Nesta segunda-feira (6), o ministro das Finanças da França, Bruno Le Maire, anunciou um plano para a Europa competir de forma mais eficaz com a SpaceX: desenvolver um foguete reutilizável de forma mais rápida.

“Pela primeira vez, a Europa terá acesso a um lançador reutilizável”, disse Le Maire, de acordo com a Reuters. “Em outras palavras, teremos nosso SpaceX, teremos nosso Falcon 9. Vamos compensar uma má escolha estratégica feita há dez anos”.

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Bruno Le Maire, ministro das Finanças da França, anunciou que o país vai produzir seu próprio foguete reutilizável. Imagem: Alexandros Michailidis – Shutterstock

Segundo o ministro, o plano prevê que a ArianeGroup, com sede na França, desenvolva um novo foguete de baixo orçamento chamado Maïa até 2026 – o que está quatro anos à frente de um cronograma previamente estabelecido pela Agência Espacial Europeia (ESA) para o desenvolvimento de um foguete reutilizável maior.

Maïa está longe de ser o SpaceX Falcon 9 da Europa

Embora ainda não tenham sido divulgados muitos detalhes técnicos, o site Ars Technica ressalta que, pelo que se sabe do veículo até agora, Maïa não será o “Falcon 9” da Europa. 

Ele terá uma capacidade de elevação de até 1 tonelada métrica até a órbita baixa da Terra e será movido por um motor Prometheus de reuso, que é alimentado por metano e oxigênio líquido. Esse motor, que permanece nos estágios preliminares de desenvolvimento, tem um impulso comparável a um único motor Merlin 1D, que alimenta o foguete Falcon 9 da SpaceX – que, por sua vez, conta com nove deles, o que lhe dá mais de 15 vezes mais capacidade de elevação do que Maïa.

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Segundo o Ars, há dois temas principais por trás do anúncio de Le Maire. Um é a notável rivalidade existente entre França, Alemanha e Itália pela supremacia dos lançamentos espaciais na Europa. O outro é uma tensão entre as empresas de lançamento apoiadas por governos estaduais e as empresas comerciais privadas iniciantes. 

França, Alemanha e Itália vivem em uma luta constante por financiamento e empregos aeroespaciais. Normalmente, a ESA define prioridades para o desenvolvimento de foguetes e distribui fundos para os contratantes principais ArianeGroup, que tem instalações na França e Alemanha, e Avio, com sede na Itália.

França anuncia novos postos de trabalho na indústria espacial

Ao que tudo indica, o governo francês financiará o desenvolvimento de Maia por conta própria. Em outubro, o presidente Emmanuel Macron anunciou que o país investiria 30 bilhões de euros (cerca de R$190 bilhões) no plano “França 2030”, para fomentar a inovação industrial. Cerca de 5% desse financiamento, segundo Macron, é destinado a empreendimentos espaciais.

Percebendo que sua indústria aeroespacial ficou para trás de concorrentes mais ágeis, especialmente a SpaceX, a Europa resolveu correr atrás do prejuízo. Uma das maneiras pelas quais o ArianeGroup procurou competir foi por meio de cortes de pessoal, realizados em setembro, visando reduzir seus custos. No entanto, o governo francês sentiu que a produção de desenvolvimento de motores do ArianeGroup em Vernon foi particularmente afetado por esses cortes.

O anúncio de Le Maire pretende corrigir isso, já que o desenvolvimento do motor do foguete Prometheus está ocorrendo em Vernon, e o foguete Maia também será fabricado lá. Le Maire assegurou que há cerca de 800 postos de trabalho no local e que, em 2025, serão quase mil.

Essas declarações indicam que o principal prêmio para os governos europeus não parece ser um foguete altamente competitivo, mas garantir que um número máximo de empregos espaciais bem remunerados sejam localizados dentro de suas fronteiras.

Nos últimos cinco anos, Alemanha, Itália e Reino Unido (que é membro da ESA, mas não da União Europeia) começaram a fomentar o desenvolvimento de empresas de micro-lançamento que estão construindo foguetes capazes de levar centenas de quilos de carga para a órbita baixa da Terra – um pouco menos do que o foguete Maïa pretende fazer.

Essas empresas, como as alemãs Isar Aerospace, Rocket Factory Augsburg e HyImpulse, a espanhola PLD Space e as britânicas Orbex e Skyrora, operam muito mais como a indústria espacial comercial norte-americana. 

Cada uma delas tem contado principalmente com financiamento privado para o desenvolvimento de suas tecnologias de foguetes e seus planos para competir por contratos comerciais para lançamento de pequenos satélites.

Cada um por si

Deixada de fora dessa, a França, com o ArianeGroup, provavelmente não se importaria em ver a competição eliminada. Conceder um grande contrato de desenvolvimento ao ArianeGroup para o foguete Maïa seria uma forma de aniquilar a concorrência em outros países antes que ela comece. 

Financiar o ArianeGroup agora seria um pouco como se os EUA tivessem financiado a United Launch Alliance para construir um foguete reutilizável 15 anos atrás, o que teria prejudicado substancialmente ou talvez até mesmo matado a SpaceX durante seus anos de formação.

Ao mesmo tempo, a França também está interessada em desenvolver uma nova indústria de lançamento espacial nativa. Segundo o repórter aeroespacial francês Vincent Lamigeon postou em seu Twitter, o país planeja, em breve, convocar projetos de micro-lançadores reutilizáveis menores que o projeto Maia. 

É esperado que as startups francesas Nascent French Venture Orbital Systems e Strato Space Systems concorram, contando com o suporte técnico e com contratos de lançamento da agência espacial francesa aos vencedores. “É uma verdadeira ruptura com a estratégia francesa e claramente inspirada nos EUA”, disse Lamigeon.

Portanto, ainda que a Alemanha, a França e a Itália trabalhem em conjunto no desenvolvimento do foguete Ariane 6, que realizará lançamentos de médio e pesado porte para a ESA, incluindo satélites científicos europeus e outras cargas úteis do governo, quando se trata de pequenos lançadores e do fomento de uma indústria espacial comercial, cada país parece estar seguindo seu próprio caminho.

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