Uma americana de 47 anos, moradora do estado de Maryland, desenvolveu o caso de Covid-19 mais longo da história da pandemia: ela ficou doente por 335 dias seguidos, numa mesma infecção. Segundo especialistas, a terapia à qual ela foi submetida anteriormente para tratar um câncer pode ter sido a causa. 

De acordo com a Science Magazine, ela foi diagnosticada com linfoma há cerca de três anos, sendo tratada com imunoterapia com células Car-T (células de defesa do organismo, que são extraídas do paciente e trabalhadas em laboratório para combater seu próprio tumor). O tratamento foi bem sucedido e a paciente foi curada.

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Paciente passou por tratamento de imunoterapia para tratar um câncer, o que enfraqueceu seu sistema imunológico, dando condições para a Covid-19 permanecer por longo período em seu organismo. Imagem: Design_Cells – Shutterstock

Logo no início da pandemia, ela foi hospitalizada pela primeira vez com Covid-19, no Instituto Nacional de Saúde (NIH). Seu quadro se estendeu por 335 dias, sendo monitorado por meio de testes positivos repetidos e sintomas persistentes que exigiam oxigênio suplementar em casa. 

Embora os testes tenham dado sempre positivo, os níveis do vírus em seu corpo mal foram detectados por meses após sua infecção inicial. Então, em março deste ano, as taxas dispararam novamente. 

Os pesquisadores compararam os genomas de amostras coletadas durante a infecção original com a mais recente e descobriram que o vírus era o mesmo. Ou seja, essa paciente não foi infectada novamente, e sim continuou a abrigar o mesmo vírus por quase um ano.  Seu caso foi objeto de um estudo publicado como pré-impressão no medRxiv, que ainda não foi revisado por pares.

Falta de células B ajudou vírus a se manter no organismo

Ao que tudo indica, o coronavírus teria sido capaz de permanecer por tanto tempo no corpo da mulher por causa de seu sistema imunológico comprometido devido ao tratamento anterior do linfoma, um câncer que acomete o sistema linfático. Segundo o estudo, a imunoterapia esgotou seu corpo da maioria das células B, que são as células que produzem anticorpos.

Existem relatos esporádicos de pacientes imunocomprometidos que abrigaram o vírus por muito mais tempo do que o esperado, como um paciente com leucemia em Washington que disseminou o vírus por 70 dias – muito menos, no entanto, do que o caso da mulher de Maryland.

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Infecções crônicas de Covid-19 são raras, mas perigosas

Casos de infecção em pacientes com sistema imunológico enfraquecido “fornecem uma janela de como o vírus explora o espaço genético”, disse a autora sênior do estudo, Elodie Ghedin, virologista molecular do NIH, à Science Magazine. Ao analisar amostras desse paciente e de outras pessoas com infecções crônicas, os pesquisadores podem ver como o vírus evolui.

No coronavírus que foi coletado dessa paciente, foram encontradas duas deleções genéticas (uma mutação que apaga partes do genoma): uma em alguns dos genes que codificam para a proteína spike do vírus (o braço que o vírus usa para invadir células humanas) e a outra em uma área fora da proteína de pico – que é amplamente desconhecida devido à falta de estudos. 

Outros pesquisadores descobriram uma deleção semelhante nessa área fora da proteína spike em pacientes com infecções crônicas.

Embora sejam raras, as infecções crônicas de Covid-19 podem levar a novas variantes, pois o vírus tem mais tempo e espaço para evoluir em um corpo com um sistema imunológico enfraquecido. 

A boa notícia é que a paciente, que chegou a ser hospitalizada novamente, finalmente eliminou o vírus e teve vários testes negativos desde abril. 

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