Há dois anos, a bacia dos rios Paraná-Prata, na América do Sul, passa por uma grave seca. Grandes trechos do Paraná, o segundo mais longo do continente após o Amazonas, são cada vez mais tomados por cenários de desolação: paisagens arenosas, marcadas por pequenas lagoas e ilhas recém-nascidas.

Cientistas apontam para um declínio hídrico nunca visto antes no rio de quase 5 mil quilômetros, que transcorre desde as serras no Sudeste do Brasil até as cercanias de Buenos Aires, capital da Argentina. De acordo com o presidente do Conselho Hídrico Federal da Argentina, Gustavo D’Alessandro, trata-se de “a vazante mais importante já registrada”.

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“A de 1944 foi a mais marcante, porque chegou a -0,80 metro no porto de Barranqueras, no Chaco [na Argentina], mas, se a situação continuar assim, em outubro poderemos superá-la e chegar a -1,35 metro”, explicou.

Para se ter uma ideia, em tempos normais, a vazão média do Paraná é de 16 mil metros cúbicos. Já nos dias de hoje, porém, raramente ultrapassa os 7 mil.

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Embora a primeira metade do século 20 tenha sido, de fato, uma época de poucas chuvas, o contexto atual se desenha de outra forma. Isso porque as condições climáticas ficaram tão radicais — por motivos variados, como discutiremos abaixo — que há a probabilidade de a situação ficar ainda pior no futuro. Não apenas pela redução dos níveis da bacia dos rios Paraná e Prata, como problemas decorrentes — a baixa umidade do solo, por exemplo, aumenta o risco de incêndios.

“A variabilidade climática está muito potencializada em relação a décadas passadas e podemos esperar mudanças cada vez mais bruscas”, explica o engenheiro civil e subgerente da área de Sistemas de Informação e Alerta Hidrológico do Instituto Nacional da Água (INA), Juan Burós. “Temos que nos acostumar e estar preparados para enfrentar os dois extremos [secas e inundações], porque vão nos ameaçar de forma permanente.”

A doutora em ciências da atmosfera pela Universidade de Buenos Aires, Inés Camilloni, é mais taxativa. “Se os fluxos mínimos tenderão a ser menores e os máximos, maiores, a estimativa indica que a intensidade das vazantes poderá aumentar de 10% a 15%, enquanto a das cheias aumentará só 5%”, explica Camilloni, especialista em construir prognósticos climáticos.

Agora, o que aconteceu para o panorama se tornar tão sombrio, é motivo de discussão entre a comunidade científica. 

Incêndios na Amazônia e La Niña podem ter intensificado vazante

Segundo Cecilia Reeves, bióloga da Taller Ecologista, organização socioambiental com sede em Rosario, a maior cidade próxima ao Paraná, questões de diversas magnitudes justificam a maior vazante hídrica em oito décadas. De acordo com a bióloga, primeiramente, há menos chuvas em toda a bacia por conta de um fenômeno chamado La Niña.

Este fenômeno que ocorre no Oceano Pacífico diminui a umidade do ar e, com efeito, a quantidade de chuvas no continente. Uma outra hipótese é o avanço do desmatamento na Amazônia, embora ainda não seja possível traçar diretamente um nexo de causalidade entre os dois eventos.

“A verdade é que o grau crescente de desflorestamento e os incêndios na Amazônia fazem que a selva transpire menos, e assim não se formam os chamados ‘rios voadores’ que geram as chuvas. Mas também não podemos traçar uma linha direta de causa e efeito em relação à vazante”, esclarece.

Burós, porém, possui um outro diagnóstico. Segundo ele, quando o fenômeno La Niña entrou em ação, a seca já tinha tomado a região. “Em nossa região, esses fenômenos castigam mais quando são intensos”, diz Burós. “Agora são brandos ou mornos, e as perspectivas futuras indicam neutralidade ou uma Niña suave. Acredito que as causas locais têm mais importância que as globais.”

A ação humana também constitui uma forte hipótese para a seca. O Paraná é uma das principais vias navegáveis no continente — um ponto-chave para a indústria pesqueira de Brasil e Argentina. No entanto, para viabilizar tais atividades, foram realizadas várias obras de aterramento que podem ter modificado o bioma da região.

“Para construir a Ponte Rosario-Victoria foi preciso criar aterros e modificar o curso do rio, um tipo de ação que altera a tipologia do sistema e o torna mais vulnerável diante de novas atividades. As planícies aluviais ficam mais expostas e toda a sua estrutura biótica sofre as consequências”, explica Reeves.

Seca pode afetar produção energética

Embora a central elétrica de Itaipu, na fronteira entre o Brasil e o Paraguai, diga que não há perigo de desabastecimento energético nos próximos meses, nenhum especialista põe a mão no fogo por um cenário otimista.

“As represas da bacia alta estão funcionando a 35% de sua capacidade. Se não chover, poderemos ter inconvenientes com o abastecimento de eletricidade”, explica D’Alessandro.

O efeito dominó desemboca na economia argentina. De acordo com a Bolsa de Comércio de Rosario, mais de US$ 315 milhões foram perdidos em razão da seca. Isso se deve principalmente ao fato de 85% das exportações do país saírem dos portos do Paraná inferior. Por este curso, também passam 73% das exportações do Paraguai e 20% da Bolívia.

Pescadores que dependem do rio para garantir a subsistência de suas famílias também são vítimas da vazante, principalmente ao norte da bacia. “O porto de Barranqueras está sem operar porque as barcaças não conseguem entrar”, diz D’Alessandro.

Crédito para imagem principal: Mídia Ninja/CC BY 4.0

Fontes: UOL e Mongabay

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