“Ao amanhecer, dona Tota chegou a um hospital no bairro de Lanús”, contou Eduardo Galeano certa vez. “Ela trazia um menino na barriga.” Isso aconteceu em 1960. Mais específicamente, no dia 30 de outubro daquele ano. Na véspera do dia que seria o aniversário de 61 anos de Diego Maradona, estreia a série ‘Maradona: Conquista de um Sonho’, do Amazon Prime Video.

Ser fã de futebol é, por mais que não lhe agrade a figura, ou até mesmo o jogador, entender que o craque argentino foi o maior personagem das quatro linhas, fora delas. Por isso, a produção com roteiro de Alejandro Aimetta, Guillermo Salmerón e Silvina Olschansky merece atenção. A série mostra a genialidade de D10s em campo, sem esconder os vícios longe dele.

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Logo nos primeiros minutos de ‘Maradona: Conquista de um Sonho’, o espectador é surpreendido com a espetacular caracterização do ator Juan Palomino, que o deixou a cara do o ex-jogador. Ele representa a versão mais velha do camisa 10, com Juan Cruz Romero sendo a versão criança, Nicolás Goldschmidt interpretando o craque na adolescência e Nazareno Casero como o jogador adulto, durante a carreira.

Outros detalhes chamam atenção aos olhos mais curiosos. Os nomes nos créditos iniciais trocam a letra “i” pelo número “1” e a letra “o” pelo número “0”, entregando várias vezes o número 10 do ídolo argentino. A abertura também leva diversas imagens reais da vida de Maradona.

A história, no começo, consegue costurar bem momentos mais recentes (mas não tão recentes assim) da vida de Don Diego e o seu começo no futebol. Em sua infância pobre, o garoto de 9 anos que começou no Cebollitas disse em sua primeira entrevista que seu sonho era conquistar uma Copa do Mundo. Há tanto a versão encenada como um trecho da gravação real. E como a realidade e como o título da série, Maradona conseguiu.

Maradona Conquista de um Sonho
O começo da carreira do craque é mostrado na série ‘Maradona: Conquista de um Sonho’. Imagem: Prime Video/Reprodução

A produção, claro, não poderia esquecer de citar o craque brasileiro Pelé. É sempre bom lembrar que, apesar da rivalidade inferida aos dois dentro de campo, mesmo que não sendo contemporâneos no profissionalismo, o 10 brasileiro e o 10 argentino sempre mantiveram uma relação de amizade.

Isso tudo é mostrado com idas e vindas no tempo, dos primeiros chutes à vida após a forçada aposentadoria. Também é muito bonito de ver fotos reais de Maradona e gravações antigas da vida do ex-jogador. Há ainda um bom destaque, pelo menos nestes episódios iniciais, à família do argentino, que sempre o apoiou, com ênfase em Don Diego pai e Dona Tota.

E, se a série não se furta a mostrar os problemas de Maradona com álcool e drogas, ela também não apaga a história Argentina. É possível ver a tristeza que abateu o país após a morte do ex-presidente Juan Domingo Perón e como o pai de Diego escondia ser peronista diante da Ditadura Militar Argentina, que durou de 1966 a 1973.

A cronologia, porém, peca um pouco nesse sentido, criando a versão em que Maradona chega a discutir com militares na adolescência. Claro, não seria nenhum absurdo imaginar, afinal o ex-jogador era um apoiador do espectro esquerdo da política. ‘Conquista de um Sonho’ cita ainda a interferência do regime no futebol, esporte usado por diversas ditaduras sul-americanas como propaganda (uma boa dica para quem se interessar pelo temo é a série de documentários ‘Memórias de Chumbo’, veiculada em 2012 pelo canal esportivo a cabo ESPN e produzida por Lúcio de Castro, com episódios sobre Argentina, Brasil, Chile e Uruguai).

Maradona Conquista de um Sonho
A série mostra diversas fases da vida de Maradona. Imagem: Prime Video/Reprodução

Mas, voltando ao que interessa. ‘Maradona: Conquista de um Sonho’ relembra o jeito brigão do jogador desde jovem e mostra as preocupações que seriam de todos, caso houvesse uma bola de cristal. O personagem Francis, o olheiro que o descobriu, tinha medo que uma mudança rápida ou crescimento disparado de Diego atrapalhasse sua cabeça. O que infelizmente aconteceu.

“Diego Armando Maradona foi adorado não apenas por causa de seus prodigiosos malabarismos, mas também porque era um deus sujo, pecador, o mais humano dos deuses”, chegou a dizer o escritor uruguaio Eduardo Galeano uma vez. E era isso. As vezes em que o ídolo chegou a ser hospitalizado abatia os argentinos, o que pode ser visto em tela.

A série também é muito rica em imagens, sejam das cenas gravadas, em ângulos diversos, sejam nos tradicionais moldes do audiovisual. Alguns são voltados a mostrar a destreza (apesar de ser um jogador canhoto) do protagonista com a bola nos pés. Um show de cortes digno das grandes transmissões das Copas do Mundo. Como merecia, e ainda merece, Diego Armando Maradona.

Confira trailer de ‘Maradona: Conquista de um Sonho’:

Alejandro Aimetta é o showrunner e diretor dos episódios filmados na Argentina, no México e no Uruguai, além de ter escrito o roteiro junto a Guillermo Salmerón e Silvina Olschansky. Roger Gual e Edoardo De Angelis dirigiram, respectivamente, episódios na Espanha e na Itália. A produção executiva da série é de Francisco Cordero, Liliana Moyano, Mari Urdaneta, Ricardo Coeto e Luis Balaguer.

Além dos intérpretes do protagonista, o elenco conta ainda com Julieta Cardinali e Laura Esquivel como Claudia Villafañe, ex-esposa de Maradona; Mercedes Morán como Dona Tota; Pepe Monje como Diego, pai do ex-jogador; e Peter Lanzani como Jorge Cyterszpiler, primeiro empresário de Maradona.

Uma curiosidade da série para os brasileiros noveleiros de plantão é a presença do ator franco-argentino Jean Pierre Noher. Na série, ele representa Guillermo Cóppola, empresário de Maradona de 1985 a 2003. O ator já trabalhou em diversas novelas no Brasil, incluindo sucessos como ‘A Favorita’ e ‘Avenida Brasil’. Noher também esteve nos filmes ‘Estômago’, ‘Chico Xavier’ e ‘O Homem do Futuro’.

A série ‘Maradona: Conquista de um Sonho’ terá um episódio disponibilizado a cada sexta-feira. No dia da estreia, serão cinco episódios de uma vez no Prime Video. Os outros chegarão semanalmente até o dia 26 de novembro, um dia após o aniversário de um ano de morte do ex-jogador. São 10 episódios de uma hora cada.

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