Outubro é tempo de se preparar para o halloween com uma maratona de filmes de terror. E pelo segundo ano, o Prime Video será a casa da coletânea ‘Welcome To The Blumhouse’, um double feature da produtora mais badalada do momento, apresentando novos de thrillers de cineastas que estão começando – mas já prometem muito. Nesta sexta-feira (1º), dois entraram no catálogo: ‘Black as Night’, que o intrépido Arthur Henrique comentou aqui, e ‘Bingo Hell’, o objeto dessa nossa análise.

Para podermos dar conta dos lançamentos, eu e Arthur dividimos os filmes e pude escolher primeiro. Assim que li a sinopse de ‘Bingo Hell’, fiquei imediatamente interessado: “uma cidadã idosa corajosa luta para proteger seu amado bairro de uma força maligna que tomou conta do salão de bingo local e está matando os residentes de maneiras horríveis”.

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Para um filme de horror de baixo orçamento, como é a proposta do ‘Welcome To The Blumhouse’, essa é uma premissa perfeita. Temos aqui uma heroína improvável, uma comunidade em perigo e uma presença maligna aterradora. E sendo uma produção da Blumhouse, podemos esperar ainda liberdade criativa para os cineastas e o desejo legítimo de fazer algo diferente, usando técnicas narrativas que já são bem familiares aos fãs do gênero.

‘Bingo Hell’ é o filme de estreia da diretora canadense-mexicana Gigi Saul Guerrero. Já reconhecida como uma promessa desde a websérie ‘La Quinceañera’ (do qual foi criadora e diretora), a cineasta conduziu até agora episódios das séries ‘The Purge’, também da Amazon, e ‘Into the Dark’, do Hulu. Em ‘Bingo Hell’, ela mistura comédia e horror, crítica social e sobrenatural.

Na trama, Lupita (Adriana Barraza) é uma senhora já na casa dos sessenta que lidera a comunidade de Oak Springs, no sul da Califórnia. Ao lado da sua melhor amiga Dolores (L. Scott Caldwell) ela já é uma espécie de heroína local, uma vez que anos antes “limpou” o bairro de más influências e tornou um lugar mais agradável para todos os moradores. Mas o desafio agora é outro: várias casas estão sendo vendidas e hispters estão tomando conta das ruas, com seus coques samurais e cafés aguados.

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Uma das maneiras de ajudar a comunidade – e tentar aplacar a tentação de alguns moradores – é a realização de um bingo no centro comunitário do bairro. Lupita e Dolores conduzem o evento, com a presença de alguns poucos moradores como a cabelereira Yolanda (Bertila Damas), o mecânico Clarence (Grover Coulson) e Morris (Clayton Landey). Porém, um dos regulares, Mario (David Jensen) não só não apareceu no bingo como está sumido há dias.

A ameaça que paira sobre Oak Springs é então materializada em Mr. Big (Richard Brake), um sujeito misterioso que ocupou o centro comunitário com um novo bingo, oferecendo prêmios muito mais vultuosos. Quem participa do novo empreendimento, porém, entra numa espécie de torpor e fica refém do lugar. Pior: os vencedores começam a aparecer mortos em circunstâncias terríveis e misteriosas.

Um ponto importante é que do elenco de ‘Bingo Hell’, só o Mr. Big, Morris e Raquel (Kelly Murtagh), a nora de Dolores, são brancos. Os personagens principais do longa são latinos, negros, imigrantes, idosos, ex-viciados em drogas e todo tipo de pessoas que a sociedade costuma colocar em segundo ou terceiro plano. Todos estão vendo sua comunidade passar por um processo de gentrificação e são quase que forçados, por necessidade, a sair dali. E o misterioso Mr. Big se alimenta desse sentimento. “Nos alimentamos de almas desesperadas” ele diz a certo momento do filme.

Se você se arriscar a ver ‘Bingo Hell’, fica o mesmo alerta que vale para ‘Black as Night’ e todas os filmes do ‘Welcome To The Blumhouse’. Não vá esperando uma superprodução. Esses são filmes trash, de baixo orçamento, no melhor estilo daquelas sessões de longas de terror que já formaram cineastas como Sam Raimi, Peter Jackson, James Cameron e Steven Spielberg. São filmes ruins, mas sabem disso. Sua baixa qualidade é mais do que um sinal da sua limitação financeira, é uma estética.

O que falta em efeitos especiais, sobra em criatividade e entrega do elenco. Adriana Barraza e L. Scott Caldwell são uma dupla sensacional, que prende o espectador à trama para além do mistério e do horror. A luta de uma para manter o bairro, enquanto a outra tenta manter sua própria família diverge e converge ao longo da trama em cenas que provam que entretenimento não precisa custar caro. Mr. Big, que parece saído direto de um livro do Stephen King, é muito bem vivido pelo ator Richard Brake, que é um verdadeiro trabalhador de Hollywood, com mais de 80 títulos no currículo, quase sempre como vilão ou capanga – mas um herói da sétima arte.

Por compromisso profissional e lazer, acabo vendo muitos filmes e séries ao longo da semana. Alguns bons, outros nem tanto. Mas ‘Bingo Hell’, com toda sua trasheira, me deixou mais refletindo sobre ele do que muita obra multimilionária de grandes estúdios. Você pode até não gostar da história das idosas que lutam para salvar seu bairro contra a pobreza e o progresso desenfreado, mas há de reconhecer o valor dos cineastas independentes e atores que não possuem uma gorda conta bancária na luta para salvar o entretenimento.

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