É uma lei da física: devido à distância entre os planetas, comunicações entre a Terra e Marte são sujeitas a um atraso de pelo menos 20 minutos, o que torna uma conversa em tempo real impossível. E um novo estudo publicado no Frontiers of Physiology detalha as dificuldades que poderiam ser enfrentadas por colônias humanas no planeta vermelho, causadas por esse distanciamento.

A pesquisa encontra sua base no fato de que Marte, mesmo em seu ponto mais próximo da Terra, ainda está a pouco menos de 55 milhões de quilômetros (km) de distância, o que invariavelmente impacta a cobertura de nossas comunicações interplanetárias. Isso, sem contar os blecautes forçados, como o que ocorre quando o Sol fica entre os dois planetas – a Nasa passou por isso recentemente com seus rovers.

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Ilustração mostra Terra ao centro da imagem, sugerindo distância de comunicação entre nós e Marte
Distância ainda é um fator que pode causar problemas de comunicação entre Marte e Terra, mas um estudo sugere que – apesar de ressalvas – há benefício nesse isolamento (Imagem: Jose Luis Stephens/Shutterstock)

O paper atual tirou como base dois estudos conduzidos anteriormente – em 2017 e 2019 (ambos intitulados “SIRIUS”, sigla para “Pesquisa Internacional em Estação Terrestre Única”) – que avaliou os efeitos psicológicos do isolamento completo de uma equipe durante períodos de 17 dias ao longo de quatro meses. O estudo recente reafirma, contudo, que existiriam algumas vantagens nesse quadro:

“As equipes dos experimentos anteriores mostraram tendência de reduzir proativamente as comunicações com o controle da missão durante o isolamento, compartilhando suas necessidades cada vez menos”, disse o doutor Dmitry Shved, da Academia Russa de Ciências e o Instituto de Aviação de Moscou, que assina a autoria do estudo.

“As raras ocasiões de aumento no contato foram vistas durante eventos importantes da missão, como simulações de pouso”, ele comenta. “Além disso, viu-se uma convergência de estilos de comunicação durante uma das missões, e um aumento na coesão do time ao longo do curso dessa missão. Isso aconteceu mesmo após considerarmos a diversidade da missão, como histórico cultural ou gênero, com diferenças individuais bem acentuadas”.

Em termos numéricos: só nos primeiros 10 dias da SIRIUS-19 os pesquisadores registraram 320 interações de áudio entre o time isolado e seus observadores, com duração total de 11 horas. Já nos 10 dias finais, esse volume caiu para 34 interações, totalizando um tempo de 77 minutos.

Em vídeo, o padrão se repetiu: no 11º dia do experimento, um atraso artificial foi introduzido nas comunicações a fim de simular o que se passaria na Lua e Marte. Ao longo dos quatro meses do estudo, o número de mensagens em vídeo enviadas ao controle da missão caiu de 200 para 115 – e a duração de cada mensagem também foi reduzida.

No que tange às diferenças entre membros da equipe, algumas nuances também foram identificadas: mulheres demonstravam mais tristeza ou alegria, e homens eram mais propensos a manifestações de irritação. Entretanto, mesmo essas reações, eventualmente, se reduziram com o tempo.

A conclusão é a de que, eventualmente, os times assumiriam uma posição de tornar mais prática a interação com centros de controle, internalizando sentimentos e reações de raiva ou de alegria, e mantendo as conversas em um âmbito mais direto.

E o que isso significa em uma eventual instalação de colônia humana em Marte? Bom, as comunicações reduzidas seriam uma evidência de que o time estaria assumindo uma posição de maior autonomia própria, tornando-se menos dependente do controle, além de se tornarem mais coesos entre si conforme a convivência próxima os faria ignorar diferenças de gênero e histórico cultural, o que pode ser promissor para o futuro da exploração planetária.

“A parte mais positiva é a de que os times ficariam mais e mais autônomos e independentes da Terra”, disse Shved. “A coesão aprimorada também ajudaria na forma de lidar, sozinhos, com vários problemas durante a missão”.

O estudo, contudo, deve continuar: Shved reconhece que os problemas de reação mostrados nos estudos não necessariamente “sumiriam”. A ideia agora é empregar avaliações psicológicas para ver quais os efeitos negativos de se internalizar todas essas dificuldades, considerando a distância e isolamento planetário como fatores de risco.

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