O Canal do Panamá é uma via navegável, construída pelo Homem, que liga a América do Sul à América Central. Usado há mais de 100 anos para encurtar a distância entre o Oceano Pacífico e Atlântico, o canal – uma espécie de atalho – é importantíssimo para o comércio mundial.

Graças ao canal, navios podem transitar entre os oceanos sem precisar contornar a América do Sul, o que economiza muito tempo. E, talvez mais importante: muito dinheiro. Sua história é complexa, bem como sua construção. E, atualmente, o Canal do Panamá enfrenta um obstáculo grande suficiente para se discutir se a hidrovia tem salvação ou não. Mas vamos por partes.

Esta reportagem integra uma série sobre megaprojetos ao redor do mundo, publicada às terças e quintas-feiras. Nesta série, o Olhar Digital já abordou, por exemplo: a usina hidrelétrica Itaipu, a Las Vegas Sphere e a maior ponte marítima do mundo.

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Como o Canal do Panamá funciona

Eclusa do Canal do Panamá
(Imagem: badahos/iStock)

Construído entre 1904 e 1914, o Canal do Panamá foi criado para facilitar o comércio marítimo mundial. Geograficamente, a região do Panamá é um istmo, palavra de origem grega que significa pescoço e define uma faixa de terra cercada por água em ambos os lados que conecta duas outras extensões maiores de terra. Até hoje, o canal construído nesse “pescoço” é considerado um marco da engenharia do século 20.

Graças a ele, navios levam dez horas para trafegar entre os oceanos Atlântico e Pacífico, ao longo de uma faixa de terra de 80 quilômetros localizada na América Central. É a distância entre São Paulo (SP) e Jundiaí (SP), por exemplo. A alternativa é bem mais penosa: contornar a América do Sul, numa viagem de duas semanas.

A revista Superinteressante publicou um infográfico, em 2020, no qual explica como o Canal do Panamá funciona. Segundo a revista, é assim:

‘Manobristas’

Quando a travessia começa, um funcionário da Autoridade do Canal do Panamá (ACP) embarca e assume o comando do navio. Na eclusa (mais sobre elas logo abaixo), locomotivas que correm em trilhos nas margens puxam os navios grandes. É como se fossem os manobristas das embarcações.

Eclusas

Eclusas são uma espécie de elevador aquático porque usam basicamente água e gravidade para subir e descer embarcações grandes. No Canal do Panamá, tanto o acesso do Pacífico quanto do Atlântico contam com eclusas: uma parte é antiga, enquanto a outra é mais recente. Entre 2007 e 2016, o Panamá investiu US$ 5 bilhões (R$ 25 bilhões) num sistema de eclusas mais moderno, capaz de comportar navios com o triplo da capacidade do sistema antigo.

Dá para dividir o uso das eclusas no Canal do Panamá em três etapas:

  1. Ao chegar do oceano, o navio entra no primeiro nível da eclusa. Depois, as portas se fecham (o sistema mais recente tem comportas duplas);
  2. A torre de comando aciona a válvula para que a água do segundo nível desça para o primeiro – conforme este enche, a embarcação sobe;
  3. Quando os níveis se igualam, a porta seguinte abre e o navio segue para o próximo “andar”.

Veja abaixo um vídeo que mostra como tudo isso (inclusive, o trabalho dos “manobristas”) ocorre na prática:

As eclusas antigas enchem com água do lago artificial Gatún (mais sobre ele logo abaixo) e depois a escoa para o mar. Em tempos de seca, o desperdício se torna um baita problema, principalmente em 2024 (mais sobre isso na parte “Canal do Panamá em risco” desta reportagem). Por isso, cada eclusa nova tem três piscinas auxiliares. Essas piscinas armazenam 60% da água usada em cada ciclo para reaproveitá-la.

Lago artificial Gatún

Este é o coração do Canal do Panamá. O lago, com 425 quilômetros quadrados de área, fica 26 metros acima do nível do mar. De um lado, o lago se conecta ao Oceano Atlântico; de outro, ao Pacífico – tudo por meio de rios artificiais, onde ficam as eclusas. Atualmente, o Gatún escoa água para as eclusas e fornece água potável a quase todo o país.

Rio Chagres e taxas de travessia

É no Rio Chagres que fica a represa por meio da qual deu para encher o lago artificial Gatún (o que demorou seis anos). Essa barragem tem uma usina hidrelétrica responsável por abastecer a estrutura do canal e as comunidades próximas.

As taxas de travessia variam entre US$ 2,6 mil e US$ 800 mil (R$ 13 mil e R$ 4 milhões). A variação é enorme porque o preço depende do tipo de embarcação, da carga e até do nível de água do lago. Na prática, essas taxas funcionam de maneira parecida a passagens aéreas: quem compra com antecedência tem desconto.

História do canal

Foto histórica de navios no Canal do Panamá
(Imagem: Reprodução/WWF)

Santa María la Antiga del Darién foi o primeiro assentamento permanente europeu fundado no continente americano. Foi fundado em 1510 na costa do Caribe, perto da foz do rio Tarena (atualmente na Colômbia), pela expedição do espanhol Vasco Núñez de Balboa. Os espanhóis tinham ouvido relatos de nativos de que existiria outra costa marítima ao sudoeste daquele local.

No dia 25 de setembro de 1513, a expedição de Balboa constatou essa possibilidade. O espanhol foi o primeiro europeu a ver o Oceano Pacífico a partir do continente americano – e o batizou de Mar do Sul. Em 15 de agosto de 1519, mais ao norte, foi fundada a cidade de Nostra Senhora de La Asunción de Panamá, o primeiro assentamento europeu nas margens americanas do Pacífico e atual cidade do Panamá, capital do país homônimo. Em menos de dez anos, os espanhóis souberam de uma rota por terra, que era curta e unia os dois oceanos.

Pelo fato da região do Panamá ser um istmo, ela tornou-se uma das mais valiosas de todo o Império Espanhol na América por quase três séculos. Foram construídas duas estradas que ligavam a cidade do Panamá aos portos no Caribe, o que facilitou o transporte de cargas que precisavam ir de um oceano a outro. Esse sistema era chamado de Flota de Índias.

Canal fora do papel

Foi só no século 19 que as ideias de um possível canal começaram a sair do papel, com a primeira ferrovia transcontinental. Em 1880, veio a autorização do governo colombiano para o início das obras pela empresa do francês Ferdinand de Lessep. Mas os desafios da construção quebraram a empresa.

Com a desistência francesa, o governo dos Estados Unidos buscou assumir as obras e o controle do canal por sua possível importância econômica e militar. No início do século 20, os EUA consolidaram sua extensão territorial e presença naval. E viram o controle do canal como estratégico. 

Isso levou à Diplomacia do Canal, incluindo intervenções na Nicarágua e um acordo com a Colômbia para comprar o território em torno do canal em 1903, que não foi ratificado pelo Senado colombiano. Após a independência do Panamá, os EUA assinaram um acordo e retomaram as obras do canal. Os trabalhos adotaram um sistema de eclusas e implementaram medidas sanitárias para controlar doenças transmitidas por mosquitos. 

Inauguração do Canal do Panamá

Foto histórica de navios no Canal do Panamá
(Imagem: Reprodução/Monovisions)

O Canal do Panamá foi inaugurado em 15 de agosto de 1914 e desempenhou um papel crucial durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Após várias reformas e expansões, o controle do canal foi transferido para o Panamá em 1977. E o país lucra bastante com o canal até hoje.

Para você ter ideia, o lucro do país com o Canal do Panamá em 2023 foi de US$ 2,5 bilhões (cerca de R$ 12,5 bilhões) – aumento de 10,2% em relação a 2022. O número também representa 3,3% do PIB do Panamá no ano passado. 

Atualmente, cerca de 24 navios passam pelo canal todos os dias, o que contribui significativamente para a economia do país e para o comércio mundial. Mas esse número já foi bem mais alto.

Canal do Panamá em risco

Graças à falta de chuvas e o fenômeno climático El Niño, 2023 foi o segundo ano mais seco no canal. Ou seja: o Canal do Panamá está secando, conforme apontado pela BBC em março de 2024. E, para lidar com isso, medidas de economia de água foram adotadas. Resultado: menos navios podem passar pelo canal diariamente.

O número de navios permitidos a trafegar pelo canal todos os dias caiu de 36 para 24, em média. E o limite de carga por embarcação também foi reduzido. Consequentemente, essa desaceleração, causada pela falta de água, se torna um problema para o comércio global. E para a população panamenha. Isso porque a Autoridade do Canal do Panamá fornece água potável para metade da população do país – entra aqui até quem mora na capital, a Cidade do Panamá.

No entanto, a chefe de sustentabilidade da ACP, Ilya Espino de Marotta, disse à BBC que eles trabalham para encontrar soluções para garantir que o canal não fique sem água. Illya, no caso, tem focado em desenvolver um plano para investir US$ 8,5 bilhões (R$ 42,5 bilhões) em projetos sustentáveis ao longo dos próximos cinco anos. Assim, ela espera viabilizar a sobrevivência da hidrovia mesmo em meio às mudanças climáticas.

Comporta de eclusa se fechando no Canal do Panamá
(Imagem: SL_Photography/iStock)

Cada navio que passa pelas eclusas “custa” 50 milhões de galões de água. As mais recentes economizam cerca de 60% dessa água (como apontado na parte “Eclusas” desta reportagem), mas as antigas ainda desperdiçam. No entanto, Ilya encontrou maneiras de reutilizar a água nas antigas, por meio do enchimento cruzado. Isso poupa o equivalente a seis travessias por dia.

A chefe de sustentabilidade também considera construir reservatórios. O plano é represar o Rio Índio e transportar sua água doce para o Lago Gatún, o que aumentaria o tráfego de navios entre 12 e 15 por dia. Mas esse projeto ainda não foi aprovado pelo Congresso. E a construção dessa estrutura toda levaria anos.

Outras possibilidades são construir usinas de dessalinização e “plantar nuvens” (implantar grandes partículas de sal nas nuvens para aumentar a precipitação). Tudo isso reforça como as alterações climáticas podem impactar o comércio global. E, neste caso, a sobrevivência do Canal do Panamá – que tem, sim, salvação. Mas não existem atalhos para salvar um dos atalhos mais valiosos do comércio global.