Crítica: leitores de ‘Duna’ não irão se decepcionar com nova adaptação

Renato Mota20/10/2021 08h35, atualizada em 22/10/2021 11h16
Timothée Chalamet como Paul Atreides em ‘Duna’, uma produção da Warner Bros. Pictures e Legendary Pictures. Crédito: Chiabella James/Warner Bros
Timothée Chalamet como Paul Atreides em ‘Duna’, uma produção da Warner Bros. Pictures e Legendary Pictures. Crédito: Chiabella James/Warner Bros
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A Warner tinha um plano. Uma nova franquia para explorar no cinema, com potencial de igualar ‘O Senhor dos Anéis’, ‘Harry Potter’ e ‘Matrix’. Uma nova galinha dos novos de ouro. ‘Duna’, baseado na obra-prima de Frank Herbert, já conta com uma base de fãs apaixonados e, com pelo menos seis livros escritos só pelo criador original, muito conteúdo para ser adaptado. Um dos diretores mais elogiados do momento aceitou o desafio e um elenco estelar foi contratado. Então veio a pandemia de Covid-19.

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De todos os lançamentos de 2020/2021, a primeira parte de ‘Duna’ talvez tenha sido o mais prejudicado.  Com todas as salas de cinema do mundo fechadas, o filme acabou adiado algumas vezes até ser lançado esta semana, no próximo dia 21. Estará disponível também, em alguns mercados, na plataforma de streaming HBO Max (o que lhe rendeu até um vazamento prévio), mas o diretor Denis Villeneuve (‘Blade Runner 2049’ e ‘A Chegada’) sempre defendeu que o longa deveria ser visto na maior tela possível. E ele tem toda razão.

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Lançado como romance em 1965, sempre foi dito que era impossível adaptar ‘Duna’ para os cinemas. Alejandro Jodorowsky tentou em 1974 tornar real uma ideia muito particular que ele tinha do livro, e apesar de contar com um time com nomes como Salvador Dalí, Orson Welles, Jean Giraud (Moebius) e H. R. Giger, falhou. Nos anos 1980, o produtor Dino de Laurentiis escalou  David Lynch para fazer sua versão e, apesar do carinho que os fãs têm por esse longa, também ficou aquém das expectativas.

A partir dessas experiências – e da sua própria carreira como diretor, em especial de filmes de ficção científica (um dia ‘Blade Runner 2049’ será devidamente reconhecido) – Villeneuve já tinha uma ideia do que fazer e do que não fazer na sua oportunidade. E a partir de agora, vou começar a tratar acontecimentos do livro como não sendo “spoiler” e partir do pressuposto que você já conhece o enredo. Essa é uma crítica para quem leu a obra de Frank Herbert e, se você já está familiarizado com o universo de ‘Duna’, ou quer justamente saber quais foram as diferenças, vem comigo. Caso contrário, nosso intrépido Arthur Henrique fez uma resenha para quem não leu o livro, que você pode conferir aqui.

“Arrakis ensina a mentalidade da faca: cortar fora o que está incompleto e dizer que ‘agora está completo, porque acabou aqui’”excerto de “Frases reunidas de Muad’Dib”, da princesa Irulan

A primeira decisão do cineasta já foi acertadíssima: dividiu a trama de mais de 700 páginas do livro em duas e filmou só a primeira metade, ainda assim enxugando parte do enredo. A linha mestra na Parte Um de ‘Duna’ é Paul Atreides (Timothée Chalamet) e sua jornada de transformação entre ser o jovem herdeiro da Casa Atreides e aceitar seu papel como Kwisatz Haderach e Mahdi do povo Fremen. E nesse caminho, o cineasta opta por deixar de lado algumas das subtramas e certas cenas do livro.

É possível ter uma ideia só lendo a relação dos personagens, mas por exemplo não temos nesse filme o núcleo dos Corrino, que inclui o Imperador Shaddam IV (só menções) e a princesa Irulan, e parte dos Harkonnen, em especial Feyd-Rautha. Também é pouco abordado o papel da Guilda de Comércio, então, para a minha decepção, não vemos qual é a aparência de um Navegador no universo de Villeneuve, que era uma das minhas maiores curiosidades. A abordagem ecológica de ‘Duna’ também pouco explorada, mas dada a relevância do tema na atualidade, creio que será aprofundada no próximo filme, bem como os personagens citados.

Por outro lado, temos bastante das Bene Gesserit e de como funciona seu plano de eugenia. Lady Jessica em especial tem bastante destaque no filme, dividindo o protagonismo com Paul, e com Rebecca Ferguson trabalhando, como de costume, de forma extraordinária. O núcleo da Casa Atreides também é bastante explorado, com o duque Leto (Oscar Isaac), o guerreiro-trovador Gurney Halleck (Josh Brolin), Duncan Idaho (Jason Momoa), Mestre-Espadachim dos Ginaz, o mentat e Mestre dos Assassinos Thufir Hawat (Stephen McKinley Henderson e o doutor em medicina pela Escola Suk, Wellington Yueh (Chen Chang). Um ponto interessante disso é que acabamos passando bastante tempo em Caladan enquanto conhecemos os Atreides – talvez até mais do que no livro.

Casa Atreides reunida: Timothée Chalamet (Paul Atreides), Stephen Mckinley Henderson (Thufir Hawat), Oscar Isaac (Duque Leto Atreides), Rebecca Ferguson (Lady Jessica Atreides), Josh Brolin (Gurney Halleck) E Jason Momoa (Duncan Idaho) em Caladan. Imagem: Chiabella James/Warner Bros
Casa Atreides reunida: Timothée Chalamet (Paul Atreides), Stephen Mckinley Henderson (Thufir Hawat), Oscar Isaac (Duque Leto Atreides), Rebecca Ferguson (Lady Jessica Atreides), Josh Brolin (Gurney Halleck) E Jason Momoa (Duncan Idaho) em Caladan. Imagem: Chiabella James/Warner Bros

“Qualquer estrada, se seguida exatamente até seu fim, leva exatamente a lugar nenhum. Escale a montanha só um pouquinho, para verificar se é mesmo uma montanha. Do topo, não se vê a montanha”excerto de “Muad’Dib: Memorial da família”, da princesa Irulan

Essa escolha ressalta outra decisão acertada de Villeneuve: abolir a narração e apostar na atuação do elenco e em poucas cenas de exposição. ‘Duna’, o livro, se passa em grande parte dentro da cabeça dos personagens, nos seus pensamentos e planos, e traduzir isso para outra linguagem sempre foi um desafio. O diretor canadense tomou uma abordagem mais prática e criou mais momentos nos quais os personagens poderiam interagir e exteriorizar partes desses pensamentos. As visões de Paul são contextualizadas pelo próprio, quando as explica para a mãe, e o resto são lições que o protagonista vai aprendendo conforme a história avança.

Os Fremen nos são apresentados nessas lições e visões. A primeira cena do filme coloca o espectador no seu ponto de vista: um povo que há séculos é oprimido, em nome da ganância extrativista do Império Galáctico e sua necessidade infinita da especiaria geriátrica Mélange. Os Harkonnen são os mestres da vez, liderados pelo Barão Vladimir (Stellan Skarsgård) e por Glossu “Beast” Rabban (Dave Bautista), auxiliados pelo mentat Piter De Vries (David Dastmalchian). Porém, por decisão do imperador, esse controle mudará de mãos.

Stilgar (Javier Bardem) lidera os Fremen de Arrakis. Imagem: Chiabella James/Warner Bros
Stilgar (Javier Bardem) lidera os Fremen de Arrakis. Imagem: Chiabella James/Warner Bros

Quando os Atreides se mudam de vez para Arrakis, aí sim começamos a arranhar a superfície da cultura e história do povo do deserto. Parte desses costumes são apresentador pela ecóloga Liet-Kynes (Sharon Duncan-Brewster), uma das mudanças mais notáveis entre livro e filme, já que na obra original, Kynes é um homem. Mas é só isso mesmo, a alteração não faz diferença quase que nenhuma, muito pelo contrário. A ecóloga ganha bastante destaque em seu papel duplo de Juíza de Transição para o Império Galáctico e liderança entre os Fremen de Arrakis.

Isso porque há uma dupla trama se desenrolando. A Casa Atreides vem ganhando poder e prestígio entre as Grandes Casas do Landraad, e por ciúme e medo, o imperador “deu” o planeta Duna para Leto, ao mesmo tempo que armou com o Barão a armadilha para derrubá-lo. Os Atreides sabem disso, e planejam arregimentar os antes oprimidos Fremen para o seu lado – mas antes é preciso conquistar a confiança deles. Ao mesmo tempo, o plano milenar das Bene Gesserit sofre um revés quando Lady Jessica decide ter um filho, e não uma filha, com o Duque. Há gerações a irmandade feminina vem conduzindo cruzamentos entre as linhas genéticas das famílias mais poderosas da galáxia para dar origem ao Kwisatz Haderach, seu Escolhido, que estaria à sua disposição para comandar a humanidade.

“Não há escapatória: pagamos pela violência de nossos ancestrais”excerto de “frases reunidas de Muad’Dib”, da princesa Irulan

Esse é um ponto importante do livro, que é modificado no filme de 1984 mas ressaltado no de 2021, e que ressignifica a jornada de Paul ao messianismo. Paul Atreides não é “O Escolhido” por uma dádiva divina, mas colocado nesse caminho por decisões (deliberadas ou não) das pessoas ao seu redor. As Bene Gesserit moldaram seu DNA ao longo dos séculos e instilaram no povo Fremen a lenda de que, um dia, um salvador viria libertá-los (Missionaria Protectora). O Imperador o colocou em Arrakis com a intenção de matar seu pai e lhe roubar sua herança. O Barão Harkonnen executou o serviço e lhe jogou no deserto. E o mais importante de todos: sua mãe, Lady Jessica, escolheu interromper os planos das Bene Gesserit e treiná-lo na doutrina secreta para que estivesse pronto quando a hora chegasse.

Paul conquista sua messianidade a partir do caminho que lhe foi pavimentado e utilizando o treinamento a qual foi condicionado. Nesse quesito, Villeneuve acerta ao dar destaque para as mulheres da vida de Paul (Jessica, Chani e as Bene Gesserit) e como são elas que realmente movem as engrenagens da história. Ao mesmo tempo Paul tenta, sem sucesso, evitar as consequências dessas decisões, que custarão bilhões de vidas – muitas das quais nem nasceram ainda. Herbert afirmava que escreveu ‘Duna’ porque tinha a ideia de que “líderes carismáticos” deveriam vir com um “sinal de aviso na testa” que advertisse as pessoas sobre o perigo de se entregar o poder absoluto à eles. O recado de 1965 vale tanto na época quanto em 2021, quando outros líderes carismáticos estão fazendo estrago com o poder que lhes foi dado.

Timothée Chalamet como Paul Atreides e Rebecca Ferguson como Lady Jessica. Imagem: Chiabella James/Warner Bros
Timothée Chalamet como Paul Atreides e Rebecca Ferguson como Lady Jessica. Imagem: Chiabella James/Warner Bros

Ainda assim, Paul é um messias relutante, e o filme faz questão em destacar isso. Sua presciência, fruto da sua herança genética e impulsionada pelo uso da especiaria, deixa claro que o futuro da sua insurreição é marcado pela violência. Ele será o líder de uma Jihad que abalará as estruturas da galáxia, e cada decisão o empurra para esse destino. E isso só será possível se ele tornar-se, de fato, Muad’Dib e abraçar o planeta Duna e a cultura do seu povo, comandados por Stilgar (Javier Bardem). Seu ponto de conexão com os Fremen, e com sua própria humanidade, será Chani (Zendaya), a mulher que constantemente aparece em suas visões.

Isso levanta outro tema da obra, que é o questionamento sobre o quanto as profecias moldam as decisões das pessoas, e o quanto as ações dos indivíduos criam novas profecias. O papel de Paul como “salvador” dos Fremen é muito questionável, uma vez que ele mesmo sabe que seu futuro é dos mais sombrios, e que o movimento inspirado por ele causará tanto ou mais sofrimento do que o regime anterior. O próprio Herbert sempre foi crítico ao mito do “salvador” que vai resolver, sozinho, todos os problemas da população. “Desconfie do governo” é um dos pontos-chave do livro que transpassam para o filme.

“Nas profundezas do inconsciente humano, encontra-se uma necessidade difusa de um universo lógico e que faça sentido. Mas o universo real está sempre um passo adiante da lógica”excerto de “Frases reunidas de Muad’Dib”, da princesa Irulan

‘Duna’ é uma história narrada em uma escala imensa, que só pode ser comportada numa tela IMAX. O design dos cenários, naves e até figurinos têm uma proporção épica cujos detalhes são mais bem percebidos no maior quadro possível, com um equipamento de som extraordinário que faça jus à trilha sonora de Hans Zimmer. As canções combinam percussão marcada (como os marteladores que convocam os gigantescos vermes da areia) com corais que são ora inspirados na música árabe (para os Fremen), ora utilizam os vocais guturais tradicionais da Mongólia (para os Harkonnen).

O elenco, não à toa, foi escolhido à dedo pelos produtores. Rebecca Ferguson, como já ressaltei, é o maior destaque, trazendo a humanidade e o misto de resolução e medo que Jessica apresenta em toda história (lembrando que “o medo é o assassino da mente”). Timothée Chalamet como Paul Atreides é uma escolha extremamente feliz porque combina uma juventude e uma certa fragilidade física com um ator que consegue passar profundidade com seu trabalho. Um jovem de 17 anos que já viveu incontáveis vidas. Inteligentemente, Villeneuve nos poupa de um excesso de exposição do Barão Harkonnen, mas sempre que necessário Stellan Skarsgård consegue exprimir sua ganância e ódio contra todos que ele considera inferior, mesmo sob pesada maquiagem.

O Barão Vladimir Harkonnen de Stellan Skarsgård é muito mais ameaçador do que suas contrapartes, um tanto quanto cômicas, do filme de 1984 e da série dos anos 2000. Imagem: Chiabella James/Warner Bros
O Barão Vladimir Harkonnen de Stellan Skarsgård é muito mais ameaçador do que suas contrapartes, um tanto quanto cômicas, do filme de 1984 e da série dos anos 2000. Imagem: Chiabella James/Warner Bros

O elenco Fremen, neste primeiro filme, aparece pouco. Javier Bardem é sempre um deleite de se ver em cena, e Zendaya é mais uma promessa para os futuros filmes do que um personagem de peso nesse. Em compensação,  Oscar Isaac, Josh Brolin e Jason Momoa ganham bastante tempo de tela, em especial o último – o que é uma decisão acertadíssima da produção, caso deseje levar à diante o desejo de não só concluir ‘Duna’ como adaptar também suas continuações.

“A visão do tempo é vasta, mas, quando o atravessamos, o tempo se torna uma porta estreita. E ele sempre resistiu à tentação de escolher um trajeto claro e seguro, advertindo-nos: ‘Esse caminho leva sempre à estagnação'”excerto de “despertar de Arrakis”, da princesa Irulan

A sensação de ver ‘Duna’ no cinema foi muito parecida com a de ver, em 2001, na tela grande, ‘A Sociedade do Anel’, primeira parte de ‘O Senhor dos Anéis’. Testemunhar as palavras de Frank Herbert se materializarem na sua frente, na forma de cenários como o castelo Atreides em Caladan, a fortaleza dos Harkonnen em Geidi Primo, ou o ataque de um imenso Shai-Hulud no deserto de Arrakis. Claro que temos o filme de 1984, os designs criados para o projeto de Jodorowsky nos anos 1970 e uma infinidade de artes inspiradas pelo filme. Mas é outra coisa ver os detalhes do estrado da cama de Paul Atreides, com seus peixes em alto relevo, ou o voo de um ornitóptero, como uma libélula gigantesca, tomarem vida. Esse cuidado é refletido até na coreografia das lutas, que emulam uma arte marcial levando em conta o contexto dos escudos pessoais e combates corpo-a-corpo do universo criado por Herbert.

Assim como as Bene Gesserit, a Warner tinha um plano. E assim como acontece com a Irmandade em ‘Duna’, esse plano foi colocado em risco. O filme é claramente metade de um todo, e depende do seu desempenho nas bilheterias (e no streaming) para que o estúdio invista na tão necessária segunda parte. Está tudo pronto, o palco está armado e os Fremen estão preparados para montar no verme gigante e continuar resgatando o universo criado por Frank Herbert nos anos 1960 para a atualidade (quando ele é mais necessário do que nunca). E como Paul Atreides, eu sonho para que isso aconteça, pois não vejo a hora de retornar para Arrakis.

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Redator(a)

Renato Mota é redator(a) no Olhar Digital