Quando, há mais de 2.400 anos, Protágoras de Abdera disse “O homem é a medida de todas as coisas” talvez não quisesse ser tão literal em suas palavras, mas foi. Naquela época, as medidas eram tomadas usando partes do corpo humano como referência. 

Cada reino, cada região, cada cidade, mantinha seus padrões de medidas, baseadas, por exemplo, na distância entre a ponta do nariz e o dedo polegar, no tamanho de um polegar ou de um pé, sabe-se lá de quem. Não devia ser nada fácil fazer comércio ou ciência sem nem mesmo concordar nas unidades de medidas.

Portal no Castelo de Sortelha, em Portugual. Em destaque, as medidas padrões vigentes no antigo reinado entalhados no portal – Foto: Câmara Municipal de Sabugal

Pois essa confusão durou pelo menos até 1795, quando a França introduziu o Sistema Métrico Decimal. Um sistema revolucionário, criado para se tornar um padrão internacional e científico, que era baseado em uma medida universal: a Terra. 

O sistema universal de medidas era um desejo antigo

Mas na verdade, aquela ideia era antiga. Ela havia surgido mais de 100 anos antes, quando o astrônomo Gabriel Mouton sugeriu a criação de um sistema único de medidas. A ideia era “simples”: medir a distância entre a linha do Equador e o Polo Norte, através do meridiano que passa por Paris. A décima milionésima parte daquela distância seria chamada “metro” e seria a base para as demais medidas. 

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Definição original do metro: a décima milionésima parte da distância entre a Linha do Equador e o Pólo Norte medida a partir do meridiano que passa por Paris – Fonte: U.S. Government / wikimedia.org

Mas o governo francês da época não estava muito interessado na Ciência. O Rei Luís XIV estava mais preocupado com a Economia, e aquele negócio de medir a Terra parecia algo muito caro. E com isso, o tempo foi passando e o governo sempre tinha algo mais importante para investir. 

A adoção de um novo e universal sistema de medidas parecia algo muito moderno e revolucionário para aquela França aristocrática e feudal. Para que a ideia do metro se tornasse uma realidade, precisaria haver uma revolução. E ela ocorreu!

Se é para revolucionar, nada melhor que uma revolução

Em 1789, explodiu a Revolução Francesa. A população perdeu de vez a paciência com a aristocracia, e os aristocratas estavam perdendo suas cabeças. A Revolução Francesa teve impactos profundos em várias áreas da política, cultura e ciência. Uma delas, foi a reformulação dos padrões de pesos e medidas vigentes no país.

Decapitação de Maria Antonieta, rainha da França em 1793 durante a Revolução Francesa – Reprodução: Museu da Revolução

Para realizar essa tarefa, a Academia de Ciências de Paris designou uma comissão de cientistas renomados. Entre eles, estavam Borda, Delambre, Lagrange, Lalande, Laplace, Lavousier e Méchain. A comissão logo resolveu adotar a ideia de Mouton, e em junho de 1792, duas equipes lideradas por Joseph Delambre e Pierre Méchain partiram de Paris para o que seria uma missão sem precedentes na história: medir o tamanho da Terra.

A medição seria feita no trecho entre Dunquerque, na França, e Barcelona, na Espanha. Conhecendo a diferença de latitude entre os dois pontos, a distância medida poderia ser replicada para se calcular o tamanho da Terra. 

Delambre foi em direção ao norte, para Dunquerque, e Méchain para Barcelona, ao sul. Combinaram de se encontrar em Paris um ano depois, trazendo suas medições para calcularem o tamanho da Terra e definir a medida do metro. 

Joseph Delambre, a esquerda, e Pierre Méchain, a direita – Fonte: wikimedia.org

Ambos saíram de Paris com uma ordem assinada pelo Rei Luís XVI e uma carruagem abastecida de suprimentos e dos mais modernos e precisos instrumentos científicos da época. O principal desses instrumentos era o Círculo Repetidor de Borda. Ele era instalado nas torres mais altas de cada cidade.

Durante a noite, ele funcionava como sextante, e era usado para determinar a latitude local a partir da observação das estrelas. Durante o dia, funcionava como um teodolito para medir as distâncias a partir do ângulo entre duas torres distantes, com distância conhecida entre elas. Usando geometria, calculavam os outros lados do triângulo e partiam para a próxima cidade.

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De missão para aventura, de aventura para epopéia

À esquerdam, Círculo Repetidor de Borda. À direita, linhas das triangulações (em vermelho) para medição do trecho do meridiano (em cinza) que passa por Paris – Fonte: Association Française pour L’Avancement des Sciences

Só que para observar as estrelas, os astrônomos precisavam de céu limpo, e esse foi o primeiro dos problemas encontrados por eles. Diversas noites fechadas impediram o início dos trabalhos por várias semanas. Além disso, a França ainda estava no meio de uma revolução, e 3 meses após o início dos trabalhos, o Rei Luís XVI foi deposto e, em seguida, decapitado. 

A partir de então, aquela ordem real passou a ser ignorada ou, pior, ser considerada como uma prova de que aqueles cientistas não representavam os ideais revolucionários. Delambre chegou a ser preso algumas vezes e só continuou suas medições depois de receber uma nova ordem, dessa vez, do governo revolucionário. A coisa não estava boa, mas do lado de Méchain, estava pior.

Pierre Méchain era, sem dúvida, um dos mais experientes astrônomos de sua época. Sua tarefa estava bem mais adiantada, até porque ele não encontrou, no início, tanta resistência e desconfiança quanto Delambre. Mas só no início. Quando chegou a Barcelona, no entanto, enfrentou um acidente que por pouco não lhe tirou a vida. 

Ao encontrar com o famoso astrônomo Pierre Méchain, um inventor local quis lhe mostrar uma bomba d’água que ele havia construído. Durante a visita à bomba, Méchain foi atingido acidentalmente por uma alavanca de ferro, que lhe quebrou a clavícula e várias costelas. Ele ficou em coma por três meses e quando acordou, se deparou com um novo capítulo da história: a França havia entrado em guerra com a Espanha e ele ficaria em prisão domiciliar em Barcelona por vários meses

E foi durante sua prisão na Espanha que Méchain percebeu uma falha em suas medições. Havia uma diferença de 3 arco-segundos na medição da latitude do local. Ele não conseguiu explicar o porquê dessa diferença e decidiu não informar sobre seu erro. Mas como ele era um perfeccionista, não se conformou com aquilo e tentou encontrar o erro até os últimos dias de sua vida. 

Todos esses percalços, erros e acidentes, transformaram aquela missão numa verdadeira epopéia, que só foi concluída sete anos mais tarde. 

Um novo sistema de medidas para o mundo

A coisa demorou tanto que a França acabou adotando oficialmente o Sistema Métrico em 7 de abril de 1795, antes mesmo que Delambre e Méchain completassem as medições. Como referência para o tamanho do metro, foi utilizado o cálculo do tamanho da Terra feito por Cassini III, 30 anos antes. 

Em 1799, quando Delambre concluiu suas medições e conseguiu convencer Méchain a apresentar seus resultados, mesmo com o suposto erro, a medida do metro foi recalculada e foram produzidos os padrões em platina e aço que foram distribuídos para as delegações estrangeiras. 

Após a morte de Méchain em 1804, Delambre assumiu a missão pessoal do amigo e descobriu a origem da “anomalia de Barcelona”, mostrando que a diferença não afetava em nada o resultado final dos cálculos. Méchain havia morrido sem saber que ele, juntamente com Delambre, haviam medido com precisão o tamanho da Terra, medida que deu origem ao novo padrão universal de medidas, o metro.

Barra de metro padrão produzido em platina em 1799 – Créditos: Bureau Internacional de Pesos e Medidas

Todas as demais unidades de medida foram redefinidas a partir do metro. O litro passou a ser a unidade de volume, e era equivalente ao volume de um cubo de 10 centímetros de lado. O quilograma, seria a massa de 1 litro de água. Seus múltiplos e submúltiplos agora tinham uma base decimal, o que facilitava os cálculos. 

Resistências às novas medidas

Tudo deveria ser mais simples a partir de então. Mas não foi. Mesmo na França, a população resistia a substituir suas velhas unidades de medida. Levou quase um século para que os franceses adotassem, de fato, o sistema métrico. E no resto do mundo não foi diferente. Aqui, no Brasil, em 1874, comerciantes se rebelaram contra o sistema métrico e iniciaram a “Revolta do Quebra Quilo”, quebrando as balanças que utilizavam o quilograma como medida. 

Revolta do Quebra-Quilos, iniciada no Nordeste Brasileiro em 1874 – Foto: Torsade de Pointes

Como vocês podem imaginar, a revolta deu um bom lucro aos técnicos de balanças, mas não impediu que o Sistema Métrico Decimal fosse adotado no Brasil e em quase todo o mundo. Hoje, os únicos países que não o utilizam oficialmente são os EUA, a Birmânia e a Libéria.

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