A destruição do satélite soviético Cosmos 1408 por um míssil anti-satélite russo, ocorrida na última segunda-feira (15), está dando o que falar. Embora os russos garantam que “os fragmentos resultantes não representam qualquer ameaça às atividades espaciais”, a situação parece ser bem mais séria do que deixam transparecer. Algo que fica evidente com uma análise recém-divulgada pela empresa LeoLabs, especializada em segurança e monitoramento da órbita baixa da Terra (LEO, Low Earth Orbit).

Antes de mais nada, a empresa afirma que a maior parte das informações necessárias para recriar simulações precisas do evento provavelmente nunca estará disponível, portanto ele tem de ser estudado com base em observações empíricas dos fragmentos e “regras gerais” desenvolvidas durante a análise de eventos similares no passado.

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Mais especificamente, a LeoLabs cita como parâmetros a colisão entre o Iridium 33 e Cosmos 2251, em 2009, e um teste de arma antissatélite (ASAT) chinês que destruiu o satélite Fengyun 1C em 2007.

Ilustração de um satélite soviético baseado na plataforma Tselina-D, a mesma usada pelo Cosmos 1408. Imagem: KB Youzhnoïe
Ilustração de um satélite soviético baseado na plataforma Tselina-D, a mesma usada pelo Cosmos 1408. Imagem: KB Youzhnoïe

E a empresa é categórica em afirmar: “Haverá algum risco potencial de colisão para a maioria dos satélites em órbita baixa da Terra devido à fragmentação do Cosmos 1408 durante os próximos anos ou décadas”.

“Embora qualquer teste ASAT seja uma ideia terrível, este ocorreu em uma das piores órbitas possíveis”, diz o relatório. “Este satélite estava em uma órbita de alta inclinação, a uma altitude que o colocava bem no meio de muitos outros ativos operacionais; notavelmente, estava a menos de 100 km acima da Estação Espacial Internacional e a menos de 100 km abaixo de várias constelações comerciais, incluindo a frota Starlink da SpaceX”. 

Além disso, o Cosmos 1408 era um satélite de grande porte, com peso estimado em 2.200 kg. Ou seja, tem material suficiente para gerar muitos e muitos destroços. Quantos? O 18º Esquadrão de Controle Espacial dos EUA afirma ter rastreado mais de 1.500.

A LeoLabs afirma ter determinado a órbita de 253 destes objetos até esta quarta-feira (17). E os destroços podem ser agrupados em dois tipos: os que foram ejetados para um perigeu (ponto de aproximação da Terra) mais baixo tem órbitas que serão “circularizadas” rapidamente.

Ou seja, devem ficar pouco tempo no espaço e reentrar nossa atmosfera nos próximos cinco anos. Mas o perigo está nos que foram ejetados para órbitas mais altas, que demorarão mais para circularizar e levarão muito mais tempo para reentrar nossa atmosfera, provavelmente décadas.

A longevidade destes destroços irá depender da área e massa dos objetos, sua altitude e até mesmo que de materiais são feitos. Por exemplo, a colisão entre o Iridium 33 e o Cosmos 2251 em 2009, a 788 km de atitude, deixa clara a diferença.

O Iridium era um satélite moderno, feito com materiais leves, e a maioria de seus destroços já reentrou nossa atmosfera nos últimos 12 anos. Já o Cosmos 2251 era um satélite soviético construído “como um tanque” durante a Guerra Fria, e a maioria de seus destroços ainda está em órbita.

Nem mesmo a quantidade de destroços gerados pela destruição do Cosmos 1408 pode ser determinada com exatidão, pois muitos fragmentos são pequenos demais para serem detectados por nossos sistemas. Mas analisando os resultados de um teste militar similar, a destruição do satélite Fengyun 1C por uma arma antissatélite chinesa em 2007, os 1.500 fragmentos reportados pelo 18º Esquadrão de Controle Espacial seriam um “melhor caso”. 

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Isso porque o Fengyun 1C pesava 950 Kg, e sua destruição gerou mais de 3.000 fragmentos rastreáveis. Aplicando a mesma relação entre fragmentos e peso, o Cosmos 1408 deveria ter gerado mais de 8.000 fragmentos.

Uma especulação é que o Cosmos 1408 tenha sido “parcialmente” destruído, o que significa que grandes partes do satélite teriam ficado intactas. A má notícia é que esses pedaços maiores, com massa de dezenas de quilogramas, poderão vagar pelo espaço por mais tempo do que fragmentos menores.

Alguns desses fragmentos, afirma a LeoLabs, podem ser tão grandes, ou maiores, do que muitos Cubesats operando em LEO. Cubesats são satélites construídos com uma estrutura padronizada, com um volume de 1 m³ e 1 metro de comprimento, largura e altura.

A empresa afirma que os números serão refinados ao longo do tempo, à medida que mais observações forem feitas, mas que sua conclusão sobre as ramificações deste evento a longo prazo não deve mudar drasticamente.

“Este evento terá efeitos duradouros no ambiente operacional em LEO por muitos anos”, conclui.

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