Desde que o Talibã retomou ao poder no Afeganistão, uma série de incertezas pairou na vida das pessoas que moram naquele país. É difícil acompanhar, mesmo que de longe, os direitos de cidadãos e cidadãs serem violados de uma maneira tão brutal, principalmente as meninas e mulheres que têm suas conquistas em risco.

As meninas se perguntam se continuarão na escola, as mulheres questionam se precisarão deixar seus empregos e uma sociedade inteira se vê assustada com tudo o que vem ocorrendo.

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Isso porque no último governo do Talibã (1996-2001) as mulheres eram proibidas de trabalhar. Depois que os militantes islâmicos foram retirados do poder, em 2001, elas conquistaram o direito de ir à universidade, ter uma carreira e emprego. Para se ter uma ideia, no início de 2021, 27% das cadeiras no Parlamento nacional eram ocupadas por mulheres. Houve um avanço nas lideranças femininas sem a presença dos extremistas. Mas agora, se nada for feito, veremos um triste retrocesso.

Tenho falado aqui como é importante que as mulheres conquistem seu lugar de fala, ocupem cargos de lideranças e tenham espaço no mercado de tecnologia. Embora tenhamos tantas diferenças, especialmente culturais, as mulheres tanto do Brasil, quanto do Afeganistão, travam uma mesma batalha: a luta por mais igualdade.

Avanços tecnológicos e direitos da mulher ameaçados

Um dos pedidos de socorro que ecoa pelo mundo vem de um grupo de 25 meninas afegãs, entre 12 e 18 anos, e seus mentores. Elas têm lutado contra a guerra, o terrorismo e a discriminação de gênero para emergirem como um símbolo de um novo Afeganistão, que defende a educação para as meninas.

Este grupo formou a primeira equipe feminina de robótica em um país onde o desenvolvimento da ciência nunca foi uma prioridade, e muito menos sendo ele liderado por meninas e mulheres.

Tudo isso foi possível por conta do projeto “Sonhadoras Afegãs”, uma ONG com sede nos Estados Unidos que ajuda meninas e mulheres em países em desenvolvimento a ter acesso à tecnologia e que oferece aulas em disciplinas como ciências, engenharia, matemática e robótica.

Sonhadoras Afegãs
Sonhadoras Afegãs. Créditos: UNICEF/UNI363792/Aryan

No Afeganistão, o projeto foi centrado em Herat, no oeste do país, para promover a ciência e empoderar meninas afegãs em um local onde o papel das mulheres era limitado à casa durante a passagem anterior do Talebã no poder.

O projeto foi tão importante que, em 2017, conquistou a medalha de prata no Prêmio Especial do Campeonato Internacional de Robótica, realizado em Washington. Enquanto as outras equipes demoraram quatro meses para montar seus projetos, elas elaboraram em duas semanas, tendo que lidar com vários empecilhos, como ter seus equipamentos confiscados no Afeganistão.

Com isso, elas receberam atenção internacional, já que vinham de um país onde mulheres e meninas não tinham direitos básicos, mas a força, a vontade e a educação fizeram com que elas superassem obstáculos para participar da competição nos Estados Unidos.

A robótica como meio de ajudar seu país

Enquanto a pandemia do coronavírus se alastrava pelo mundo, elas se uniram para suprir uma necessidade de seu país: a falta de respiradores artificiais. As sonhadoras afegãs começaram a construir respiradores usando um projeto de engenheiros do Massachusetts Institute of Technology (MIT), além de peças e acessórios de carros.

Vale destacar que elas trabalharam no projeto em jejum, já que estavam no Ramadã, e isoladas por conta do distanciamento social, mas não deixaram de fazer com que a iniciativa acontecesse e salvasse pessoas com covid-19.

Agora, esse projeto tão promissor em uma terra de pouca esperança vem desabando. Assim como milhares de pessoas que tentaram deixar o Afeganistão, o grupo de jovens cientistas da robótica também deixaram seu país e, separadas, conseguiram asilo no México e no Catar.

O que está em jogo

Para mim, mulher e mãe de meninas, é um choque ver sonhos serem destruídos dessa maneira. Afinal, nos últimos 20 anos, acompanhamos as mulheres afegãs se juntarem à sociedade como estudantes, professoras, oficiais do governo, policiais e donas de empresas – com a constituição de 2004 consagrando que “os cidadãos do Afeganistão, homens e mulheres, têm direitos iguais e deveres perante a lei. ”

Em 2003, o novo governo ratificou a Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, que determina que os países incorporem a igualdade de gênero em seus códigos jurídicos internos.

Diante da retomada do Talibã no poder, o sonho de um país mais igualitário cai por terra. Agora, as meninas da robótica, dependem de outras nações para seguir futuros que têm tudo para serem promissores.

Que elas possam seguir sonhando e realizando projetos inovadores que melhoram a vida de todos. E que não seja as últimas meninas e mulheres a transformar a realidade de seu país.

*Letícia Piccolotto é Presidente Executiva da Fundação BRAVA e fundadora do BrazilLAB – primeiro hub de inovação GovTech que conecta startups com o poder público

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