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Há mais de uma década, a linha Galaxy S já é uma marca na indústria de celulares. A Samsung conseguiu cravar seu nome como referência no mercado, o que faz com que cada atualização seja esperada não só pelo produto em si, mas como um indicador dos rumos do mercado Android como um todo. É o caso do Galaxy S21, anunciado nesta terça-feira (9), pelo preço sugerido de R$ 6.000.

Apresentado em janeiro, o Galaxy S21 traz uma série de novidades, embora nem todas sejam necessariamente positivas para o consumidor final que mostram um caminho claro para a empresa e para o mercado.

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Confira a análise:

Sem medo de incomodar

Vamos começar com a parte mais chata. Em um passado que parece cada vez mais longínquo, a Samsung se apresentava como uma antítese da Apple. Enquanto a concorrente prometia um “jardim cercado”, com várias restrições ao consumidor, a coreana manteve um histórico de dar alternativas ao usuário, com um sistema aberto sem remover recursos.

Com o passar do tempo, no entanto, esse diferencial foi morrendo. Uma vítima em anos recentes, por exemplo, foi a entrada de fones de ouvido, que sumiu primeiro em iPhones e após alguns anos de apresentação como diferencial, também sumiu nos aparelhos da linha Galaxy.

Em 2021, são duas tendências que, particularmente, não me agradam e que considero hostis ao consumidor e foram agregadas ao Galaxy S21. Primeiro, a Samsung tirou a entrada de cartão microSD dos seus tops de linha de 2021; segundo, a empresa decidiu acompanhar a Apple e deixar de lado o adaptador de tomada para recarga, oferecendo apenas um cabo com USB-C nas duas pontas.

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A justificativa para remoção do adaptador é a mesma da Apple: reduzir o lixo e o desperdício de material, com a explicação de que a maioria das pessoas já têm um carregador compatível. No entanto, não é qualquer um que tem um adaptador de tomada preparado para o USB-C, ou possui algum dispositivo compatível com a entrada. É comum que notebooks e desktops tenham apenas entradas USB do tipo A (aquela retangular), o que pode forçar uma boa base de compradores a adquirirem um adaptador à parte.

Para a falta da entrada para cartão de memória, a resposta da Samsung foi dar ao aparelho um bom volume de memória interna, com 128 GB, o que pode ser suficiente para uma parte do público. Entre os “power users”, que se aproveitavam do slot disponível para acumular o máximo de dados possível no aparelho, provavelmente não. É uma mudança que pode não ter impacto real na usabilidade da maioria, mas é uma opção a menos.

Desempenho e bateria

O Galaxy S21 que poderá ser adquirido no Brasil conta com um chipset Exynos 2100, de produção da própria Samsung, com oito núcleos, sendo quatro dedicados a tarefas de alta exigência e quatro para as que não demandam muito recurso, permitindo economizar energia. O modelo a que tivemos acesso conta com 8 GB de memória RAM. Para resumir: é mais do que suficiente.

Em meu período com o aparelho, não consegui achar alguma funcionalidade que estressasse a capacidade do hardware a ponto de ela apresentar algum engasgo e, francamente, não era possível esperar nada diferente. Como mesmo os apps e jogos mais pesados do Android estão adaptados para funcionarem em chipsets de 2020, um processador de 2021 não tem qualquer dificuldade em segurar a barra.

Assim, o Galaxy S21 é uma boa alternativa para o que se chama de “future proof”: um aparelho que hoje oferece mais do que a sua usabilidade exige, mas que deve continuar entregando um desempenho satisfatório daqui a alguns anos, quando as exigências do ecossistema aumentarem.

Para referência, o aplicativo de benchmarks AnTuTu lista como o Mi 11, da Xiaomi, como o aparelho mais rápido do mundo com base nos dados acumulados até janeiro, com uma pontuação média na faixa dos 700 mil. O S21, no entanto, alcança consistentemente 650 mil, o que é o suficiente para colocá-lo como o segundo Android mais potente do planeta, com um empate técnico entre o Huawei Mate 40 Pro e o ROG Phon 3, da Asus. Rankings de benchmarks não necessariamente são muito confiáveis, já que os resultados podem ser artificialmente inflados, mas eles dão uma ideia do cenário: o aparelho não deixa a desejar em nada em relação aos concorrentes.

A tendência é que o primeiro gargalo a ser enfrentado por um usuário no futuro, daqui a alguns anos, sejam os 8 GB de memória RAM. Via de regra, o montante é mais do que o suficiente para um bom uso do Android, mas já há uma grande variedade de aparelhos com 12 GB ou até mais. Assim, o S21 com 8 GB pode começar a fechar aplicativos em segundo plano e ter dificuldades para alternar rapidamente entre apps abertos e operar em multitarefa antes de concorrentes diretos, mas, novamente, no presente isso não está nem perto de ser um problema.

E aí entramos na questão da bateria. Não é possível reclamar do aparelho neste sentido, e não só pelo fato de ele ter uma capacidade razoavelmente alta de bateria, com 4.000 mAh. O dispositivo também conta com uma tela mais econômica, com resolução de 1080p, que reduz o consumo de energia justamente do componente mais exigente. A tecnologia empregada no painel também contribui para isso: com um display Dynamic AMOLED, o display não desperdiça energia iluminando pixels pretos, o que também ajuda a proporcionar uma boa autonomia para o dispositivo.

No fim, o Galaxy S21 resistiu com tranquilidade a mais de um dia inteiro de uso normal, o que é o que se pode exigir de um aparelho nos dias de hoje.

Tela

Já que no ponto acima já tocamos na tela, vamos aproveitar para elaborar um pouco mais. É indiscutível que houve um downgrade em comparação aos modelos do ano passado. A opção pelo formato Full HD+, com resolução de 2400×1080, é econômica em vários aspectos, tanto no financeiro quanto na questão da bateria, mas em questão de qualidade de imagem é um regresso em comparação com o S20.

Tela apresenta brilho forte mesmo que permite boa leitura mesmo sob o sol forte. Foto: Renato Santino/Olhar Digital

É um risco que a Samsung pareceu não ter medo de assumir, visto que telas de celular são naturalmente pequenas, a ponto de a alteração não a diferença na densidade de pixels na tela ser difícil de perceber para quem não está procurando por isso. Então é um downgrade, mas é necessário esforço para perceber o que foi piorado.

Mas se a resolução piorou, a Samsung trouxe outras funcionalidades que agregam mais qualidades ao painel. Uma delas é a taxa de atualização ajustável, que já era uma marca dos aparelhos da empresa no ano passado e foi ampliada em 2021. O painel é capaz de adaptá-la em uma faixa que varia entre 48 Hz e 120 Hz, dependendo das exigências do momento: quando o conteúdo é mais estático, como a leitura de um artigo em um site, a taxa pode cair ao patamar mínimo para economizar energia. Em jogos ou outros momentos que se beneficiem de uma taxa mais alta, ela sobe para representar o máximo de qualidade gráfica; um momento em que isso é perceptível é na fluidez com que se dá a navegação pela interface do celular, com animações bastante suaves.

Infelizmente, a Samsung guardou para o Galaxy S21 Ultra a principal novidade em termos de taxa de atualização. No modelo, é possível variar entre 10 Hz e 120 Hz, o que proporciona uma economia ainda mais drástica de energia quando o conteúdo consumido permitir. O Galaxy S21 padrão não conta com isso.

Também vale notar que o S21 também alcança picos de brilho maiores do que na geração passada, com 1.300 nits em comparação com os 1.200 nits do S20. O resultado é que o dispositivo oferece excelente legibilidade mesmo sob o sol forte.

Design

Não há como discutir: o S21 é bastante similar aos aparelhos da Samsung do ano passado. Numa primeira olhada, a única diferença que via saltar aos olhos é o módulo de câmera traseira, que era uma lombada que se levantava “do nada” e agora está integrado à armação lateral do dispositivo.

Particularmente, eu demorei um pouco para me acostumar com esse design, que não me agradou de primeira, e a opinião foi compartilhada com algumas outras pessoas com quem conversei sobre o assunto. No entanto, com o passar dos dias eu me acostumei; é uma solução elegante para uma exigência infeliz do mercado, que é a lombada da câmera, com módulos mais grossos do que a espessura do dispositivo. Admito, no entanto, que essa mudança de opinião pode ter sido alavancada pelo esquema de cores do aparelho enviado para testes. A combinação violeta-rosé é uma combinação bastante agradável.

Combinação de cores é uma das mais agradáveis no mercado. Foto: Renato Santino/Olhar Digital

Uma outra mudança que pode não ser imediatamente perceptível é a lateral dos dispositivos. Há anos uma marca dos tops de linha da Samsung são os cantos curvados da tela. Era algo que não me agradava muito; foram incontáveis as vezes em que o display reconheceu erroneamente a palma da minha mão enquanto eu segurava o celular e realizava um comando indesejado. Tinha seu apelo estético, mas não era prático.

O S21 volta a um formato mais convencional, com a tela totalmente plana, que traz um ganho de usabilidade, mas deixa uma linha preta ao redor do display que não é das mais bonitas. No fim, são escolhas, e eu prefiro o formato decidido pela Samsung para o S21.

Câmera

Desde o começo, o Galaxy S21 me passou a impressão de ser uma simples evolução do S20, sem grande intenção de transformar. Por isso, a evolução das câmeras parece ser um grande destaque da nova geração de aparelhos.

São três lentes traseiras: a principal, com 12 MP e abertura f/1.8, uma teleobjetiva de 64 MP e abertura f/2.0, que proporciona um zoom óptico de 3x, e uma grande-angular, de 12 MP e abertura f/2.2, que captura imagens em um ângulo de até 120°. Essa configuração proporciona um recurso curioso para a gravação de vídeos, que a Samsung chama de “Visão do diretor”: enquanto você está filmando algo, é possível alternar entre as câmeras em tempo real; a interface exibe as três cenas ao mesmo tempo, facilitando encontrar a melhor imagem para o momento. Também é possível integrar a câmera frontal na imagem, permitindo capturar sua reação à cena gravada. É uma combinação de recursos que eu imagino que possa ser útil em tempos de TikTok, permitindo vídeos criativos com pouco esforço.

Também vale ressaltar que a câmera do Galaxy S21 é capaz de capturar vídeo em 8K, o que é impressionante ao mesmo tempo em que é meio sem sentido. Primeiro, porque praticamente não existem telas 8K no mercado; segundo, porque se alguém precisa de tanta resolução, provavelmente é para uso profissional, e neste caso existem equipamentos melhores e mais adequados. Isso dito, a funcionalidade permite capturar fotos durante a gravação dos vídeos sem grande perda de qualidade.

É na hora de fotografar que a câmera do S21 brilha, e isso vale para qualquer aspecto analisado. A imagem abaixo mostra bem como o aparelho se sai diante do cenário mais desafiador que uma câmera pode enfrentar.

Câmera do S21 se saiu bem mesmo quase sem luz no ambiente. Foto: Renato Santino/Olhar Digital

Não percebeu? Essa foto foi tirada em um escritório com as luzes apagadas e janelas fechadas, com a única luz vindo de fora do ambiente, do corredor. O software da câmera conseguiu corrigir essa falta grave de iluminação e produzir uma foto bem clara e detalhada da estante.

Em ambientes mais iluminados, o resultado, obviamente é ainda melhor, e me impressiona particularmente o efeito de profundidade de câmera e como o aparelho é capaz de destacar a imagem no plano principal.

Veja algumas amostras:

Foto: Renato Santino/Olhar Digital
Foto: Renato Santino/Olhar Digital
Foto: Renato Santino/Olhar Digital
Lembre-se de usar a máscara quando sair de casa, mesmo na hora de fazer selfies. Foto: Renato Santino/Olhar Digital

Eu também não consigo deixar de me impressionar com o “Space Zoom” da Samsung, que no caso do S21 consegue aproximar as imagens em até 30x. Não pela qualidade da imagem, que, francamente, não é digna de ser guardada ou publicada em redes sociais, mas pelo simples fato de a câmera conseguir preservar detalhes que sequer parecem existir quando se olha a fotografia aberta. Por exemplo, o poste de luz parece ser invisível na foto aberta (e mal era visível a olho nu), mas está detalhado o suficiente para ser visível com zoom. É uma função que tem pouco uso estético, mas para a qual consigo ver uso prático, para conseguir ler uma placa à distância, por exemplo.

Zoom de 30x provoca ruído, mas consegue enxergar bem longe. Foto: Renato Santino/Olhar Digital
Imagem tirada do mesmo lugar da anterior. Você consegue ver algum poste de luz? Nem eu. Foto: Renato Santino/Olhar Digital

Software

A Samsung melhorou em relação a software ao longo dos anos, não há como discutir, e a OneUI já é uma das melhores experiências Android no mercado há algum tempo. Isso não significa que a empresa não tem como evoluir. No Galaxy S21 isso fica evidente

Primeiro, eu vou bater na tecla da assistente Bixby para sempre enquanto a Samsung insistir no recurso. É errado a empresa destinar o botão lateral do aparelho, que em qualquer outro smartphone no mundo serve para ligar e desligar, à função de chamar sua assistente. Sim, a companhia dá a opção de ajustar isso nas configurações, mas não é qualquer usuário que vai escavar ajustes finos no aparelho, então muitos sequer vão entender que essa é uma possibilidade e precisarão se acostumar ter que realizar o comando de desligar o dispositivo via software. Não faz sentido haver dois assistentes pessoais no mesmo celular, e o Google Assistente é suficiente, a menos que você já esteja totalmente envolvido no ecossistema Samsung, principalmente no aspecto de casa conectada.

Bixby continua sendo um ponto fraco dos celulares da Samsung. Foto: Renato Santino/Olhar Digital

Também vale a pena tocar no ponto do bloatware. A Samsung passou a minimizar o número de aplicativos pré-instalados no celular, dando a opção de que o usuário selecione o que deseja manter desde o primeiro uso, mas ainda há alguns apps que eu não gostaria de usar e preferia que não estivessem instalados, como é o caso do Samsung Free, mas que estavam ali de qualquer forma, e os redundantes, como o aplicativo de mensagens da Samsung, quando o do Google já vem pré-instalado.

Isso dito, visualmente a One UI é ótima, permite gerenciar facilmente uma série de recursos e o aparelho conta com algumas funcionalidades únicas, como o DeX, que permite conectá-lo a uma TV ou monitor para usá-lo como um desktop, e pode ser útil em situações específicas.

Conclusão

O S21 é um bom celular, sem sombra de dúvidas, que acerta em vários pontos: uma combinação excelente de câmeras, um formato agradável, no tamanho certo para uma boa pegada, desempenho e bateria de respeito. Ele também é o mais barato da nova linha da Samsung.

No entanto, a Samsung também tomou algumas decisões que fazem com que ele seja um produto estranho diante do preço pelo qual ele é vendido aqui no Brasil. Algumas decisões foram tomadas justamente para torná-lo mais acessível, mas é difícil justificar a resolução de tela reduzida, a ausência de qualquer tipo de adaptador para o carregador do aparelho na caixa e a remoção da entrada do slot microSD pelo preço que é cobrado por ele.

Assim, é difícil recomendar um celular por este preço. O S21 é um ótimo smartphone, mas não para este ano. Quem sabe numa promoção?