Hahaha… Estudo sugere que o riso pode ser uma estratégia de sobrevivência

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Imagem: DavideAngelini - Shutterstock

Autor de mais de 400 estudos científicos e 15 livros, o médico Carlo Valério Bellieni, neonatólogo e pediatra no Hospital Universitário de Siena, na Itália, decidiu rever toda a literatura disponível sobre riso e humor publicado em inglês nos últimos 10 anos para descobrir por que o ser humano ri.

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Pesquisador investigou as possíveis causas do riso nos seres humanos. Imagem: Jacob Lund – Shutterstock

“Até agora, várias teorias têm procurado explicar o que faz algo ser engraçado o suficiente para nos fazer rir. Estas incluem transgressão (algo proibido), pontuando um senso de arrogância ou superioridade (zombaria), e incongruência – a presença de dois significados incompatíveis na mesma situação”, disse Bellieni em um artigo no site The Conversation, no qual ele descreve sua mais recente pesquisa, publicada nesta quinta-feira (22) na revista Science Direct.

Depois de analisar mais de 100 artigos, ele encontrou uma nova explicação possível. “O riso é uma ferramenta que a natureza pode ter nos proporcionado para nos ajudar a sobreviver”.

Para chegar a essa conclusão, Bellieni focou em artigos de pesquisa sobre teorias do humor que forneceram informações significativas sobre três áreas: as características físicas do riso, os pontos cerebrais relacionados à produção de risos e os benefícios para a saúde.

Organizando todas as teorias em áreas específicas, ele diz que conseguiu condensar o processo do riso em três passos principais: perplexidade, resolução e alívio, que serão explicados mais adiante.

A evolução do riso

De acordo com Bellieni, a teoria da incongruência trata-se de nos depararmos com uma situação específica que subverte nossas expectativas de normalidade.

“Por exemplo, se virmos um tigre passeando por uma rua da cidade, pode parecer incongruente, mas não é cômico – pelo contrário, seria aterrorizante. Mas, se o tigre se enrola como uma bola, então a situação se torna engraçada”, explica o pesquisador.

Bellieni também cita o anti-herói Homer, da série animada Os Simpsons. “Ele nos faz rir quando cai do telhado de sua casa e quica como uma bola ou quando tenta ‘estrangular’ seu filho Bart, com olhos esbugalhados e a língua batendo como se ele fosse feito de borracha”.

https://www.youtube.com/watch?v=HDiRRfKKQ08&t=1s

Esses são exemplos da experiência humana se transformando em uma versão do mundo exagerada e em desenho animado onde qualquer coisa – especialmente o ridículo – pode acontecer.

“Mas para ser engraçado, o evento também deve ser percebido como inofensivo”, explica Bellieni. “Rimos porque reconhecemos que o tigre ou Homer nunca efetivamente machucaram os outros, nem se machucam, porque essencialmente seus mundos não são reais”.

É aqui que voltamos ao processo de três etapas do riso, mencionado lá em cima. “Primeiro, precisa de uma situação que pareça estranha e induza uma sensação de incongruência (perplexidade). Em segundo lugar, a preocupação ou estresse que a situação incongruente tem provocado deve ser trabalhada e superada (resolução). Terceiro, a liberação real do riso age como uma sirene totalmente clara para alertar os espectadores de que eles estão seguros (alívio)”.

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O riso e a fisiologia humana

Assim como chorar, mastigar, respirar ou caminhar, rir é um comportamento rítmico que serve como um mecanismo de liberação para o corpo. Os pontos cerebrais que regulam o riso são os mesmos que controlam as emoções, o medo e a ansiedade. Segundo Bellieni, a liberação do riso quebra o estresse ou a tensão de uma situação e inunda o corpo de alívio.

“O humor é frequentemente usado em um ambiente hospitalar para ajudar os pacientes em sua cura, como os grupos de terapia de palhaços têm mostrado”, disse ele. “O humor também pode melhorar a pressão arterial e as defesas imunológicas, e ajudar a superar a ansiedade e a depressão”.

Pesquisas examinadas no estudo de Bellieni também mostraram que o humor é importante no ensino, sendo usado para enfatizar conceitos e pensamentos. O humor relacionado ao material escolar sustenta a atenção e fornece um ambiente de aprendizagem mais descontraído e produtivo. Em um ambiente de ensino, o humor também reduz a ansiedade, aumenta a participação e a motivação”.

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Gostar de quem nos faz rir

Para Bellieni, aquela resposta clichê que as pessoas dão quando perguntadas sobre o que as atrai em alguém – “que me faça rir” – não é só uma questão de gostar de alguém engraçado. “Poderia ser algo mais complexo”, acredita o pesquisador.

Quem nos faz rir, de modo geral, inspira confiança, motivo pelo qual muitos se dizem atraídos por pessoas engraçadas. Imagem: fizkes – Shutterstock

“Se o riso de outra pessoa provoca o nosso, então essa pessoa está sinalizando que podemos relaxar, estamos seguros – e isso cria confiança”, explica. “Se nosso riso é desencadeado por suas piadas, tem o efeito de nos fazer superar medos causados por uma situação estranha ou desconhecida. E se a habilidade de alguém de ser engraçado nos inspira a anular nossos medos, estamos mais atraídos por eles. Isso explicaria por que adoramos aqueles que nos fazem rir”.

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Bellieni diz que, do ponto de vista evolutivo, esse comportamento humano talvez tenha cumprido uma função importante em termos de consciência de perigo e autopreservação. “Mesmo agora, se passamos por momentos de perigo, muitas vezes reagimos depois com risos devido a um sentimento de puro alívio”.

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Flavia Correia
Flavia Correia

Flávia Correia é jornalista do Olhar Digital, cobrindo Ciência e Espaço.

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