Um novo encontro entre as potências envolvidas no acordo nuclear do Irã foi realizado na última quinta-feira (9) em Viena, na Áustria. A reunião – a sétima desde que o tratado de 2015 foi diluído com a saída dos EUA em 2018 – teve um tom mais conciliador em relação às conversas da semana anterior, que retomaram as negociações depois de um bloqueio de cinco meses.

Imagens de satélite flagram atividade suspeita em espaçoporto do Irã, mas o governo não se manifestou a respeito. Imagem: vchal – Shutterstock

Paralelamente a isso, enquanto as negociações do acordo nuclear são restabelecidas, o Irã parece estar se preparando para um lançamento espacial, conforme indicam imagens captadas no sábado por satélites da Planet Labs Inc., obtidas pela Associated Press e divulgadas pelo site Phys.

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Pelas imagens, é possível ver a atividade no espaçoporto Imam Khomeini, nas planícies desérticas da província rural de Semna, a cerca de 240 km a sudeste da capital Teerã. Isso ocorre pouco depois que a mídia estatal iraniana apresentou uma lista dos próximos lançamentos planejados de satélites para o programa espacial civil da República Islâmica , que tem sido afetado por uma série de programações fracassadas.

Movimentações condizem com foco do novo governo do Irã 

Conduzir um lançamento durante as negociações de Viena combina com a postura linha-dura dos negociadores de Teerã, que já descreveram seis rodadas anteriores de diplomacia como um “esboço”, provocando as nações ocidentais. 

“Tudo isso se encaixa em um foco renovado sobre o espaço pelo presidente do Irã, Ebrahim Raisi”, disse Jeffrey Lewis, especialista do Centro James Martin para Estudos de Não Proliferação do Instituto Internacional de Middlebury, que estuda o programa de Teerã. 

Com o ex-presidente Hassan Rouhani – que liderou o acordo nuclear – deixando o cargo, as preocupações sobre alienar as negociações com lançamentos que os EUA afirmam ajudar o programa de mísseis balísticos de Teerã provavelmente desapareceram.

“Eles não estão pisando em cascas de ovo”, disse Lewis. “Acho que o pessoal de Raisi tem um novo equilíbrio em mente”.

A mídia estatal iraniana não reconheceu a atividade no espaçoporto. A missão do Irã nas Nações Unidas não respondeu a um pedido de comentário feito pelo Phys, assim como os militares dos EUA, que rastreiam os lançamentos espaciais.

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Elementos flagrados nas imagens de satélite são típicos de lançamentos espaciais

Um veículo de apoio é visto estacionado ao lado de um enorme pórtico branco que normalmente abriga um foguete na plataforma de lançamento. Esse veículo de apoio também apareceu em outras fotos de satélite no local, pouco antes de lançamentos. Também é possível ver um guindaste hidráulico com uma plataforma de trilhos, outro item também visto antes de lançamentos anteriores e provavelmente usado para fazer a manutenção do foguete.

“Outras imagens de satélite nos últimos dias no espaçoporto mostraram um aumento no número de carros na instalação, mais um sinal de atividade intensificada que normalmente precede um lançamento. Um prédio que se acredita ser a instalação de “checkout” para um foguete também aumentou sua atividade”, disse Lewis. “Essa é uma atividade de pré-lançamento bastante tradicional”.

Nesta foto de satélite da Planet Labs Inc.,é possível ver uma atividade no espaçoporto Imam Khomeini na província de Semnan, Irã, que indica que o país parece estar se preparando para um lançamento espacial enquanto as negociações entre grandes potências mundiais sobre seu acordo nuclear continuam em Viena. Crédito: Planet Labs Inc. via AP

Na lista dos próximos lançamentos planejados de satélites para o programa espacial civil da República Islâmica divulgada em 5 de dezembro pela agência de notícias estatal iraniana IRNA, constam quatro satélites prontos para decolagem. 

Um deles, o satélite de imagens de órbita baixa Zafar 2, que custou quase 2 milhões de euros, segundo a IRNA, está “em fase final de preparação”. Zafar, que significa “vitória” em persa, pesa cerca de 113 kg. O Zafar 1 não conseguiu entrar em órbita após o lançamento no espaçoporto em fevereiro de 2020, usando um foguete Simorgh, ou “Phoenix”. De acordo com o que disseram autoridades irnanianas na época, o foguete não conseguiu colocar o satélite em órbita na velocidade correta. 

O programa espacial civil do Irã passou por uma série de situações fatais nos últimos anos. Uma explosão misteriosa chamou a atenção do então presidente Donald Trump em 2019, que tuitou o que parecia ser uma imagem secreta de um satélite espião dos EUA das consequências da explosão com a legenda: “Os EUA não estiveram envolvidos no acidente catastrófico”.

Depois disso, em abril de 2020, a Guarda Revolucionária Paramilitar do Irã revelou seu próprio programa espacial secreto ao lançar com sucesso um satélite em órbita. O chefe do Comando Espacial dos Estados Unidos considerou o satélite “uma webcam em queda no espaço” que não forneceria informações vitais ao Irã – embora mostrasse a capacidade do país de entrar em órbita com sucesso.

EUA acusam Irã de descumprir resolução da ONU

Na última década, o Irã colocou vários satélites de vida curta em órbita e, em 2013, lançou até um macaco ao espaço. Mas, sob o governo Raisi, o Conselho Supremo do Espaço do Irã se reuniu apenas em novembro de 2021, pela primeira vez em 11 anos, de acordo com um relatório recente da televisão estatal.

Raisi disse na reunião que “mostra a determinação deste governo em desenvolver a indústria espacial”. Um alto funcionário da Guarda que dirige o programa aeroespacial, o general Amir Ali Hajizadeh, participou da reunião junto com o ministro das Relações Exteriores, Hossein Amirabdollahian.

Segundo os Estados Unidos alegam, tais lançamentos de satélites descumprem uma resolução do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) que pede ao Irã que não realize nenhuma atividade relacionada a mísseis balísticos capazes de lançar armas nucleares.

O Irã, que há muito diz que não busca armas nucleares, garante que seus lançamentos de satélites e os testes de foguetes não têm um componente militar. O governo também diz que não violou a resolução da ONU, já que apenas “convocou” Teerã a não conduzir tais testes.

Esse possível lançamento também ocorre no momento em que as tensões aumentam novamente sobre o programa nuclear iraniano. Desde que Trump retirou unilateralmente a América do acordo nuclear de Teerã com potências mundiais em 2018, o Irã lentamente abandonou todos os limites que o acordo impôs ao seu programa.

Hoje, Teerã enriquece urânio com até 60% de pureza – um pequeno passo técnico em relação aos níveis de 90% para armas. Seu estoque de urânio enriquecido também continua a crescer, e os inspetores internacionais enfrentam desafios para monitorar esses avanços.

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