O gênero horror sempre foi marginalizado no cinema. O que é uma tremenda injustiça, já que ele é um dos meios mais versáteis de se contar uma história – e também pode ser um dos mais baratos. Uma prova disso é a coletânea ‘Welcome To The Blumhouse’, disponível no Prime Video. Se na semana passada tivemos um festival trash, com ‘Black as Night’ e ‘Bingo Hell’, nesta sexta-feira (8) é a vez dos suspenses carregados ‘The Manor‘ e ‘Madres’ entrarem no catálogo.

O primeiro já foi resenhado pelo inoxidável Arthur Henrique, aqui mesmo no Olhar Digital. Então minha missão aqui é falar de ‘Madres – Mães de Ninguém’, longa-metragem de estreia de Ryan Zaragoza. A produtora Blumhouse é conhecida por três coisas: lançar thrillers de arrepiar, apostar em cineastas que estão começando (mas já prometem muito) e conseguir fazer um ótimo retorno com um baixo orçamento. E ‘Madres’ cumpre as três funções com louvor.

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 Na trama, um jovem casal mexicano-americano se muda de Los Angeles para uma pequena cidade na Califórnia dos anos 1970. Beto (Tenoch Huerta), que saiu do México apenas cinco anos antes, recebeu uma oferta de emprego como gerente de uma fazenda – o primeiro da sua família a ocupar um cargo de chefia. Já Diana (Ariana Guerra), nasceu nos EUA de pais mexicanos, e está grávida do seu primeiro filho. Por isso, acabou demitida do jornal em que trabalhava, mas espera conseguir escrever seu livro na nova cidade.

Em meio à comunidade latina da região, a mulher se vê isolada. Apesar da sua herança cultural, os pais de Diana foram repreendidos no colégio por falar espanhol, e por essa razão nem ela, nem a irmã, dominam o idioma. Além disso, os trabalhadores da fazenda que Beto gerencia estão expostos aos agrotóxicos usados na lavoura, que parecem estar afetando em especial as mulheres grávidas. E como desgraça pouca é bobagem, Diana ainda é atormentada por pesadelos relacionados à casa que o casal ocupa (fornecida pelos patrões de Beto) e seus antigos moradores. E tudo isso parece estar relacionado à uma suposta maldição local.

Tenoch Huerta e Ariana Guerra em 'Madres'. Imagem: Amazon Studios/Blumhouse Productions
Tenoch Huerta e Ariana Guerra em ‘Madres’. Imagem: Amazon Studios/Blumhouse Productions

‘Madres’ funciona muito bem porque o seu estilo de horror depende muito pouco, quase nada, de orçamento. O suspende que vai se construindo enquanto a Diana de Ariana Guerra – que é o coração do filme – liga os pontos que unem a situação dos imigrantes e a maldição é construído em cima do roteiro, da atuação, da trilha sonora, de ângulos de câmera criativos e uma boa mão na edição. Os “jumpscares” baseados nas aparições da antiga residente da casa, por exemplo, possuem zero computação gráfica. É puro cinema oldschool, fazendo uso de um reflexo aqui ou uma sombra ali.

E o mais importante: o terror em ‘Madres’ é real. Não são vampiros, mortos-vivos ou uma força demoníaca que tomou conta de um bingo. É racismo, xenofobia, o medo de perder seu bebê em uma gravidez de risco, condições precárias de trabalho para imigrantes e até questões relacionadas a direitos reprodutivos. Diana, a protagonista do filme, e sobre quem o enredo todo gira, usa seu faro jornalístico para investigar o que está acontecendo e é sempre cética em relação à tal maldição. ‘Madres’ ainda usa em sua introdução o recurso mais assustador de qualquer filme de horror, a frase “baseado em acontecimentos reais”.

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Posso afirmar com tranquilidade que ‘Madres’ é um dos filmes de terror mais legais que vi esse ano. Ele equilibra bem os elementos sobrenaturais com a investigação mais calcada na realidade, e sempre quando a trama está indo mais para a direção do fantástico, o roteiro te dá um tapa de realidade. A cena específica em que Diana entende tudo que está acontecendo na cidade usa um dos recursos de exposição mais criativos que eu já vi no cinema. E causa mais embrulho no estômago do que qualquer fantasma.  

E aqui é fácil parafrasear a citação do escritor britânico Joseph Conrad que abre o filme: “a crença em uma origem sobrenatural do mal não é necessária; o homem, por si só, é capaz de qualquer maldade”.

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