Nas noites entre a próxima sexta-feira (20) e domingo (22), será possível observar a Lua “próxima” de Saturno e Júpiter no céu. O fenômeno, chamado conjunção, será observado a partir do horizonte leste, logo ao anoitecer. Na primeira noite, nosso satélite natural estará (por um efeito de perspectiva para um observador da Terra) à direita de Saturno, na seguinte, entre Saturno e Júpiter, e, no 22, um pouco abaixo de Júpiter.

Nessas noites teremos fenômenos interessantes, que vale a pena acompanhar. Esses planetas estarão muito brilhantes contra o fundo do céu. No dia 19, às 21h, Júpiter estará em oposição, o que significa dizer, do lado oposto ao Sol (também do ponto de vista de um observador da Terra) como ocorreu com Saturno no início do mês, no dia 2.

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Considerando as órbitas dos dois planetas, nessa época eles ficam mais próximos da Terra. Um observador deve considerar que, quando o Sol se põe no oeste, às 17h52 no horário de São Paulo, Júpiter nasce no leste, quase no mesmo horário. Na noite do dia 22 a fase da Lua será Cheia, e ela também nascerá no leste.

De cima para baixo: Saturno, Júpiter e a Lua, como aparecerão à leste por volta das 19h do dia 22 de agosto. Imagem: Paulo S. Bretones, via Stellarium

Também no começo dessa noite, no oeste, será possível observar, a menos que o céu esteja encoberto por densas nuvens, algo improvável no inverno: o planeta Vênus, também muito brilhante. Ele estará, por volta das 19h10, na mesma altura de Júpiter em relação ao horizonte.

A observação dessas passagens combinadas de Lua e planetas brilhantes como Júpiter e Saturno é importante na sensibilização e desenvolvimento de interesse pelos movimentos no céu, em especial para crianças que poderão desenvolver, desde cedo, atração pelos fenômenos celestes.

A partir dessas observações, mesmo adultos sensibilizados poderão conhecer referências sobre os movimentos, brilhos, distâncias e composições de cada um desses corpos. Júpiter e Saturno, por exemplo, são gigantes gasosos em cuja superfície um astronauta não poderia pousar. E essa não é a única limitação: radiação intensa também afetaria o corpo de um astronauta.

Imagem do solo de Vênus feita pela sonda russa Venera 13 em 1982
Uma das poucas imagens que temos da superfície de Vênus, feita pela espaçonave soviética Venera 13 em 1º de março de 1982. Duas horas após o pouso, ela sucumbiu à temperatura de 457 ºC e pressão 89 vezes maior do que ao nível do mar na Terra. Imagem:

Vênus, ao contrário, é um mundo sólido, de porte parecido ao da Terra, mas também proibido para o pouso de um astronauta. Sua atmosfera é corrosiva, composta por ácido sulfúrico. A pressão atmosférica na superfície é capaz de esmagar uma nave e uma elevada temperatura, em torno de 400º C é outro risco mortal. Essas comparações são importantes para percebemos a Terra como o único oásis no céu onde sabemos, ao menos até agora, da existência de uma civilização em meio a uma quase infinita e fascinante variedade de formas de vida.

A Lua, sempre referida como satélite natural da Terra, tem porte três vezes e meia menor que a Terra e nas noites dessas conjunções estará a cerca de 375 mil quilômetros de nós. Muito mais distante, a cerca de 753 milhões de quilômetros, estará Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar. Ele é nada menos que 1.300 vezes maior que a Terra em volume, composto principalmente de hidrogênio, amônia e metano.

Saturno está a 1,5 bilhão de quilômetros, e é o segundo em tamanho. Vênus é quase uma irmã gêmea da Terra, em termos de tamanho, e nos próximos dias estará a uns 110 milhões de quilômetros. Nas condições agressivas desse mundo é possível que nenhuma forma de vida esteja presente, ainda que seja arriscado ser taxativo em casos como este.

Uma outra diferença: Vênus não tem uma Lua, ao contrário de Marte, que entre nossos dois vizinhos mais próximos é o único com duas, mas incomparáveis em relação à Lua da Terra. Batizadas de Fobos e Deimos (Deuses do Medo e Terror na mitologia grega), são duas pequenas “batatas cósmicas”, apagadas no céu marciano em comparação com o satélite da Terra.

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Na verdade, os astrônomos consideram a Terra e a Lua como um sistema binário, ou um sistema planetário duplo. A lua da Terra é menor que muitas outras luas do Sistema Solar, incluindo aquelas que giram em torno de Júpiter e Saturno. Comparativamente ao planeta que orbita, no entanto, a lua da Terra é grande e isso leva os astrônomos a considerar esses dois mundos como um sistema binário.

Com um pequeno telescópio pode-se observar tanto crateras como montanhas na superfície da Lua. Telescópios, mesmo de pequeno porte, também mostram, como piolhos cósmicos, luas em Júpiter e os brilhantes e inconfundíveis anéis de Saturno. As temperaturas nesses mundos em torno dos grandes planetas do Sistema Solar costumam ser muito baixas, incomparáveis mesmo com as noites mais frias que atravessamos neste inverno.

A Lua é um caso extremo, ainda que também não seja o único: a parte iluminada do satélite da Terra chega a 120 °C, enquanto o lado oposto, fica a gélidos -150 °C. A Lua, certamente é o caso de lembrar, tem sempre a mesma face voltada para a Terra devido a uma razão gravitacional. Mas, ao contrário do que muita gente pensa, e o que a banda inglesa Pink Floyd canta, não existe um “lado escuro” da Lua. Júpiter também é um mundo gélido e Saturno, mais distante do Sol, é ainda mais frio, sem comparação mesmo com a Antártida, o continente mais gelado da Terra.

Aos olhos eletrônicos das espaçonaves que que passaram por esses planetas, em direção às bordas do Sistema Solar, como seria a Terra vista de lá? Esta é uma fotografia da Terra feita em 1990 pela Voyager-1, a uma distância de seis bilhões de quilômetros.

Nesta imagem feita pela Voyager-1 em 1990, a Terra é um minúsculo ponto azul no meio do raio de luz da direita
Nesta imagem feita pela Voyager-1 em 1990, a Terra é um minúsculo ponto azul no meio do raio de luz da direita. Imagem: Nasa

Essa imagem distante da Terra recebeu do astrônomo norte-americano Carl Sagan (1934-1996) o nome poético de “Pálido Ponto Azul”. Sagan, que levou a astronomia para milhões de pessoas em todo o mundo, sempre enfatizou a necessidade de uma amabilidade na Terra, acompanhado de uma preocupação ambiental para com esse único mundo conhecido repleto de vida.

E isso inclui uma sensibilidade para, nessas noites geladas de inverno, podermos participar de movimentos como doação de agasalhos e acolhimento de moradores em situação de rua que podem ter perdido seus empregos e o abrigo de uma casa de que puderam desfrutar num dia do passado. A pandemia de Covid-19 em parte é responsável por uma desagregação social pelos efeitos que provoca, mas nada justifica que milhares de pessoas não tenham a proteção de um teto contra as intempéries. Sagan sempre se referiu a situações de solidariedade que podem mudar essas situações de desamparo.

Texto de autoria do Prof. Paulo Sergio Bretones, Departamento de Metodologia de Ensino/UFSCar, e Ulisses Capozzoli, editor da Scientific American Brasil por 12 anos

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