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O banimento de Donald Trump das redes sociais deveria ter ocorrido mais cedo, de acordo com especialistas em desinformação e pesquisadores dos direitos civis ouvidos pelo jornal britânico The Guardian. As mesmas fontes afirmam, ainda, que o ataque ao Capitólio, em Washington, na quarta-feira (6), foi “exatamente” o que eles esperavam.

Facebook, Twitch e Snapchat baniram por tempo indeterminado os perfis atrelados ao presidente americano (Partido Republicano) em fim de mandato. O Twitter chegou a suspender sua conta por 12 horas, para reativá-la posteriormente, ainda que com ressalvas e avisos.

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Sua “exclusão” das mídias sociais se deu após a invasão de correligionários de Trump (Partido Republicano) ao Capitólio durante a cerimônia que reconheceu a vitória do democrata Joe Biden nas eleições de 3 de novembro.

banimento de trump
Donald Trump foi constantemente acusado de usar as redes sociais para veicular discurso de ódio e incentivar a violência. Imagem: Nicole Glass Photography/Shutterstock

Tais ações, segundo os especialistas, foram o que o idioma inglês refere-se como “muito pouco e muito tarde”: “Isso é exatamente o que nós esperávamos”, disse Brian Friedberg, pesquisador sênior do Projeto Social Change do Centro de Tecnologia Shorenstein, ligado à Universidade de Harvard e responsável por diversos estudos relacionados ao crescimento de movimentos como o QAnon.

“Tudo isso é muito consistente com o quão intensamente as diferentes facções responsáveis pelo que aconteceu [no Capitólio] vêm operando online, e como as tentativas anteriores das plataformas de lidar com elas deram nenhum resultado”, continuou.

invasores capitólio
Invasores entraram no Capitólio, em Washington, durante cerimônia de confirmação da vitória de Joe Biden. Imagem: Jason Andrew/New York Times

Desinformação na web

Ao longo de todo o histórico político que antecedeu o banimento de Trump, ele violou, por repetidas vezes, termos de uso das principais plataformas sociais. Em algumas ocasiões, as ações renderam suspensões e banimentos de outras pessoas.

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Antes mesmo de ser eleito presidente, em 2016, ele havia informado que Barack Obama, seu antecessor, não era nascido nos EUA (uma informação falsa e amplamente desmentida). Após ascender à Casa Branca, curtiu, compartilhou e postou conteúdos de incentivo a proibições e banimentos de grupos sociais marginalizados, como muçulmanos e imigrantes de outros países – o que vai contra normas de combate ao discurso de ódio das empresas de tecnologia.

Mais além, ele retuitou um vídeo que mostrava um de seus seguidores gritando as palavras “White Power” (“Poder Branco”, na tradução literal) – um mote utilizado por grupos racistas que pregam a supremacia branca.

Trump também chegou a publicar no Twitter a postagem “Quando os saques começam, vêm os tiros” (“When the looting starts, the shooting starts”), uma frase com histórico racista, interpretado por muitos como um incentivo à violência armada contra os manifestantes do movimento Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”, conforme o movimento tomou forma no Brasil).

Segundo os especialistas, os discursos adotados por Trump não serão esquecidos com o fim de seu mandato. Ainda que ele fique no Salão Oval até 20 de janeiro – quando o presidente eleito Biden efetivamente assume o posto -, os seguidores do mandatário atual continuarão perpetuando essa mesma retórica nas plataformas sociais.

Os pesquisadores apontam especificamente para os movimentos de massa – e como as redes sociais falharam em lidar com eles em seus inícios. O QAnon, por exemplo, ganhou enorme proeminência no último ano e meio, espalhando conspirações sem fundamento de que uma espécie de “grupo secreto” dita as normas governamentais de vários países para veicularem tráfico de crianças e pedofilia sem policiamento. Trump seria um tipo de “herói” que os estaria combatendo.

Na invasão ao Capitólio, muitos dos que participaram vestiam bonés, camisetas e outras mercadorias do movimento que, só em 2020 (ano em que o Facebook decidiu tomar ação contra ele), reuniu mais de três milhões de seguidores.

The shocking events of the last 24 hours clearly demonstrate that President Donald Trump intends to use his remaining…

Publicado por Mark Zuckerberg em Quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O YouTube também começou a tomar atitudes contra o QAnon, especificamente, à mesma época do Facebook mas, embora tenha de fato removido diversos vídeos da plataforma, não promoveu banimentos de participantes do movimento de sua rede de vídeos.

Segundo um porta-voz da empresa, o YouTube “tomou outras medidas além da exclusão”, como o posicionamento de etiquetas com informações oficiais em vídeos potencialmente mentirosos, desmonetização ou corte de tráfego direcionado a este material.

QAnon durante invasão ao capitólio
Um membro do QAnon durante a invasão ao Capitólio, em Washington, no último dia 6. Imagem: Mike Theiler/Reuters

“O que aconteceu nesta semana é o produto de quatro anos de propaganda sistêmica da presidência”, disse Jennifer M Grygiel, professora assistente de comunicação na Universidade de Syracuse e especialista em redes sociais.

Ela citou o Ato Smith-Mundt de 1948, uma legislação dos EUA que impõe limites à veiculação de propaganda a figuras do governo – mas ressaltou que isso não teve efeito às contas sociais de Trump, pelas quais o público simplesmente “presumiu que o presidente não as usaria para incitar insurreição”.

E diante de pouca regulamentação governamental, o público virou seus olhos às empresas, que apesar de terem regras específicas de conduta, não as forçaram sobre Trump, resultando nas publicações mencionadas acima.

Regulamentação das redes sociais

A fim de evitar que esse tipo de panorama se repita, os especialistas mencionam as tomadas de ação tanto de republicanos como de democratas para que as plataformas digitais sociais sejam mais regulamentadas. Ou seja, com medidas que tratem dos riscos posicionados por mentiras publicadas por líderes e seu papel na promoção da violência.

“A violência que testemunhamos hoje [anteontem] na capital de nossa nação é uma resposta direta da desinformação, teorias da conspiração e discurso de ódio que foram permitidos por redes sociais como Facebook, YouTube, Twitter etc,” disse Jim Steyer, que coordena a ONG Common Sense Media e ajudou a organizar a campanha Stop Hate for Profit.

legislação das redes sociais
Especialistas defendem a sanção de novas leis governamentais para controlar mídias sociais. Imagem: Mehaniq/Shutterstock

“As plataformas de mídias sociais devem ser responsabilizadas por sua cumplicidade na destruição da nossa democracia”, continuou Steyer, recomendando que, na ausência de um reforço significativo de regras por parte das empresas, o congresso americano é quem deve sancionar legislações aprimoradas para atacar os discursos de ódio nelas publicados.

Segundo a publicação, Facebook e Twitter não responderam a pedidos de comentários sobre o assunto.

Fonte: The Guardian