Isso vai parecer estranho, mas lembra-se do foguete Angara, lançado pela Rússia na última segunda-feira (27)? Bom, ele está à deriva na órbita da Terra após apresentar uma falha em seu motor, e muito provavelmente ele vai cair – não descer, mas cair – de volta ao solo.

A linha de foguetes Angara foi revelada, originalmente, em 27 de dezembro de 1991, um dia depois da oficialização da queda da União Soviética. Apesar de existir há 30 anos, contudo, a linha só viu três lançamentos, contando com o mais recente, por isso vem sendo tratada como uma “nova” série de veículos de transporte espacial.

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Imagem mostra uma pilha contendo várias unidades do foguete Angara em miniatura
A linha de foguetes Angara vem sendo promovida pelo governo russo como o novo padrão para seu programa espacial, mas falha em lançamento recente coloca essa percepção em dúvida (Imagem: Roscosmos, via Twitter)

O lançamento do dia 27 de dezembro marcou o aniversário de três décadas da linha, uma ocasião aproveitada pelo governo russo para promover um terceiro lançamento. Assim, o foguete Angara-A5 subiu aos céus com uma carga falsa para testes, recebendo todos os louros e congratulações da agência espacial russa Roscosmos e do Ministério da Defesa do país.

As celebrações, contudo, duraram pouco: sua trajetória original o levaria a uma região conhecida como “cemitério orbital”, uma área da órbita da Terra onde satélites, sondas e outras naves são direcionadas para “morrer”.

Antes de chegar ao destino, porém, ocorreu uma falha catastrófica do motor de seu primeiro estágio, que disparou por apenas dois segundos antes de se desligar por completo e deixar o foguete Angara sem propulsão nenhuma.

O problema: o foguete não foi muito longe. Inclusive, ele ainda está tão baixo que especialistas indicam que, logo menos, ele deve passar por uma “reentrada não controlada” – um nome pomposo para “essa nave em forma de charuto vai é cair”.

A boa notícia – ou “meio boa”, pelo menos – é que essa reentrada deve destruir a maior parte do foguete. Entretanto, Jonathan McDowell, astrofísico no Museu Harvard-Smithsonian, disse que, devido ao peso do veículo espacial (algo em torno de quatro toneladas), pedaços dele podem atingir a nossa superfície.

Convenhamos, poderia ser pior. É só perguntar à China…

A situação coloca a imagem pública da Rússia em um ponto complicado: o governo russo almeja que a linha Angara sirva como sucessora dos foguetes Proton, usados desde os anos 1960. Não por menos, o país liderado por Vladimir Putin vem dedicando esforços na divulgação e marketing dos novos foguetes, no intuito de passar uma mensagem de modernização.

Isso, contudo, acaba derrotando esse propósito. E com os problemas enfrentados pelo programa espacial russo em 2021 (módulo Nauka, a explosão de um satélite cujos destroços quase bateram na ISS, para citar alguns…), a percepção pública pode mudar da vodca para a água relativamente rápido.

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