Os cinco veículos à venda no Brasil que foram avaliados nos últimos 12 meses pelo Latin NCAP, instituto independente de segurança viária, receberam nota zero. O último dles, sendo o Renault Duster: antes vieram o Ford Ka e o Hyundai HB20 — este último o 2º carro mais vendido do país no primeiro semestre e (justiça se faça) mais seguro na nova geração.

O Latin NCAP avalia os modelos com base em quatro parâmetros: proteção de ocupante adulto, proteção de ocupante infantil, proteção de pedestres e tecnologias de assistência de direção. A análise é rigorosa: um ponto ruim em uma esfera e o resultado final provavelmente será zero.

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“Baixo desempenho em apenas um aspecto significa um resultado final baixo, mesmo que os outros três ofereçam bom desempenho”, alerta o órgão.

Foi o caso do teste para o Renault Duster, o mais recente divulgado pelo Latin NCAP (veja no vídeo abaixo) — houve também para o Swift, mas a Suzuki não vai mais oferecer o compacto no Brasil. Com dois airbags, o modelo crossover forneceu uma baixa proteção nas quatro categorias.

No impacto frontal, até que a proteção oferecida à cabeça e ao pescoço do motorista e do passageiro foi boa. No entanto, os dummies infantis no banco de trás bateram com a cabeça na cabine durante o rebote da colisão, prejudicando a pontuação. Para piorar, durante a batida, o Duster vazou combustível, o que fez a NCAP recomendar um recall dos modelos.

“Duster não é ilegal, mas apresenta baixa segurança”, diz a Latin NCAP

Dias após o teste, divulgado no fim de agosto, a Renault se posicionou sobre os problemas observados e atribuiu o péssimo resultado às mudanças de protocolo no Latin NCAP. Isso porque o mesmo carro, com configuração idêntica, já foi avaliado de forma razoável — entre 3 e 4 estrelas — em testes anteriores do instituto.

“Em 2020 o Latin NCAP mudou os protocolos de testes e, por conta disso, os resultados são diferentes”, disse uma nota oficial da Renault do Brasil. “É importante reforçar que o Renault Duster cumpre rigorosamente as regulamentações nos países em que é comercializado, superando-as em alguns quesitos. O modelo traz diversos equipamentos de segurança como ESC [controle de estabilidade], alerta de ponto cego, câmera Multiview, assistente de partida em rampa, entre outros, que não são obrigatórios por lei”, acrescentou.

Já na segunda-feira (13), o Latin NCAP se posicionou a respeito do teste, esclarecendo que nunca fez menção ao fato de o carro não atender às normas exigidas pelo governo do Brasil, nem ilegal. Segundo o órgão, a única menção foi a baixa segurança do veículo, principalmente em relação à proteção oferecida no mercado europeu.

“Do nosso ponto de vista, a Renault deixa implícito que a segurança exigida pelo governo não está ao nível do que é exigido na Europa”, explicou. “O ESC mostrou algumas oscilações preocupantes no vídeo do teste realizado pelo Latin NCAP. O alerta de ponto cego é opcional, não padrão. A Renault não oferece airbags de cortina e airbags laterais nem como opção; sendo, ao contrário, padrão na Europa, mesmo que não fossem obrigatórios.”

O Latin NCAP também acrescenta que, em relação a outros concorrentes SUV ou compactos premium, o Duster “deixa muitas decepções”, principalmente quando a inclusão ou não de equipamentos de segurança se trata de uma decisão comercial. Em outras palavras, a Renault condiciona elementos de segurança no carro ao preço — vale observar que o instituto sempre avalia os modelos de entrada nos testes.

Teste de impacto do Renault Duster pela NCAP
Teste de impacto do Renault Duster (NCAP/Divulgação)

E quais foram os reforços ao protocolo?

A cada quatro anos, o Latin NCAP torna seus testes mais duros e rígidos — as avaliações acontecem desde 2010. No ano passado, o órgão acrescentou um conjunto de itens de série como fundamentais para uma boa pontuação.

Entre eles, controle eletrônico de estabilidade, lembretes do uso de cintos de segurança dianteiros e traseiros, proteção de pedestres e melhor proteção contra impactos laterais — justamente onde o Duster foi mal. Além disso, o novo protocolo unificou a classificação por estrelas para adultos e crianças.

Embora a Renault diga que os protocolos de testes mudaram e, por isso, o Duster foi mal avaliado, o Latin NCAP explica que as montadoras sabem da mudança desde 2016.

As porcentagens mínimas para obter uma boa nota na primeira etapa de aplicação são as seguintes: 75% na proteção de ocupantes adultos; 80% em proteção de ocupantes infantis; 50% em proteção de pedestres; e 75% em tecnologias de assistência de segurança. O Renault Duster recebeu 29% na primeira, 23% na segunda, 51% na terceira e 35% na quarta e daí a nota zero no veredicto da Latin NCAP.

Nova linha do Hyundai HB20 já vem com melhorias na segurança

Um dos modelos mais vendidos no Brasil, o Hyundai HB20 também levou uma nota zero no teste Latin NCAP em dezembro do ano passado. À época, o modelo hatchback, com seus dois airbags de série, pontuou 19% na proteção para ocupantes adultos, 10% para ocupantes infantis, 43% na proteção para pedestres e 14% na assistência à segurança.

O Latin NCAP ainda considerou que o carro apresentava uma proteção de impacto frontal média e proteção lateral ruim para o tórax do motorista. Já no teste de chicote cervical (whiplash), o HB20 também não foi bem, além de não apresentar controle de estabilidade.

Alguns desses detalhes foram corrigidos, no entanto, na atual linha 2022 do HB20. Agora, o modelo de entrada do carro popular (o HB20 1.0 Sense, em torno de R$ 56.990) vem com mais dois airbags — incluindo um lateral, um dos itens mais mal avaliados no teste — e controle eletrônico de tração e estabilidade.

O Ford Ka, por sua vez, foi reprovado quase nas mesmas bases: desempenho ruim no chicote cervical e proteção frontal e lateral, respectivamente, média e fraca. A única diferença é que, de acordo com o Latin NCAP, a versão mais completa do hatch teve um desempenho bem melhor na proteção dos passageiros.

“A classificação por estrelas será atualizada assim que a Ford incorporar esses recursos de segurança essenciais como padrão para toda a região da América Latina e do Caribe”, disse à época o órgão.

Vale lembrar, no entanto, que, em janeiro, a fabricante americana anunciou o fechamento de suas três fábricas no Brasil e, consequentemente, o fim de modelos como o Ka e o EcoSport. Portanto, os testes para as versões posteriormente atualizadas do modelo não deverão ter vigência nacional.

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