tentando comprar um tanto de outras empresas de inteligência artificial. O Google lança o Bard, Microsoft com o Copilot, as outras empresas buscando formas de trazer isso para o seu próprio mercado, tudo isso acontece.

Lucas Gilbert, sócio da allu e especialista em tecnologia

Apesar de o boom da IA ter ajudado, não foi a única causa de um cenário um pouco mais otimista das big techs em 2023. “É o somatório de IA e decisões estratégicas,” explicou Arthur Igreja. “O que deu para ver é que as empresas focaram na sua essência. Em épocas de capital barato e abundante, é nessa época que as empresas tentam colocar de pé algumas apostas maiores, ou seja, tem dinheiro para fazer isso. E aí, quando aumenta a taxa de juros, quando vem a cobrança pelos resultados, as empresas se voltam para o essencial, para aquilo que está dando efetivamente resultado”.

Igreja apontou mudanças estratégicas e o fato de as empresas terem ficado mais enxutas com o alto número de demissões em 2022 e começo de 2023 como as causas para melhorias, ao lado do boom da IA.

Talvez o primeiro grande movimento tenha sido feito pela Meta, em que o Mark Zuckerberg anuncia que seria o ano da eficiência operacional. E foi exatamente isso que aconteceu, nós vimos o que aconteceu depois com o Elon Musk assumir o Twitter, que depois se torna X, reduzindo drasticamente o headcount, o número de pessoas que trabalham na companhia, e esse movimento foi seguido pelas outras (empresas). Então teve muito a ver com um redirecionamento estratégico, e muitas mudanças operacionais.

Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação

Desafios regulatórios

Imagem: Beautrium / Shutterstock.com

Como já é rotina para as big techs, 2023 também foi um ano em que os problemas regulatórios rondaram estas empresas. Isso se tornou ainda mais enfático com o boom da IA, que trouxe novas preocupações para os reguladores globais.

Algumas empresas começaram a subir suas bases de dados para usar os grandes modelos de linguagem da inteligência artificial, e acabaram se dando conta que em algumas plataformas não havia privacidade. Os dados não eram necessariamente anonimizados. Então chegamos a ver alguns extremos, como é o caso da Itália, querendo bloquear ferramentas como o ChatGPT. Vimos isso acontecer dentro de várias corporações, justamente pela preocupação com a privacidade.

Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação

“Essa parte regulatória é um problema já de velha data das big techs. Como elas ditam tendência de mercado, elas acabam fazendo alguns movimentos que desagradam o regulador. E como eles são globais, eles têm vários reguladores diferentes ao redor do mundo”, explicou Gilbert. “Um exemplo clássico que aconteceu ultimamente, estou até com o iPhone 15 Pro aqui na minha mão. O que mudou foi esse carregador aqui embaixo. Antes, a Apple tinha a entrada de carregamento própria, e eles tiveram que mudar para o USB-C. Por quê? Porque na Europa obrigaram que os smartphones da Apple deveriam ter o USB-C.”

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Imagem: charnsitr / Shutterstock.com

Igreja comentou como este ano as big techs participaram muito do debate regulativo na Europa e também nos EUA. “A grande mudança que nós vemos em relação à era do software, dos aplicativos puros, enfim, e da era das redes sociais, é que as big techs estão tentando participar cada vez mais cedo desse processo”.

O especialista explicou que, enquanto no passado essas empresas buscavam se esquivar de tais questões, atuando posteriormente com lobby, hoje elas entendem que, ao participar cedo do debate, evitam que leis e regulamentações sejam criadas sem conhecimento dos negócios. “Me parece que é uma mudança de estratégia para ter ainda mais controle, ou seja, para não ter surpresas ao longo do caminho”, avalia Igreja.

Queda no Q3

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Imagem: Natee K Jindakum / Shutterstock.com

Apesar do boom da IA ter alavancado os ganhos das big techs no meio do ano, com alguns resultados acima do esperado, a metade final de 2023 parece menos promissora. 

Em relação aos anúncios de resultados financeiros do Q3, o terceiro trimestre do ano, Lucas Gilbert explicou o que aconteceu. “A grande maioria delas perdeu por mais de 300 bilhões de dólares de mercado que foi, simplesmente, evaporado por conta de resultados ruins”, afirmou ele. “Isso impulsionado muito por Meta e Google, por conta dos resultados com publicidade, que vem piorando algo que era sempre perene e crescente.”

As expectativas de crescimento não estão batendo e existe uma dúvida sobre esse modelo de publicidade que financia Meta e Google, como vão ser os próximos passos. Principalmente com o advento do ChatGPT, que muitas pessoas começam a utilizar isso como forma de pesquisa social, clicando cada vez menos nos anúncios.

Lucas Gilbert, sócio da allu e especialista em tecnologia

Perspectivas futuras

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Imagem: Koshiro K / Shutterstock.com

Embora todas as sete empresas tenham visto queda em suas valorações nos últimos três meses do ano, a amplitude entre elas permanece.

As expectativas de crescimento dos ganhos variam entre as empresas para o trimestre final do ano, cujos resultados ainda estão não foram divulgados. Amazon e NVIDIA, conhecidas por altas valorações, projetam um forte crescimento, enquanto Apple e Microsoft adotam perspectivas mais cautelosas. A incerteza econômica e geopolítica leva a uma visão prudente, apesar do grupo em geral ter superado as expectativas.

A inteligência artificial continua a desempenhar um papel crucial. Ao contrário de tendências anteriores, a IA apresenta soluções práticas e tangíveis, oferecendo oportunidades de investimento a longo prazo, mesmo em meio a flutuações de curto prazo.

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