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A inteligência artificial (IA) que mudou tudo. Esse é o consenso entre especialistas ouvidos pelo Olhar Digital quando perguntados qual balanço faziam deste primeiro ano de “vida” do ChatGPT – chatbot da OpenAI que faz aniversário nesta quinta-feira (30).

A reportagem conversou sobre ChatGPT – e IA de maneira geral – com profissionais de diferentes áreas. Da neurociência ao direito, a leitura que todos fizeram deste cenário foi: há uma revolução em curso, muita coisa mudou e muita coisa ainda vai mudar.

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Após um ano acelerado e conturbado, o que será que a OpenAI – e seu novo/velho CEO Sam Altman – tem guardado na manga para 2024? Quais serão os impactos disso? Como nossa vida vai mudar (ainda mais)?

Esse é o tema da quarta reportagem da nossa série especial sobre o aniversário do ChatGPT. Além de explorar o futuro dessa IA, abordamos: como foi o primeiro ano do chatbot da OpenAI, a corrida das IAs e o impacto da IA no mercado de trabalho.

1 ano de ChatGPT

Detalhe da página do ChatGPT
(Imagem: Pedro Spadoni/Olhar Digital)

Antes de olhar para onde vamos, é bom olhar de onde viemos. E definir o que é o quê.

Para começar, o ChatGPT é um modelo de IA conversacional – leia-se: treinado para você conseguir “conversar” com ele – desenvolvido pela OpenAI baseado na arquitetura GPT. É como se o “GPT” fosse o nome do motor do chatbot. Ou do cérebro dele.

A produção de textos, como faz o ChatGPT, é em essência um cálculo probabilístico. Uma capacidade maciça de computação que, após ter deglutido o número de livros que uma pessoa sozinha levaria 20 mil anos lendo, é aplicada para calcular qual a palavra mais provável de aparecer após a anterior quando se compara trilhões de textos.

Agora, vamos ao balanço do primeiro ano de existência do ChatGPT. Em entrevista ao Olhar Digital, o dr. Álvaro Machado, neurocientista e colunista do site, separou a inovação trazida pelo chatbot em três pontos:

  1. Número de parâmetros usados no treinamento: com mais treinamento, o ChatGPT tem mais texto organizado na sua “memória” e, consequentemente, consegue gerar mais combinações significativas;
  2. Aprendizado com reforço de feedback humano: separaram o que é o treinamento do algoritmo com o treinamento de políticas, macroestruturas – e usaram pessoas para classificar as respostas do algoritmo;
  3. Janela de referência (ou atenção): o ChatGPT tem uma espécie de memória de trabalho (conjunto gigantesco de treinamento), quase uma “pseudoconsciência” – que se expandiu muito tanto no GPT-3.5 quanto no GPT-4.

Para o neurocientista, a inovação trazida pelo ChatGPT fez da plataforma “o software de maior sucesso da história” e gerou uma “corrida monstruosa” que mudou o paradigma no trabalho para muita gente. Mas não para por aí.

O ChatGPT mudou o debate sobre o futuro. Se existia preocupação, interesse e empolgação com a transformação do trabalho, da comunicação humana e do relacionamento que temos com entes e agentes autônomos e inteligências artificiais, ela [a OpenAI, com o ChatGPT] fez tudo isso explodir. E um tema que estava entre o exótico e o secundário se tornou um dos debates principais da humanidade.

Dr. Álvaro Machado, neurocientista e colunista do Olhar Digital

Multiplicação dos ChatGPTs

Detalhe da página do ChatGPT
(Imagem: Pedro Spadoni/Olhar Digital)

Em entrevista para a reportagem do Olhar Digital sobre o primeiro ano do ChatGPT, Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, disse ser complicado traçar insights futuros para a IA generativa – tecnologia por trás do ChatGPT, por meio da qual ele “cria” – por conta da velocidade dos lançamentos nesta área. Inclusive, da própria OpenAI.

Quase como um presente de aniversário, a startup anunciou um upgrade no chatbot, com o GPT-4 Turbo – que ocupa agora a posição de IA mais poderosa já lançada pela OpenAI. Além dessa novidade, a empresa informou que permitirá que qualquer pessoa agora crie seu ChatGPT.

A mudança no GPT-4 foi muito grande, com a possibilidade de customização, ou seja, a pessoa conseguirá criar literalmente o seu ChatGPT para usos específicos. Os próximos anos estarão ligados a ainda mais integrações, um aumento de poderio também da inteligência artificial em si, e mais possibilidades multimodais crescentes. O ChatGPT ganhou ainda essa questão de poder importar documentos e gerar imagens, acredito que tudo isso vai se potencializar de uma forma bastante grande.

Arthur Igreja, em entrevista ao Olhar Digital
Detalhe da página do ChatGPT
(Imagem: Pedro Spadoni/Olhar Digital)

No entanto, os advogados Hélio Tomba Neto e Eduardo Helaehil, especialistas em Direito Digital e diretores da Associação Digital Rights, explicaram ao Olhar Digital um possível desdobramento desse update que, segundo eles, é pouco discutido atualmente.

“Antes [da atualização], eu poderia atribuir uma violação de direitos autorais à OpenAI, uma vez que ela estava trazendo essa base [de dados] pela utilização do GPT”, disse Helaehil. “Agora, se eu tenho todo mundo usando o próprio GPT, é como se fosse uma massificação de infração coletiva de direitos autorais, sem ninguém fiscalizando”, acrescentou.

Esta não foi a primeira vez que a dupla conversou com a reportagem para esclarecer os limites de direitos autorais no uso do ChatGPT. Em abril, eles explicaram que, a princípio, copiar textos gerados pelo chatbot não é plágio. De lá para cá, o principal ponto que mudou, segundo o advogado Hélio Tomba Neto, foi a “evolução das discussões”. Segundo ele:

A gente ainda tinha muito cru [em abril] como os chatbots poderiam ser utilizados para fins comerciais. Existe uma questão ética envolvendo os chatbots. O grande ponto é a finalidade. Discute-se hoje a finalidade da utilização do ChatGPT. E existem discussões efetivas sobre o quão impactante é para os autores ter seu material utilizado como base para fundamentação da base de dados do chatbot.

ChatGPT em 2024: o que vem por aí?

Detalhe da página do ChatGPT
(Imagem: Pedro Spadoni/Olhar Digital)

Em relação a possíveis rumos do ChatGPT em 2024, Eduardo Helaehil aposta na substituição dos advogados que não usarem a tecnologia e na aceleração do ritmo do Judiciário. E Hélio Tomba Neto acrescentou: “A gente precisa de profissionais que não só trabalhem com o ChatGPT, mas que pensem em como usá-lo para acelerar [os processos]. E trazer essa visão mais célere do Direito para os estudantes”.

O neurocientista dr. Álvaro Machado apontou que os algoritmos estão se tornando multimodais. “Ao passo que, sob o capô, parece haver mudanças relevantes em curso, cujo entendimento é ofuscado por boatos. A principal seria a incorporação do raciocínio matemático e do planejamento à família GPT, o que ampliaria dramaticamente o seu uso”, disse.

O especialista tem outra aposta para 2024: a aplicação do ChatGPT para impulsionar inovações que vão ter alto impacto social em poucos anos – inclusive, já está acontecendo. Para embasar seu argumento, ele citou Drew Weissman e Katalin Karikó, vencedores do Nobel de Medicina em 2023 pelo desenvolvimento de vacinas de RNA contra a Covid.

Isso significa que existem áreas nas quais vacinas podem ser desenvolvidas muito rapidamente. A principal delas é o câncer. Agora dá para ‘genotipar’ o câncer de uma pessoa e desenvolver uma vacina de RNA para o organismo daquela pessoa reagir. É uma imunoterapia multiplicada por um milhão. A tendência é usar algoritmos generativos para multiplicar isso por 20.000%. Dê o prompt para o algoritmo generativo em cima das mutações do câncer para ele criar a receita para o desenvolvimento de antígenos.

Dr. Álvaro Machado, neurocientista e colunista do Olhar Digital
Detalhe da página do ChatGPT
(Imagem: Pedro Spadoni/Olhar Digital)

Bruno Alano, brasileiro que atuou em um grupo de pesquisas da OpenAI, acrescentou que o atual boom da IA trará um futuro onde a inovação será cada vez mais direcionada para o desenvolvimento de modelos menores e especializados, tudo parte de uma evolução natural do campo da inteligência artificial – tendência na qual a OpenAI já caminha com a nova capacidade de usuários criarem seu próprio ChatGPT.

Com o crescimento exponencial da IA, as empresas que conseguirem desenvolver e manter um ‘moat’ – uma vantagem competitiva sustentável – baseado em dados exclusivos e insights específicos do setor, estarão em uma posição privilegiada no mercado. O futuro da IA é promissor e oferece um potencial incrível para transformar positivamente vários campos, desde a saúde e educação até a indústria e os serviços.

Bruno Alano, ex-pesquisador da OpenAI, em entrevista ao Olhar Digital

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