As imagens de um desabamento de rochas nas encostas de um cânion na cidade de Capitólio, no centro-oeste de Minas Gerais, pegaram o Brasil de surpresa e assustaram a todos que as viram. O acidente fez mais de 30 vítimas, sendo dez delas fatais.

O acidente tomou proporções trágicas por ter acontecido no Lago de Furnas, um ponto turístico, e ter atingido pelo menos quatro embarcações de pequeno porte.

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Para entender melhor as causas e formas de prevenir tragédias como a ocorrida em Capitólio neste sábado, o Olhar Digital conversou com a geóloga e ex-membro da Defesa Civil da cidade de Santos, Mayra Macchi, que estuda deslizamentos de terra e já esteve em Capitólio estudando as rochas da região.

Por que o paredão caiu?

De acordo com Macchi, rochas estão sujeitas a ação gravitacional em diferentes escalas. “O paredão em questão tem em torno de 5 metros de altura e sua inclinação é praticamente vertical. Nesses casos os riscos de colapso das rochas são elevados mas dependem de seu grau de fraturamento”, explica a geóloga.

A pedra que se desprendeu em Capitólio tem como composição uma rocha conhecida como quartzito, que tem um alto grau de fraturamento. Quedas como essa são bastante comuns, mas, em geral, acontecem em lugares remotos, o que não acarreta o risco de perdas materiais ou de vidas humanas.

A região de Capitólio é conhecida dentro da geologia como local de estudo sobre rochas. Segundo Macchi, não é incomum que professores universitários levem os alunos à região para a realização de pesquisas de campo. Por conta disso, é provável que a área já estivesse mapeada e o risco de queda fosse conhecido.

“Eu acredito que possa ter acontecido uma falta de comunicação, de avisar que era um paredão muito frágil e que tinha risco”, explica. “E se estiver chovendo, o risco é duplicado”. Desde dezembro, o nordeste, centro-oeste e parte do sudeste do Brasil têm enfrentado fortes chuvas.

Tragédia era evitável?

Segundo a geóloga, era necessária a instalação de placas de aviso sobre os riscos nas áreas de cânions. Porém, em sua visita ao local, Mayra Macchi não se recorda de ter visto nenhum aviso sobre os risco de colapso dos cânions, apenas sobre as quedas d’água da usina hidrelétrica de Furnas.

Apesar de Capitólio ser uma área densamente estudada, a área do paredão que caiu é de difícil acesso por meios convencionais. Para chegar ao topo da rocha e estudá-la a fundo, seria necessário que uma geólogo profissional e experiente e com habilidade para acessar o local de rapel, algo que não é muito comum.

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Porém, para alguém que tem os olhos treinados, uma rocha com aquele desenho gera preocupações. Por conta disso, o acesso de turistas àquele local deveria ter alguns empecilhos.

“Era uma coisa que a gente não conseguiria prever com exatidão que aconteceria, mas sem saber o quanto de rocha que desprenderia, onde ia desprender e pra onde ela ia cair”, explica. “O formato do corpo e quanto ele se desprende, são coisas que a gente nunca consegue prever”, completa.

O que deveria ter sido feito?

Por mais que acidentes como o ocorrido em Capitólio não sejam previsíveis, seria possível evitar que o local tivesse circulação de pessoas no momento da erosão da rocha. Medidas simples poderiam ter sido tomadas, como a sinalização por meio de placas e a orientação para que os turistas se afastassem das áreas de encostas.

Porém, uma explicação possível para a ausência de sinalização adequada é um temor das autoridades locais de diminuir o potencial da exploração turística. Para o trânsito em segurança dos turistas, seria necessária uma delimitação da área permitida ou a realização obras de drenagem e estabilização, em geral custosas.

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