Se você pudesse escolher um local e uma década para viver, qual escolheria? Para Eloise, ou melhor, Ellie, não há a menor dúvida: Londres nos anos 1960. E ela não só consegue vivenciar essa nostalgia por algo que não viveu, mas o faz toda noite, quando se deita para dormir, e sempre pelo ponto de Sandie, uma jovem aspirante a cantora. Esse é o ponto de partida que o diretor Edgar Wright nos apresenta para nos contar sua primeira história de terror nas telonas, ‘Noite Passada em Soho’, que estreia nesta quinta-feira (18) nos cinemas brasileiros.

Estudante de moda recém-chegada na metrópole britânica, Eloise (Thomasin McKenzie, de ‘Jojo Rabbit’) não se encaixa muito bem entre os outros estudantes da sua universidade. Ela bem que tenta, mas não consegue ser tão cool quanto Jocasta (Synnove Karlsen), sua colega de quarto. Diferente de Sandie (Anya Taylor-Joy, perfeita, nunca errou na vida), sua contraparte no passado, que é segura, confiante, ousada e alegre. Mas a Londres dos anos 1960 não é o que parece, e sua trajetória começa a tomar consequências sombrias que terão impacto também na vida de Ellie.

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Difícil saber quem curte mais as produções culturais da época: Eloise ou Wright. O diretor recriou a Swinging London não só no cenário e no vestuário (que está incrível, por sinal), mas também na arquitetura, decoração, iluminação e, especialmente, na música. O cineasta é famoso pelo uso das canções como um instrumento acessório à narrativa (fez um filme inteiro disso, ‘Em Ritmo de Fuga’) e em ‘Noite Passada em Soho’ usa a música não somente para transmitir o clima da cena, mas quase que para servir de narrador em off.

Na cena inicial, Wright já nos explica tudo sobre a protagonista: em um quarto repleto de fotos e pôsteres de artistas dos anos 1960, Ellie dança com um vestido criado por ela mesma, todo feito de jornais, ao som de ‘A World Without Love’, do duo britânico Peter and Gordon, lançada em 1964. “Por favor me tranque / E não permita o dia / Aqui dentro onde eu me escondo / Com minha solidão” dizem as vozes na vitrola, enquanto Ellie fantasia ser uma grande estilista, “fumando” seu lápis à la Audrey Hepburn.

Sandie (Anya Taylor-Joy) e Ellie (Thomasin McKenzie), separadas por um espelho em 'Noite Passada em Soho'. Imagem: Parisa Taghizadeh / Focus Features
Sandie (Anya Taylor-Joy) e Ellie (Thomasin McKenzie), separadas por um espelho em ‘Noite Passada em Soho’. Imagem: Parisa Taghizadeh / Focus Features

Uma garota do interior da Inglaterra, Ellie ganha uma bolsa para estudar em Londres e sai da casa da avó pela primeira vez na vida, ao som de ‘Don’t Throw Your Love Away’, na versão gravada pelos The Searchers, em 1964. A vida na república de estudantes não é como a garota imaginava, e para poder ficar sozinha ela aluga uma quitinete numa região próxima ao Soho, bairro boêmio do West End de Londres. Na sua primeira noite no lugar é quando Ellie conhece Sandie, saindo de um beco e dando de cara com um enorme cartaz de ‘007 contra a Chantagem Atômica’, estrelando Sean Connery, lançado em 1965. Não tem como ser mais inglês do que isso.

As homenagens de Wright à cultura pop britânica dos anos 1960 não ficam só nisso. O cineasta escalou uma constelação de estrelas da época para seu filme. Diana Rigg (‘Game of Thrones’, mas também a melhor bond girl de todos os tempos, a Condessa Teresa di Vicenzo de ‘007 – A Serviço Secreto de Sua Majestade’) em seu último papel, é a dona do apartamento que Ellie aluga, enquanto Rita Tushingham (‘Doutor Jivago’) faz a avó da jovem, Margaret Nolan (outra bond girl, a Dink de ‘007 Contra Goldfinger’) faz uma atendente de bar e Terence Stamp (o eterno General Zod de ‘Superman: O Filme’) é um homem misterioso que parece ter uma ligação com Sadie. Nem o elenco “jovem” escapa das referências, já que Matt Smith, que interpreta Jack, o homem que agencia Sadie pela noite londrina, foi o Doutor por quatro anos na série ‘Doctor Who’.

Matt Smith é Jack, agente de Sandie (Anya Taylor-Joy) em 'Noite Passada em Soho'. Imagem: Parisa Taghizadeh / Focus Features
Matt Smith é Jack, agente de Sandie (Anya Taylor-Joy) em ‘Noite Passada em Soho’. Imagem: Parisa Taghizadeh / Focus Features

‘Noite Passada em Soho’ não é só a primeira vez que Wright – mais famoso por suas comédias como ‘Todo Mundo Quase Morto’ e ‘Scott Pilgrim Contra o Mundo’ – se aventura pelo gênero horror, como também é o seu primeiro longa protagonizado por uma mulher (no caso, duas). E para o longa ele traz todas as suas assinaturas, como a já citada trilha sonora marcante e o estilo visual que lhe é peculiar, acentuado pela forma como retrata dos sonhos lúcidos de Ellie com Sandie. O cineasta controla com habilidade as pistas visuais que nos permitem diferenciar o que é presente do que é passado, e aos poucos mistura tudo isso conforme as duas linhas do tempo vão ficando indistinguíveis.

Sobre o enredo, já falei demais e o quanto menos for dito, melhor. Thomasin McKenzie é um talento em ascensão, mas que em alguns momentos exagera na tentativa de parecer inocente ou assustada. Já Anya Taylor-Joy mostra porque é uma das artistas mais ocupadas do momento (só no IMDB são seis produções com estreia marcada para os próximos dois anos) e, como sempre, é totalmente hipnotizante quando em tela e sustenta o filme mesmo em seus momentos mais baixos – especialmente quando abandona os efeitos práticos em favor da computação gráfica.

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Como uma espécie de giallo britânico moderno, ‘Noite Passada em Soho’ é um suspense no estilo de ‘Suspiria’ (1977), ‘Inverno de Sangue em Veneza’ (1973), ‘Repulsa ao Sexo’ (1965) e ‘Os Olhos de Laura Mars’ (1978). Wright é um dos diretores mais talentosos da sua geração, e neste seu filme mais recente mostrou que também é versátil a ponto de transacionar bem entre gêneros, sem perder sua identidade. ‘Noite Passada em Soho’ é um horror cuja maior violência é praticada sobre os sonhos, aspirações e desejos das personagens principais.

Thomasin McKenzie em 'Noite Passada em Soho'. Imagem: Parisa Taghizadeh / Focus Features
Em cenas como essa, Thomasin McKenzie me perdia um pouco – mas sem comprometer ‘Noite Passada em Soho’. Imagem: Parisa Taghizadeh / Focus Features

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