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O início da vacinação contra a Covid-19 no Brasil, em 17 de janeiro, foi marcado por muita esperança de que, finalmente, começaríamos o movimento de saída da situação imposta pela pandemia. Afinal, o Brasil é reconhecido por vacinar muitos cidadãos rapidamente: entre 2009 e 2010, 80 milhões de brasileiros foram imunizados contra a H1N1 em três meses.

Só que, agora, um obstáculo tem dificultado esse processo: a falta de imunizantes e a incerteza sobre a chegada de mais unidades de vacina. “Não sabemos de verdade com o que podemos contar”, destaca a epidemiologista Carla Domingues, que coordenou o Programa Nacional de Imunizações (PNI) de 2011 a 2019. “É muito difícil trabalhar com essa política de distribuir a vacina a conta-gotas.”

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No Brasil, é comum que públicos-alvo e faixas etárias sejam definidos em campanhas de vacinação. No caso da vacina da gripe, por exemplo, todos os anos os idosos são convocados de uma só vez.

Agora, os cidadãos têm sido chamados semanalmente. “Não se sabe se e quanto vai ter de vacina”, comenta Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações. “É triste isso. A falta de um cronograma confiável impede o planejamento adequado”, diz.

vacinação em hospital de são paulo, enfermeiras aplicando vacina em senhoras de idade
Especialistas reforçam que campanha de vacinação requer planejamento. Foto: Shutterstock

José Cássio de Moraes, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, lembra que o planejamento de uma campanha de vacinação começa meses antes da aplicação da primeira dose de vacina. Segundo ele, o país administra, anualmente, cerca de 300 milhões de doses de imunizantes nas 39 mil salas existentes no País.

Desta vez, porém, a falta de ação para a compra antecipada de vacinas afetou a possibilidade de preparação. “O que deixa a gente triste é que existe estrutura para aplicar vacina no Brasil. Não precisa criar sala, comprar geladeira, treinar aplicador. Temos tudo isso, menos vacina e insumos.”

Vacinas de duas doses

As duas vacinas já disponíveis no Brasil – CoronaVac, da Sinovac, e Covishield, da AstraZeneca – são aplicadas no esquema de duas doses. “Não temos como vacinar o maior número de pessoas com a primeira dose se não temos nenhuma garantia de quando vamos ter a segunda”, ressalta Moraes.

Para os especialistas, o maior erro do governo foi não ter comprado as vacinas quando elas estavam disponíveis, em 2020. Todos os acordos que forem assinados agora, inclusive os dois confirmados nesta sexta-feira (19), com a Pfizer e a Janssen, preveem entregas no segundo semestre.

Cronograma de entrega das vacinas contratadas pelo ministério da Saúde
Cronograma de entrega provável das vacinas compradas pelo ministério da Saúde. Foto: Reprodução

Sem vacinas, a recomendação é reforçar as medidas de prevenção. “Só as vacinas que temos não vão resolver”, avalia Carla. “A única saída é o distanciamento social, é usar máscara.”

Moraes afirma que o que estamos vivendo não aconteceu por acaso. “É resultado de déficit de vacinas e de não termos adotado as medidas não farmacêuticas de controle”, pontua. “Estamos colhendo os frutos por toda a descoordenação que vivemos. E hoje somos os campeões de produção de vírus, um título nada honroso.”

Fonte: Estadão